Marinha do Brasil ocultou documentos e informações sobre mortes na Ditadura, diz Comissão da Verdade
Presidente Itamar Franco pediu dados sobre desaparecidos, mas não recebeu documentos
Brasil|Gustavo Frasão, do R7, em Brasília
A Marinha do Brasil ocultou documentos e informações que tratavam sobre a morte de pessoas vítimas da violência provocada durante o período da Ditadura Militar no País, entre 1964 e 1985. A afirmação é da historiadora e pesquisadora responsável pelo trabalho da CNV (Comissão Nacional da Verdade), criada há um ano, Heloísa Starling.
A historiadora destacou que o ponto mais alto da investigação diz respeito à criação do CNMAR (Centro de Informações da Marinha), um dos serviços secretos de repressão utilizado na Ditadura. O órgão era o mais elevado e "feroz" das forças armadas, incluindo Aeronáutica e Exército.
— A Marinha ocultou deliberadamente as documentações. Em 1972, o CNMAR (Centro de Informações da Marinha), sabia que várias pessoas foram mortas pela repressão e ocultou essas informações. Anos mais tarde, em 1993, quando o então Presidente da República, Itamar Franco, solicitou informações sobre essas vítimas que constavam no banco de dados como "desaparecidos políticos", o comando da Marinha simplesmente disse que não sabia sobre elas.
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Para chegar ao resultado, foram ouvidas 207 vítimas e testemunhas das violações de direitos humanos cometidas no Brasil durante a Ditadura. Membros, assessores e pesquisadores da Comissão se uniram e conseguiram ter acesso a documentos secretos e ultrassecretos no Acervo Nacional e cruzaram os dados com os relatos.
O coordenador da Comissão, Paulo Sérgio Pinheiro, explicou que os resultados ainda são parciais, mas apresentam dados de extrema importância que foram escondidos da sociedade até então.
— Também foram realizadas audiências públicas e uma tomada pública de depoimentos de agentes da repressão, onde foram ouvidos Marival Chaves e Carlos Brilhante Ustra. Outras 35 pessoas que estiveram diretamente envolvidas ou que conheceram as práticas usadas pelo regime para violar direitos humanos foram ouvidas em audiências privadas. Dessas, 13 depuseram sob convocação.
De acordo com Heloísa, o prontuário produzido pelo CNMAR em 1972 contabilizou mais de 12 mil páginas relativas aos nomes de apenas 11 pessoas torturadas na Ditadura, descobertas até o momento pelos trabalhos da Comissão Nacional da Verdade. Esses documentos não foram entregues às autoridades no período democrático de direito quando solicitadas.
O coordenador da Comissão também disse que a participação da sociedade tem sido muito importante para ajudar a impulsionar os trabalhos da CNV.
— Desde sua criação, em maio de 2012, a Ouvidoria, principal canal de interação com a sociedade, contabilizou o recebimento de 101 pedidos de investigação, 71 contribuições de material, e um total de 843 registros. A CNV também já firmou 18 acordos com instituições da sociedade civil e comissões estaduais da verdade.
A reportagem do R7 telefonou e enviou e-mail para a assessoria da Marinha do Brasil para comentar as declarações da historiadora, mas não conseguiu contato.















