Brasil PF: Organização que mandava droga para Europa tinha 'banco privado'

PF: Organização que mandava droga para Europa tinha 'banco privado'

Investigações apontam que esquema de tráfico internacional de cocaína incluíam helicópteros escalados para trazer as cargas do Paraguai ao Brasil

Agência Estado
Operação Além-Mar foi deflagrada nesta terça-feira

Operação Além-Mar foi deflagrada nesta terça-feira

Denny Cesare/ Código 19/ Estadão Conteúdo - 18.08.2020

O esquema de tráfico internacional de cocaína desmantelado nesta terça-feira (18) pela Operação Além-Mar contava com quatro organizações criminosas parceiras que dividiam a operacionalização da logística de comércio da droga.

As etapas incluíam desde o uso de helicópteros por "pilotos do tráfico" escalados para trazer as cargas do Paraguai ao Brasil até, na outra ponta, a lavagem de dinheiro por empresários que funcionavam como verdadeiros "bancos privados", segundo os investigadores.

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A Polícia Federal no Pernambuco passou dois anos monitorando os criminosos em regime de colaboração com autoridades internacionais, a exemplo da NCA (National Crime Agency), de Londres, e revelou que o esquema seguiu operando mesmo na pandemia.

Durante a fase de investigação, os agentes apreenderam mais de dez toneladas de cocaína, prenderam suspeitos que ocupavam cargos mais baixos na hierarquia do esquema e foram identificando todos os quatro braços da operação, descritos abaixo:

1º - Estabelecido em São Paulo e responsável pela "importação" da cocaína pela fronteira com o Paraguai, transportando a droga por helicópteros até o Estado e distribuindo-a no atacado para organizações criminosas estabelecidas no Brasil e na Europa.

2º - Sediado em Campinas, recebia a cocaína para distribuição interna e exportação para Cabo Verde, na África, e Espanha, Bélgica, França e Holanda, na Europa.

3º - Estabelecido em Recife, é integrado por empresários do setor de transporte de cargas, funcionários e motoristas de caminhão cooptados e provê a logística de transporte rodoviário da droga e o armazenamento de carga até o momento de sua ocultação nos contêineres que serão embarcados para outros países.

4ª - Também é sediado em São Paulo, na região do Brás, e atua como banco paralelo, disponibilizando sua rede de contas bancárias - titularizadas por empresas fantasma, de fachada ou em nome de "laranjas" - para movimentação de recursos de terceiros, de origem ilícita, mediante controle de crédito/débito, cujas restituições se dão em espécie e a partir de TEDs, inclusive com compensação de movimentação havida no exterior (dólar-cabo).

O ponto de partida do esquema era liderado por Sérgio de Arruda Neto, o Minotauro, que está preso desde o ano passado, e consistia na importação da droga trazida do Paraguai por aeronaves abastecidas em uma fazenda localizada no município de Pedro Juan Caballero, na fronteira com o Mato Grosso do Sul. O endereço foi um dos 139 vasculhados pelos agentes mais cedo.

De acordo com a PF, o transporte era feito por helicópteros como estratégia para diminuir os riscos de fiscalização. As aeronaves eram adaptadas: os bancos era retirados e davam lugar a tanques extras que aumentavam a autonomia do voo. Ainda assim, não era possível seguir viagem sem escala para reabastecer, o que era feito em Teodoro Sampaio, no interior paulista.

Quando chegava em São Paulo, a carga era transferida a caminhões já preparados para ocultar a droga, que seguiam para depósitos portuários. O deslocamento ficava a cargo de grandes empresários do setor de transporte. Pelo menos cinco foram presos hoje pela PF.

Na sequência, o carregamento era escondido em contêineres e embarcado em navios de carga para outros países. O lucro era lavado por uma organização criminosa parceira composta por empresários de regiões famosas de comércio na capital paulista, como o Brás e a rua 25 de março, ambos no centro da cidade.

A partir do detalhamento do esquema, a PF deflagrou hoje a Operação Além-Mar, que prendeu 33 pessoas, cumpriu mandados de busca e apreensão em 139 endereços e apreendeu veículos (55), helicópteros (3), aeronaves (2), embarcações (3), HDs (52), celulares (74), e R$361 mil em espécie.

"A mera apreensão de drogas, por si só, não vai impedir que essas organizações continuem atuando. A partir do momento em que você atua nessa descapitalização, ou seja, você rastreia, congela, bloqueia, confisca e aliena os bens dessas organizações efetivamente você vai estar impedindo que essas quadrilhas continuem a perpetrar crimes", informou a PF, que usou como critério de investigação a evolução patrimonial dos bens dos envolvidos.

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