Paciente abandonada pela família mora há quase 40 anos no principal hospital de Brasília
Família ganhou na Justiça direito de deixá-la no hospital e parentes morreram ou sumiram
Brasil|Mariana Londres, do R7, em Brasília

Karen Margareth de Oliveira, de 56 anos, é a paciente mais antiga do Hospital de Base, o maior e mais importante da rede pública em Brasília. Ela mora há 35 anos ininterruptos em um dos quartos do quinto andar, a obstetrícia. Apesar de ter alta médica, não irá deixar o local porque uma decisão judicial obriga o Estado a mantê-la no hospital.
Há quase quatro décadas, aos 19 anos, a brasiliense sofreu uma parada cardiorespiratória durante uma cirurgia. A falta de oxigenação do cérebro (anoxia cerebral) deixou sequelas permanentes: motoras, com posterior atrofia de pernas e braços, de fala e cognitivas. Apesar das limitações, Karen não depende de aparelhos e nem de supervisão médica constante, mas precisa de cuidado permanente para se alimentar, se locomover e tomar banho.
Karen só não pode voltar para casa porque não tem parentes próximos. Quando deu entrada no Hospital de Base, em 7 de abril de 1979, ela sofria de complicações de uma cesariana, teve que tirar o útero e depois foi submetida a nova cirurgia, para a retirada de uma fístula. De acordo com assistentes sociais que acompanharam o caso, o filho, que nasceu saudável, e o então marido se mudaram de Brasília e não foram mais localizados. Há suspeita de que morem nos Estados Unidos.
No ínicio da internação, a família da paciente realizava visitas, mas com o tempo os encontros foram ficando escassos, até a mãe dela falecer em 2008. Depois disso, ninguém apareceu. Hoje, as visitas a Karen são proibidas pelo hospital, a pedido do curador. Pela lei, quando uma pessoa fica incapacitada para o resto da vida, a Justiça determina uma pessoa que será responsável pelo incapaz. Em geral o curador é da família. Quando não há parentes para assumir a curadoria, a Justiça designa um curador que pode não ter nenhum laço, caso do curador de Karen.
Questionada várias vezes sobre o assunto, a Secretaria de Estado de Saúde do DF não quis comentar o caso de Karen Margareth.
Há dois anos, a produtora do Balanço Geral DF Luana Major entrou no quarto de Karen com uma câmera escondida e conversou com a paciente e com funcionários do hospital e narra o que viu:
— Ela fica isolada no quinto andar em uma ala restrita e o curador proibiu qualquer visita. O quarto é pequeno, branco e azul e tem um rádio ligado com música o tempo todo. Apesar de estar nessa situação de abandono ela tem o semblante alegre, é apaixonada por música, principalmente da década de 70. Ela passa o dia escutando rádio, fala alto e fala palavrões. A gente percebe que ela tem um déficit cognitivo, que não sabe que teve um filho, por exemplo. Os funcionários têm bastante carinho por ela. O laço que ela tem é com os funcionários.
Veja a reportagem exibida pelo Balanço Geral DF em 2015:















