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Acordo Mercosul-UE reacende debate sobre moeda única, mas especialistas veem entraves

Analistas destacam que falta alinhamento macroeconômico para adoção de uma moeda comum no bloco sul-americano

Brasília|Giovana Cardoso, do R7, em Brasília

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LEIA AQUI O RESUMO DA NOTÍCIA

  • O acordo entre Mercosul e União Europeia reacende o debate sobre a possibilidade de uma moeda única no bloco sul-americano.
  • Especialistas consideram a criação de uma moeda única distante devido a diferenças econômicas e institucionais entre os países do Mercosul.
  • A adoção de uma moeda única exigiria um alinhamento econômico maior e compromissos políticos de longo prazo, algo que atualmente é inviável.
  • O acordo pode trazer benefícios ao Brasil, como aumento do PIB e investimentos, mas a implementação de uma moeda única traz riscos significativos, como perda de autonomia monetária.

Produzido pela Ri7a - a Inteligência Artificial do R7

Brazil’s President Luiz Inacio Lula da Silva attends a press conference with European Commission President Ursula von der Leyen, at the Itamaraty Palace in Rio de Janeiro, Brazil January 16, 2026. REUTERS/Ricardo Moraes
Lula já defendeu a criação de uma moeda alternativa ao dólar para transações comerciais Ricardo Moraes/Reuters - 16.1.2026

O avanço do acordo entre o Mercosul e a União Europeia reacendeu, de forma pontual, um antigo debate no bloco sul-americano: a criação de uma moeda única. Especialistas ouvidos pelo R7, no entanto, veem o tema como distante da realidade econômica e institucional dos países que compõem o grupo.

A ideia chegou a ser debatida antes de 2023, mas perdeu força principalmente por causa das grandes diferenças econômicas entre os integrantes do Mercosul. Agora, com a retomada do acordo com os europeus, a ideia volta a circular, ainda que encontre forte resistência técnica.


Segundo analistas entrevistados pela reportagem, adotar uma moeda única exigiria um nível de alinhamento econômico muito maior do que o necessário para firmar um acordo comercial.

Na visão da economista e coordenadora dos cursos de negócios internacionais da PUCPR, Patricia Tendolini, a discussão sobre uma moeda única no Mercosul pode ganhar nova visibilidade porque um processo de integração comercial mais profundo com a União Europeia tende a reacender debates sobre integração financeira e monetária.


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Ela explica, contudo, que a criação de um instrumento como esse envolve elementos econômicos e políticos. Além disso, diferenças significativas em aspectos como inflação, disciplina fiscal, coordenação de política monetária e, principalmente, instituições supranacionais impedem a implementação do projeto.

Tendolini entende que a integração monetária não é apenas um projeto técnico, ela depende de compromisso político de longo prazo. Os países do Mercosul apresentam prioridades domésticas distintas, ciclos eleitorais curtos, pressões de setores econômicos sensíveis e mudanças frequentes de orientação governamental.


“O acordo UE-Mercosul pode até recolocar o tema na agenda e estimular discussões sobre maior coordenação econômica. Porém, uma moeda única exigiria transformações estruturais relevantes, tanto macroeconômicas quanto institucionais. No cenário atual, trata-se mais de uma possibilidade de longo prazo do que de uma medida factível no curto ou médio prazo. O mais realista, se houver avanço, são instrumentos graduais de integração financeira, e não uma unificação monetária imediata”, completa.

Entraves para a implementação da medida

A professora de relações internacional Natali Hoff acredita ser difícil a retomada do assunto. Diferente da Europa, ela lembra que o Mercosul nunca teve a construção de instituições e de políticas econômicas que pudessem dar margem para a gente discutir de maneira mais séria e efetiva a criação dessa moeda.


A especialista vê, ainda, a Argentina e a própria economia do Brasil como entraves para a adoção da moeda. “Nós temos questões econômicas que precisariam ser solucionadas para a gente poder pensar nisso de uma maneira mais efetiva”, disse.

“Essas discussões elas podem surgir, mas acho que seria até mais efetivo tratar em trocas, em moedas locais. Então, acho que existem outras questões que seriam mais importantes para gente pensar no desenvolvimento do bloco. Embora esse tema, volta e meia, ele volta para agenda, mesmo que do ponto de vista prático, o Mercosul esteja muito longe de poder levar isso a cabo”, completou Hoff.

Impactos no Brasil

Se o Mercosul avançasse na criação de uma moeda única, os efeitos para o Brasil dependeriam do modelo adotado.

De acordo com Tendolini, propostas mais graduais — como sistemas de compensação ou o uso de uma moeda apenas para liquidação de operações — poderiam reduzir os custos do câmbio, trazer mais previsibilidade para empresas exportadoras e fortalecer as cadeias produtivas da região.

Segundo ela, a adoção de uma moeda única plena traria riscos maiores. Entre eles, a perda de autonomia do Brasil para conduzir sua política monetária e cambial, mais dificuldade para enfrentar crises internas e a necessidade de regras fiscais rígidas e de mecanismos de ajuda entre os países para lidar com desequilíbrios econômicos.

Acordo Mercosul e União Europeia

Em janeiro deste ano, após duas décadas de negociação, o Mercosul e a União Europeia assinaram um acordo de livre comércio com potencial de integrar um mercado de cerca de 720 milhões de pessoas.

O tratado, que enfrentava resistência em alguns países europeus, estabelece a gradual eliminação de tarifas de importação para mais de 90% do comércio bilateral, envolvendo bens industriais e produtos agrícolas.

Uma pesquisa divulgada pelo Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) em dezembro de 2023 indicou que o acordo poderia gerar ao Brasil um crescimento de 0,46% no PIB entre 2024 e 2040 — o equivalente a US$ 9,3 bilhões a preços constantes de 2023. Entre os países participantes, o Brasil poderia ter ganhos maiores que os da União Europeia e demais nações do Mercosul.

“O acordo aumentaria os investimentos no Brasil em 1,49%, na comparação com o cenário sem a parceria. Nesse sentido, a exemplo do PIB, o Brasil também teria vantagens substancialmente maiores do que a União Europeia (0,12%) e os demais países do Mercosul (0,41%)”, apontou o instituto.

Segundo o governo brasileiro, o acordo possui valor estratégico em diversos sentidos, em essencial no que diz respeito à diversificação das parcerias comerciais do país e ao fomento da modernização do parque industrial brasileiro.

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