Brasil ganha vitrine com acordo Mercosul-UE, mas desafio é transformar discurso em competitividade
Do agro ao vinho, setores apontam riscos e oportunidades em meio a exigências ambientais
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A assinatura do acordo entre Mercosul e União Europeia, que ocorreu neste sábado (17), projeta o Brasil para um novo patamar no comércio internacional, com potencial de ampliar mercados, atrair investimentos e reposicionar o país como referência em produção sustentável.
Mas o protagonismo esperado vem acompanhado de desafios que vão além da diplomacia, passando por exigências ambientais, competitividade interna e limitações logísticas.
Para Antonio da Luz, economista-chefe da Ecoagro, o acordo fortalece a imagem do Brasil como potência agroambiental global. Segundo ele, a mudança de postura europeia não decorre de uma transformação recente no modelo produtivo brasileiro, mas de interesses econômicos da própria União Europeia.
“O Brasil é o mesmo país. Produzimos com preservação há décadas. Assinar o acordo é, na prática, reconhecer isso”, afirma.
Na avaliação do economista, parte das críticas ambientais feitas ao Brasil ao longo dos anos funcionaram como instrumentos de barganha e proteção de mercado. Por isso, ele defende que o país saiba diferenciar demandas legítimas de exigências criadas para inviabilizar o acesso aos mercados.
“Quando surgem regras fora de qualquer padrão técnico, como a exigência de traço zero de defensivos, estamos diante de medidas que nem a própria legislação europeia nem o Codex Alimentarius [conjunto de normas, diretrizes e códigos de práticas internacionais sobre alimentos] exigem. São condições feitas para não serem cumpridas”, diz.
Ainda assim, Antonio da Luz avalia que acordos comerciais costumam gerar aprendizados mútuos. Ele destaca que o Brasil já adota práticas consideradas avançadas, como Integração Lavoura-Pecuária-Floresta, plantio direto, intensificação sustentável, reserva legal e áreas de preservação permanente.
“Talvez esse intercâmbio ajude também a Europa a evoluir nesses pontos”, completa.
Setores sensíveis pedem proteção interna
No setor vitivinícola, o acordo acende um sinal de alerta. Cláudio Góes, presidente da Anprovin (Associação Nacional dos Produtores de Vinhos de Inverno), afirma que a entidade não é contrária ao acordo, mas teme os impactos da abertura comercial sem contrapartidas internas.
Hoje, produtores brasileiros enfrentam carga tributária elevada, que pode chegar a 25% em alguns estados, além do chamado “custo Brasil”. Pelo acordo, vinhos europeus terão alíquota zero em até oito anos.
“O problema não é o acordo em si. O problema é competir pagando muito mais imposto, sem apoio institucional e sem política pública para o setor”, afirma.
Segundo Góes, o prazo de transição oferece uma janela para preparação, mas o setor não está pronto para competir nas condições atuais. “Nossas margens já são apertadas. Não há mais de onde tirar competitividade. Se nada mudar, o consumidor vai olhar para o preço mais baixo do importado, e o produtor nacional vai sentir”, diz.
A principal reivindicação do setor é por revisão tributária, apoio governamental e políticas que tratem o vinho brasileiro como estratégico, a exemplo do que ocorre em países europeus.
Logística pode travar ganhos do acordo
Mesmo com vantagens comerciais, o aumento das exportações depende de infraestrutura. Para Ronaldo Félix, após a assinatura começa uma nova etapa: renegociação de contratos e fechamento de novos acordos, com oportunidades para o agro e para o aço semiacabado, que hoje acessam poucos mercados.
O entrave, segundo ele, está no escoamento da produção. Sem avanços logísticos, o especialista avalia que o país corre o risco de não conseguir sustentar, no médio prazo, o crescimento das vendas para a União Europeia.
“Exportações em grande volume dependem do modal marítimo. Precisamos destravar portos e, principalmente, as vias de acesso rodoviárias e ferroviárias. Hoje isso já é um gargalo sério”, afirma.
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