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Rede de ensino e pesquisa nas universidades podem sofrer desmonte, diz especialista

Na UERJ, 335 profissionais pediram exoneração por conta dos atrasos nos salários

Brasil|Do R7

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usp Marcos Bezerra/Futura Press/Estadão Conteúdo

A crise dos Estados poderá trazer um desmonte na rede brasileira de ensino e pesquisas similar ao causado pelo regime militar, que aposentou e afastou compulsoriamente dezenas de professores universitários contrários à ditadura, na década de 70. 

A opinião é de Glauco Arbix, pesquisador do Observatório de Inovação e Competitividade do Instituto de Estudos Avançados e professor da USP. “As universidades vão sentir, daqui a dez anos, os efeitos na interrupção na formação de novos acadêmicos”, diz ele. “Haverá mais professores crus, sem formação rigorosa, como aconteceu quando caçaram toda uma geração durante a ditadura.”


O Ministério da Educação não tem um levantamento do impacto causado pela crise dos Estados e pela restrição orçamentária nas universidades, nos centros e institutos de pesquisa espalhados pelo País. Mas, para se ter uma ideia, apenas na UERJ, 335 profissionais pediram exoneração entre 2014 e fevereiro de 2017, por conta dos atrasos nos salários. “Devido ao reduzido número de funcionários na universidade em função da falta de salários, não será possível no momento informar separadamente o número de docentes e técnicos administrativo (que pediram exoneração)”, informou a assessoria de imprensa da UERJ, por e-mail.

Uma dessas acadêmicas que se afastaram é a professora de ciência política Elizabeth Stein. Americana, ela estudou em seu doutorado a relação entre os militantes e a mídia, entre 1974 e o fim do regime militar. Gostou da ideia de lecionar no Brasil e foi contratada pelo Instituto de Estudos Sociais e Políticos da instituição, em 2012.


Pouco depois, porém, começaram os problemas. Além das burocracias que a levaram, por exemplo, a esperar dois meses por sua posse na universidade e por anos sua identificação de residente permanente, em 2015 começaram os atrasos no salário. O 13.º foi parcelado, as datas de pagamento começaram a ser sucessivamente postergadas e promessas dos depósitos de salário nunca eram cumpridas.

Sem família no Brasil e com dívida estudantil nos EUA, se viu sem saída. “Foi bem difícil”, diz ela. “Quando a UERJ começava a pagar, às vezes tinham cinco depósitos no mês, alguns de apenas R$ 300.” Liz, como é chamada, só conseguiu atravessar esse período graças a empréstimos. “Se eu não tivesse uma família e amigos tão bons, não sei o que faria”, afirma.


A professora de ciência política voltou aos EUA, onde hoje dá aulas na Universidade de Indiana. “Não vi defesa de teses de alguns alunos e metodologias estatísticas que levei a UERJ, hoje não são mais ensinadas”, diz.

Finlândia


Com bases tão pequenas de inovação, os problemas brasileiros são grandes, mas as oportunidades enormes. “A experiência internacional mostra que países, governos e empresas que conseguem investir em inovação e tecnologia nas crises, saltaram no momento seguinte”, diz Glauco Arbix.

Ele cita como exemplo a Finlândia que, depois de enfrentar retração de mais de 10% do PIB na década de 1980, investiu nessas áreas e mudou de patamar de desenvolvimento. Foi nessa época que nasceu, por exemplo, a Nokia. O mesmo aconteceu com a Coreia do Sul e seus grandes grupos empresariais, os cheabols.

Para que esse salto aconteça, porém, é necessário uma política de Estado estruturada, como a feita em diferentes países para adoção e desenvolvimento de novas tecnologias, como mostra pesquisa do Grupo de Indústria e Competitividade da UFRJ. Entre 45 institutos de pesquisa voltados para a indústria, anunciados nos EUA em 2012, por exemplo, nove foram inaugurados, com fins muito específicos. Há vários exemplos similares mundo afora.

Nenhum especialista vê política semelhante estruturada no Brasil. “Ficamos perdidos numa longa anestesia, durante o período de alta de preços das commodities”, diz Pedro Rossi, professor da Unicamp.

Há também quem critique as escolhas do governo brasileiro, que preferiu priorizar exatamente empresas de commodities para criar os campeões nacionais. No mesmo período, dizem, o governo americano, por meio da Nasa, investia na empresa de explorações espaciais SpaceX, de Elon Musk, considerado um dos principais inovadores globais. “O problema não era a política dos campeões nacionais, mas os critérios pouco transparentes para escolhê-los”, diz Rafael Lucchesi, diretor da CNI. “Podemos não ter a ambição alemã ou americana, mas há setores nos quais temos vantagens competitivas reais. É neles que precisamos investir.”

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