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'Tenho a consciência tranquila', afirma Cabo Anselmo

Leia a sétima e última parte da entrevista com José Anselmo dos Santos, espião da ditadura

Brasil|Alvaro Magalhães, do R7*

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José Anselmo dos Santos afirma que escreveu a autobiografia Cabo Anselmo: Minha Verdade porque devia essa narrativa à sua família. No último trecho desta entrevista ao R7, Anselmo fala de suas convicções. E diz ter a consciência tranquila.

Confira a entrevista:


R7 - O que o motivou a escrever o livro? É um acerto de contas com sua história?

José Anselmo dos Santos – Eu devia essa história às pessoas da minha própria família, aos meus amigos e para as novas gerações do Brasil que não viram aquilo lá. Você está em um ambiente hoje que é bem diferente daquilo. O ambiente do mundo globalizado, da comunicação em tempo real, o ambiente em que você tem a informação que quer na própria mão. 


R7 - Desde 2009 o livro estava escrito. Por que publicá-lo só agora?

Anselmo – Eu tenho um tipo de vida que é dependente de outras pessoas tomarem ou não iniciativa. Então, eu passei esse livro para uma pessoa que disse: ‘Eu vou buscar uma editora’. Mas essa pessoa — uma pessoa muito querida que até me ajudou a rever algumas coisas ali, a escrever algumas coisas —, por motivos de trabalho, não publicou. Num determinado instante, eu conheci uma outra pessoa que disse: ‘Ah! eu arrumo um editor!’. Essa pessoa foi a Marta Serrat. Ela me entrevistou há dois anos e disse: ‘Eu arrumo um editor’. Então, eu comecei a retrabalhar o livro e, finalmente, ela arrumou a Matrix, que topou a parada de fazer a edição.


R7 - Essa primeira pessoa, que não conseguiu o editor, te ajudou a escrever?

Anselmo – Ele fez duas leituras extensas comigo, em fins de semana. Inseriu coisas, mas eu tirei. Quer dizer, ele se dedicou nesse sentido.


R7 - Em determinado momento do livro, o senhor diz que os militares exerceram ‘uma ingrata, mas patriótica função constitucional’. Para o senhor, a ditadura foi isso?

Anselmo – Você tinha naquele instante um mundo dividido, ambientado na Guerra Fria. Os militares do Brasil, naquele instante, tinham sido formados onde? Nos Estados Unidos. A escola de formação dos militares era os Estados Unidos. O que os militares fizeram no momento? Os militares foram garantir a estrutura do poder, a instituição econômica do mundo ocidental, naquele momento, aqui. E os militares, ideologicamente, eram democratas naquele instante. 

R7 - O senhor, então, acredita que os militares defenderam a democracia?

Anselmo – Naquele instante. A consciência, naquele instante, era essa. Tanto que, na rua, saiu gente a chamado das mulheres... tomaram a rua na Marcha da Família. Era gente de toda parte. Não era só estudante, como foi o negócio do Collor. É fácil, você deve saber perfeitamente isso, formar opinião num grupo, esse grupo se transformar numa massa crítica, e aí sair movimento na rua, tal, que vai num crescendo...

R7 – No livro, o senhor diz também: ‘Se há alguma liberdade no Brasil hoje, eu contribuí para isso’. O senhor acredita que o Brasil deve te agradecer?

Anselmo – Não, não, não. Eu não quero que agradeça, não. Eu contribuí de livre e espontânea vontade como missão. Ninguém no Brasil deve agradecer nada a nenhum herói, líder, não sei o que lá... Não. Cada brasileiro é um herói quando está trabalhando, levando a comida para casa, educando seus filhos, participando de comemorações, tomando sua cerveja no fim de semana, com a sua pizza, indo ao culto da sua igreja, seja ela qual for.

R7 - O senhor tem a consciência tranquila?

Anselmo – Ah sim. Claro. Sabe por quê? Sabe por que eu tenho a consciência tranquila? Eu não acorrentei ninguém, nem disse que fosse para lá fazer aquilo. A decisão foi pessoal, a decisão foi de cada um, a ideologia era de cada um, a formação era de cada um. Não fui eu. Agora, era um momento de guerra. Tudo pode acontecer na guerra. Era uma guerra não declarada. É o que acontece na guerra dos morros: a polícia vai lá e mata o bandido. Ele é bandido porque eu mandei ele ser bandido?

R7 - Há casos desses que são execuções.

Anselmo – Sim. Onde é que não tem isso? Do outro lado também não teve execução? O próprio Clemente conta da execução que ele fez. Ele tem a consciência tranquila porque matou um sujeito em defesa da coisa dele. Em defesa da revolução comunista [Em 2012, Carlos Eugênio Paz, o Clemente, afirmou, entrevista ao programa Dossiê Globonews ter participado da execução de um companheiro condenado à morte pelo comendo da guerrilha].

R7 – O senhor falou em heróis... eu queria terminar com a seguinte questão: O senhor se considera um herói? Ou um traidor?

Anselmo – Eu traí a pátria, traí o juramento no momento em que fui para Cuba. Traí o meu povo naquele instante. Agora, eu não fiz nenhum juramento à bandeira cubana, à bandeira soviética, nem à foice e ao martelo, nem ao Marx, nem ao Engels, nem ao Lenin, nem ao Trótski, nem ao Stalin. Não fiz. Eu fui envolvido dentro de um negócio, fui para lá, sem opção. O Brizola não me perguntou: ‘Quer ficar aqui estudando? Quer ir para Itália?’ Não. ‘O companheiro vai para lá para fazer um treinamento de táticas e técnicas de guerrilha’.

R7 - E Soledad? O senhor não a traiu?

Anselmo – Mas de que modo eu traí a Soledad? A Soledad tinha desde a infância uma opção de vida. Eu só poderia ficar junto, me casar com uma moça como a Soledad, se ela não estivesse naquilo. Mas a opção de vida foi dela, a escolha foi dela. Ela não poderia, por exemplo, fazer uma outra escolha, que, para mim, seria muito mais racional, lógica e humana: ficar criando a filha dela em Cuba?

R7 - Ela tinha confiança no senhor.

Anselmo – Mas ela não veio para cá para... Ela nem sabia que ia encontrar comigo. Ela não sabia com que ela ia encontrar. Como eu não sabia que ia encontrar com ela em São Paulo para ir lá para o Recife. Ela veio por uma decisão de fazer a guerrilha no Brasil. A guerrilha internacional.

VOLTE À ABERTURA DA ENTREVISTA COM CABO ANSELMO

E leia também:

Parte 1: Marighella, a Revolta dos Marinheiros e a fuga facilitada

Parte 2: A prisão em 1971 e a tortura

Parte 3: A decisão de mudar de lado e a vida como agente duplo

Parte 4: A morte de Soledad, a traição de Fleury

Parte 5: Os outros militantes presos ou mortos

Parte 6: A cirurgia plástica e a participação nos atos anti-Dilma

*Colaborou Victor Labaki, estagiário do R7

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