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Confira a íntegra do discurso de Fachin na posse como presidente do STF

Magistrado assumiu a presidência da Corte e do CNJ defendendo diálogo, respeito à Constituição e combate à corrupção

Brasília|Do R7, em Brasília

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LEIA AQUI O RESUMO DA NOTÍCIA

  • Edson Fachin tomou posse como presidente do STF, sucedendo Luiz Roberto Barroso até 2027.
  • Fachin enfatizou a importância de respeitar a Constituição e a necessidade de um Judiciário forte e independente.
  • O novo presidente destacou o compromisso com a liberdade de imprensa, direitos humanos e ações contra a corrupção.
  • Fachin reconheceu os desafios do Brasil, como desigualdade social e crises ambientais, enfatizando a colaboração para fortalecer a cidadania.

Produzido pela Ri7a - a Inteligência Artificial do R7

Ministro Edson Fachin toma posse como presidente do Supremo Tribunal Federal Ton Molina/FotoArena/Estadão Conteúdo - 29.09.2025

O ministro Edson Fachin tomou posse nesta segunda-feira (29) como presidente do STF (Supremo Tribunal Federal). Ele substitui Luís Roberto Barroso e permanecerá no cargo até 2027. A vice-presidência será ocupada por Alexandre de Moraes.

Além do comando do STF, Fachin e Moraes passam a dirigir também o Conselho Nacional de Justiça (CNJ). Em discurso, o novo presidente afirmou assumir não um poder, mas um dever: “Respeitar a Constituição e apreender limites”.


Durante a cerimônia, ressaltou a importância da colegialidade e destacou que o país precisa de previsibilidade institucional.

Fachin enfatizou que o Tribunal não se afastará da Constituição, nem deixará de enfrentar desafios como a criminalidade organizada, a desinformação digital e as desigualdades sociais.


O magistrado também reafirmou compromissos com a liberdade de imprensa, a proteção ambiental, os direitos humanos e o combate à corrupção. “Ninguém está acima das instituições, elas são imprescindíveis e somos melhores com elas”, disse.

A íntegra

A seguir, a íntegra do discurso de posse de Edson Fachin.


Excelentíssimos Senhores: Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva; Presidente do Senado Federal, Davi Alcolumbre; Presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta; Procurador-Geral da República, Paulo Gonet; Presidente da Ordem dos Advogados do Brasil, Beto Simonetti; e o Defensor-Público-Geral Federal, Leonardo Cardoso de Magalhães, saúdo cordialmente. Cumprimento também o Ministro Luís Roberto Barroso, a quem sucedo; o Ministro Alexandre de Moraes, agora vice-presidente; a Ministra Carmen Lúcia, agradecendo suas generosas palavras; e os Ministros Decano Gilmar Mendes, Dias Toffoli, Luiz Fux, Kassio Nunes Marques, André Mendonça, Cristiano Zanin e Flávio Dino.

Na pessoa da Juíza Nancy Hernández, Presidente da Corte Interamericana de Direitos Humanos, cumprimento as autoridades estrangeiras que nos honram com a presença.


Era uma manhã de sol e poeira. Meu pai e eu, vindos da colônia, caminhávamos com pressa rumo à agência do Banco do Brasil. Próximos ao centro, ele segurou meu braço e, em tom grave e sereno, advertiu: diminua o passo, vá devagar, respeite — à frente está o juiz da Comarca.

Na simplicidade daquele gesto havia a lição silenciosa do respeito. Essa imagem de infância permanece viva em minha memória. Foi esse juiz interior que, em 2015, tomou posse comigo neste Tribunal. E é essa função paterna, agora amadurecida, que hoje me conduz à Presidência.

Assumo não um poder, mas um dever: respeitar a Constituição e apreender limites. Buscaremos cultivar a virtude do discernimento para eleger, entre as tantas boas ideias que as administrações anteriores tiveram, aquelas cuja hora tenha chegado, e para não impedir de frutificarem aquelas já maduras. Presidir o Tribunal guardião da Constituição do Estado de Direito democrático não confere privilégios: amplia responsabilidades.

Da Presidência se despede um dos juristas mais talentosos da minha geração, o Ministro Luís Roberto Barroso. Ao amigo fraterno desejo, para o bem do país e de todos nós, que conserve sempre a vitalidade intelectual, a inspiração que lhe é própria e a juventude de espírito que o distingue.

Terei ao lado o Vice-Presidente Alexandre de Moraes, magistrado que engrandece este Tribunal e que aqui chegou com uma carreira consolidada como jurista e professor de direito constitucional. É um amigo e um juiz feito fortaleza. Sua Excelência, como integrante deste tribunal, merece nossa saudação e nossa solidariedade, e sempre a receberá, como assim o faremos em desagravo a cada membro deste colegiado, a cada juiz ou juíza deste país, em defesa justa do exercício autônomo e independente da magistratura.

Estou certo de que o Tribunal que integro e que passo a presidir não falta à Constituição nem deslustra a sua tradição. Com serenidade, empenhar-me-ei na preservação dos valores que moldam a identidade do Supremo Tribunal Federal. Impende voltar-se ao básico. Queremos racionalidade, diálogo e discernimento. Nossa matéria há de ser empírica e verificável. Antes mesmo dos direitos ou das garantias temos deveres a cumprir. A dinâmica que enlaça tradição e movimento projeta mudanças sem açodamentos, senda na qual caminharemos.

Na cadeira de Presidente encontro não apenas um assento, e sim a presença viva dos mestres que me formaram e a memória generosa das pessoas que me apoiaram nesta caminhada. Uma fé moldou a minha história. Como tantas mulheres brasileiras, minha mãe contou com a educação como caminho de transformação. Fui para a cidade grande estudar, sem passagem de volta. E hoje estou aqui.

Da escola rural em que recebi das mãos de minha mãe as primeiras letras ao me alfabetizar, guardo o melhor da minha formação: a fidúcia e o compromisso. A minha caminhada foi feita desse legado, concebido e nascido no Planalto Médio gaúcho e que se reconheceu cultivado no Paraná. Ingressei numa grande e histórica universidade pública, a Universidade do Mate, única chance para fazer um curso universitário. Ainda estudante da Universidade Federal do Paraná, não me fiz indiferente ao que pulsa até hoje no prédio histórico de 1912.

A terra das Araucárias me acolheu por adoção e lá, de 1972, herdamos a histórica Declaração de Curitiba pela restauração da democracia. Também lá, em 1978, a VII Conferência da OAB, presidida por Raymundo Faoro, nos inspirou com a retomada do Estado de Direito. Aprendi que a pátria deve ser uma mãe simbólica que tece para seus filhos um laço de identidade coletiva, sem exclusões nem discriminações. É uma árvore frondosa cujo tronco se funda nas diversas e fecundas raízes de nossas bases culturais. Por isso, o Estado e a sociedade devem ser democráticos e republicanos.

A Constituição de 1988 nos fez cidadãos. Não é uma carta de privilégios, mas um documento de responsabilidades, direitos e deveres. A sua força deriva da vontade popular que lhe deu origem. É nossa tarefa mantê-la viva, respeitá-la e cumpri-la.

O Supremo Tribunal Federal, guardião desse texto, tem a missão de assegurar que a lei maior não seja letra morta. A independência do Poder Judiciário é condição para que as liberdades sejam preservadas. Um tribunal forte não significa um tribunal isolado. Significa um tribunal aberto ao diálogo institucional, mas fiel aos seus compromissos constitucionais.

A democracia é o espaço do dissenso, e é natural que haja divergências, inclusive em nossas decisões. Mas o dissenso deve ser regulado pela Constituição, que é o pacto maior da nação. É nela que encontramos limites e horizontes. É nela que se assegura a convivência plural e respeitosa.

Senhoras e Senhores, o Brasil enfrenta desafios profundos.

Desigualdade social, exclusão econômica, violência contra pessoas vulneráveis, desrespeito às minorias, crises ambientais. Nada disso se resolverá sem respeito à Constituição e sem instituições fortes. É preciso reconhecer que democracia não é apenas regime político: é forma de vida.

A história ensina que não há democracia sem freios e contrapesos. Não há democracia sem Judiciário independente. Não há democracia sem Parlamento atuante. Não há democracia sem imprensa livre. Não há democracia sem a sociedade civil organizada.

É preciso que o Supremo Tribunal Federal esteja à altura dessa responsabilidade. Devemos atuar com prudência, mas também com firmeza. O tribunal não é palco de vontades pessoais, mas instância de defesa do pacto constitucional.

Assumo esta Presidência com espírito de serviço. Nenhuma realização será possível sem a colaboração de meus pares, servidores, assessores e de toda a sociedade. Juntos, construiremos um tribunal que respeite seu passado, honre sua tradição e esteja preparado para o futuro.

Convido cada brasileira e cada brasileiro a manter viva a chama da cidadania. A Constituição não é obra acabada: ela se renova a cada dia, na vida concreta das pessoas. É nesse cotidiano que devemos garantir dignidade, liberdade e justiça.

Sei da imensa responsabilidade que recai sobre meus ombros. Mas não estou só. Trago comigo a memória dos que me antecederam, a confiança dos que me apoiam e a esperança de que podemos, sim, fazer do Brasil uma pátria de todos.

Concluo reafirmando meu compromisso: respeitar e fazer respeitar a Constituição da República Federativa do Brasil. Esse é o norte, esse é o caminho, essa é a missão.

Muito obrigado.

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