Brasil Na Bahia, candidato canta na rua para compensar falta de grana

Na Bahia, candidato canta na rua para compensar falta de grana

Isidório (PSC), 2º mais votado no Estado, arrecadou menos da metade da média dos eleitos

Na Bahia, candidato canta na rua para compensar falta de grana

Isidório (com microfone) durante campanha eleitoral

Isidório (com microfone) durante campanha eleitoral

Reprodução/Facebook Sargento Isidório

Sargento Isidório (PSC) se reelegeu, em 2014, deputado estadual na Bahia com 123.234 votos. Negro e oriundo de família humilde, ele foi o segundo mais votado no Estado.

Sua campanha, porém, arrecadou R$ 219.276,53 — cerca de metade da média entre todos os eleitos no Estado (R$ 397.392,39).

Levantamento inédito feito pelo R7, com base em números do TSE (Tribunal Superior Eleitoral), mostrou que candidatos negros receberam, em média, cerca de um terço da média da arrecadação dos brancos nas eleições 2014. Entre mulheres e homens a diferença foi semelhante.

Sem o mesmo dinheiro dos concorrentes, Isidório afirma que não seria capaz de fazer uma campanha “padrão”, com grande investimento em esquemas de marketing político. Ele apostou no tradicional corpo a corpo. E, no meio dos eleitores, cantava — inclusive músicas de sua autoria.

Isidório ressalta as dificuldades que os negros têm de arrecadar fundos para a campanha.

 — É muito difícil. A não ser que você seja ligado aí a uma estatal. Porque eu nunca consegui uma doação? [exagera] Tenho certeza que é preconceito mesmo.

Na Bahia, disputaram uma vaga na Assembleia 388 negros (pretos e partos) e 161 brancos. Apesar de ser a maioria, os candidatos negros arrecadaram, em média, menos da metade dos brancos (R$ 61.479,42 ante R$ 140.109,71) e conquistaram apenas 25 das 63 (40%) cadeiras da Casa.

De acordo com o Censo 2010, 76% dos baianos são negros (pretos ou pardos).

Isidório diz que o que arrecadou foi utilizado para pagar os assessores de comunicação, o setor jurídico da campanha e o combustível.

Questionado se são necessárias medidas para melhorar a distribuição de recursos entre brancos e negros, Isidório é radical: propõe o fim do financiamento.

— Tem que acabar com essa história de recurso. Que vá todo mundo para rua, sem cartaz, sem nada.

Mulheres

Em Minas Gerais, Rosângela Reis (PROS) foi a única mulher a se reeleger em 2014. A Assembleia do Estado tem 77 deputados. Só mulheres cinco foram eleitas — e duas suplentes devem assumir.

Ela afirma que a falta de dinheiro traz dificuldades para as candidatas.

— A falta de recursos traz dificuldades à campanha, que fica quase invisível. Sem dinheiro, não é possível ampliar a campanha.

As 314 candidatas a deputada estadual em Minas arrecadaram, em média, R$ 43.596,31 — o valor equivale a 25% dos R$ 176.356,36 angariados, em média, pelos homens.

Rosângela diz que a falta de confiança das empresas é o que mais dificulta a arrecadação por parte das mulheres.

— Há uma relação de confiança entre empresas e candidatos que ainda dificulta a abertura de espaço para as mulheres. Candidatos homens ocupam mais cargos de diretoria em empresas, o que facilita as doações. Grandes empresas não costumam nem abrir espaço para as candidatas mulheres discutirem seus projetos.

Para mudar a situação, ela defende o financiamento público de campanha.

— Cabe principalmente a nós, mulheres, discutirmos a medida, que daria mais condições para quem não tem recurso para fazer uma campanha.

 A deputada também propõe uma cota para mulheres na Mesa Diretora da Assembleia.

— Defendo que se tenha a presença dos dois sexos na mesa diretora, com pelo menos uma mulher [presidência, três vice-presidências e três secretarias]. A bancada feminina defende o projeto, que já tramitou nas comissões, mas não foi colocado em pauta pela presidência da Assembleia. Temos um compromisso com a nova presidência [que toma posse em fevereiro] para que seja colocada em votação.

*Reportagem de Alvaro Magalhães, do R7, e Enzo Menezes, do R7, em Belo Horizonte (MG), com a colaboração da estagiária Kátia Conceição, do R7, em Salvador (BA)