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Venezuelanos vivem escondidos em Pacaraima após 'toque de recolher'

Refugiados enfrentam dificuldades para trabalhar e estão proibidos de dormir na rua há uma semana, desde o ataque contra um grupo de migrantes

Brasil|Diego Junqueira e Márcio Neves, do R7, enviados especiais a Pacaraima (RR)

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Nove venezuelanos dividem casa de 15 m² em Pacaraima (RR)
Nove venezuelanos dividem casa de 15 m² em Pacaraima (RR)

Dezenas de refugiados venezuelanos passaram a viver 'escondidos' em Pacaraima (RR), no extremo norte do Brasil, desde que um grupo de brasileiros atacou migrantes há uma semana, ateando fogo a seus pertences e expulsando 1.200 migrantes da cidade, como retaliação a agressão e roubo de um comerciante local.

Diversos imigrantes relataram à reportagem do R7 nesta sexta-feira (24) que, ao longo da semana, caravanas noturnas de carros e motos circularam pela cidade espalhando ameaças e conferindo se há refugiados aglomerados dormindo na rua. Durante o dia, eles reclamam que fiscalizações da prefeitura impedem que trabalhem como ambulantes, única forma de comércio que os venezuelanos têm para fazer dinheiro rapidamente.

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“Por que nos dão refúgio se não nos querem aqui?”, pergunta Jenire León, de 30 anos, que há três meses deixou para trás Maturín, a 800 km de distância, e a filha de dois anos para recomeçar a vida no Brasil e enviar ajuda à família.

No sábado passado (18), dia do ataque, Jenire e o irmão, José, tiveram ajuda de um brasileiro para guardar suas bagagens e fugir das agressões “a paus e pedras”.

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“Eu alertava que a xenofobia era um monstro que a qualquer momento ia atacar, e atacou. O vulcão abriu sua boca e começou a lançar suas lavas de ira, rejeição e raiva. Infelizmente foi dirigida a pessoas inocentes, que estavam na rua com suas crianças, passando fome”, descreve o religioso Jesus Lopez de Bobadilla, espanhol que mora há nove anos em Pacaraima e se tornou o principal acolhedor de refugiados na cidade.

“Não nos querem no meio da rua, se não ameaçam a gente”, conta José León, de 28 anos.

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Apesar da violência, das ameaças e da falta de oportunidades, voltar para a Venezuela não é uma opção para os refugiados, mesmo que seja preciso viver às sombras em Pacaraima, até que se encontre uma chance para ir a “Manaus ou São Paulo”.

Operação sobrevivência

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Após três dias dormindo do outro lado da fronteira e vindo para Pacaraima de manhã para trabalhar como ambulantes, Jenire e o irmão alugaram uma casa de 15 metros quadrados, que dividem com mais sete pessoas, entre primos e conhecidos, onde montaram uma verdadeira operação “sobrevivência” para conseguir vender café, tortas, pães, isqueiros e cigarros. Veja em imagens como é a casa dos nove venezuelanos.

Fogão improvisado é a base do sustento
Fogão improvisado é a base do sustento

Com um cômodo e um banheiro, separados por uma cortina, a casa tem apenas uma cama de casal, dois colchões no chão e cobertores fazendo as vezes de colchonete. O fogão está inativo por falta de um botijão de gás, então eles preparam o café e as tortas em um fogão à lenha improvisado no quintal, com uma grelha sobre uma lata, que começa a arder antes das 4h da madrugada. Os demais produtos eles compram em Santa Elena de Uairén, na Venezuela. 

Para escapar da fiscalização, o grupo se divide em três turnos. Uma parte sai cedo de casa para vender os alimentos na fronteira, onde novos refugiados chegam todos os dias — cerca de 600 venezuelanos cruzam a linha diariamente, segundo cálculos do Exército brasileiros, embora a maioria venha apenas para comprar mantimentos.

O primeiro turno vai até as 8h, quando a fiscalização sai às ruas para coibir os ambulantes. Eles então voltam para casa e se preparam para a jornada seguinte, entre 12h e 14h, quando os fiscais estão em suas casas almoçando. 

“Eles não incomodam os brasileiros que trabalham como ambulantes”, diz Patricia Benavides, de 21 anos, que também vive com o irmão no grupo de nove venezuelanos.

O R7 telefonou na noite desta sexta-feira (24) para o prefeito de Pacaraima, Juliano Torquato dos Santos, em dois números de celular, para questionar o trabalho da fiscalização da prefeitura, mas não conseguimos contato até a publicação desta reportagem.

O terceiro turno de trabalho começa às 18h, quando os fiscais já não estão mais trabalhando, e vai até por volta das 20h, quando as caravanas noturnas de carros e motos saem às ruas.

“Quinta-feira foi assim. A Polícia Militar até nos ajudou. Eles vieram antes, nos avisaram que a caravana estava vindo e falaram pra gente ir embora pra não correr risco de sermos agredidos”, conta Benavides.

Eles não sabem dizer quanto faturam por dia porque as vendas são muito variadas. Na sexta, o grupo vendeu R$ 10 em café no turno do almoço (50 centavos cada copinho) e R$ 15 com os pedaços de bolo. O aluguel da casa sai por R$ 300 por mês, fora água e luz.

Sobre a linha

Outro grupo de nove venezuelanos se esconde nos arredores de Pacaraima, no meio da mata, estrategicamente próximos da fronteira com a Venezuela. No dia dos ataques na semana passada, eles juntaram seus pertences às pressas e correram para além da linha de fronteira, onde se sentiram protegidos.

No barraco da família Torres também vivem 9 pessoas escondidas na mata
No barraco da família Torres também vivem 9 pessoas escondidas na mata

Zuri Torres, de 42 anos, deixou Puerto la Cruz há dois meses e desde então vive debaixo de uma lona estendida feito casa. Dividindo espaço com os poucos pertences, ela dorme sobre papelões junto do marido, cinco filhos, a cunhada e um sobrinho.

Conseguem água na casa de um brasileiro e preparam a comida também em um fogão à lenha improvisado. 

“Parecemos delinquentes mesmo sem fazer nada, por isso temos que estar escondidos”, conta Zuri. “Fiquei travada aqui sem poder ir a nenhum lado”.

As roupas são lavadas com água emprestada por um vizinho
As roupas são lavadas com água emprestada por um vizinho

Ela quer deixar a fronteira e ir até Manaus (AM), onde imagina que a vida possa ser melhor do que em Boa Vista, mas também diz viver com medo e sem condições de trabalhar em Pacaraima.

— O maior problema é a segurança. A gente até consegue 2 reais e um pouco de arroz, mas não posso caminhar na rua. Como vou pagar a passagem de R$ 176 até Manaus?

O sonho de ir além

Há dois meses, o centro pastoral de Pacaraima contou exatas 452 famílias vivendo nas ruas, espalhadas por 11 pontos da cidade. O total era de 1.660 venezuelanos, sendo 296 crianças de 0 a 10 anos.

No auge da crise, Bobadilla chegou a servir 1.600 cafés da manhã por dia no centro de imigrantes — café com leite com pão. A quantidade agora caiu pela metade.

Quem faz a contagem dos refugiados é Maria Celeste Vasquez, venezuelana de 34 anos que mora há dois anos em Pacaraima e trabalha no centro de imigrantes. Ela não tem ideia de quantos estão hoje na cidade em situação de rua e desistiu, por enquanto, de atualizar os números.

Maria faz o censo dos refugiados venezuelanos na cidade
Maria faz o censo dos refugiados venezuelanos na cidade

Um dia após os ataques, exatos 1.179 venezuelanos deixaram as ruas de Pacaraima e, já em Santa Elena, foram colocados em ônibus e enviados a Ciudad Bolívar, a 720 km de distância. O R7 apurou a informação com uma fonte da diplomacia brasileira, que pediu para não ser identificada. A decisão de transferir os então refugiados foi tomada pelas autoridades venezuelanas. Imagens obtidas com exclusividade pela reportagem mostram o embarque do grupo:

“Eles colocaram algumas pessoas à força dentro dos ônibus. Eu que não ia entrar naquilo e voltar”, conta Patrícia Benavides, que assistiu ao embarque.

Não é certo o paradeiro dos cerca de 400 a 500 refugiados que ficaram na região. Enquanto alguns se reuniram para alugar uma casa ou viver escondidos na cidade, outros fazem diariamente o trajeto entre Santa Elena e Pacaraima.

O que os venezuelanos entrevistados pela reportagem têm em comum é o sonho de ir além.

“Eu gostaria que nos ajudassem a avançar um pouco mais no Brasil. Eu não tenho preferência, pode ser Manaus ou outro lugar. Eu só queria trabalhar pra poder pagar o aluguel. Não é muito o que queremos”, conta Belqui Torres, de 40 anos, uma das moradoras da lona escondida na mata.

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