Brasília Covid-19: Mais de 306 mil estão com 2ª dose atrasada no Distrito Federal

Covid-19: Mais de 306 mil estão com 2ª dose atrasada no Distrito Federal

Levantamento é do Ministério da Saúde. Grupos como profissionais da saúde e trabalhadores da educação estão entre as abstenções

  • Brasília | Jéssica Moura, do R7, em Brasília

Secretaria de Saúde pretende realizar 'Dia D' de vacinação contra a Covid ainda em novembro

Secretaria de Saúde pretende realizar 'Dia D' de vacinação contra a Covid ainda em novembro

Tomaz Silva/Agência Brasil

O avanço na vacinação contra a Covid-19 no Distrito Federal, que abrange a aplicação da dose de reforço, esbarra em um gargalo da campanha de imunização: pelo menos 306.616 pessoas que já deveriam ter completado o esquema vacinal não voltaram aos postos de saúde para tomar a segunda dose. O montante representa 10,04% de toda a população da capital federal. Os dados são do levantamento semanal do Ministério da Saúde. Em todo o país, são 20.386.683 atrasados.

Em coletiva de imprensa nessa quinta (4), a Secretaria de Saúde ressaltou que a maioria dos internados por Covid-19 não tomou a vacina ou recebeu apenas a 1ª dose. 

O epidemiologista Wanderson Oliveira considera o índice alarmante, pois as pessoas que não receberam a imunização estão mais vulneráveis.“Essas pessoas que não tomaram a vacina não estão completamente protegidas. Caso peguem a doença pela primeira vez, podem desenvolver complicações. Já como medida de saúde pública, é preocupante, porque tem implicações inclusive no planejamento da campanha, pois tem que reservar dose para aquela pessoa, o que acaba atrasando todo o processo de vacinação”, frisou.

Com uma dose, as vacinas já conferem proteção, em taxas diferentes. Contudo, a eficácia mais robusta, para proteger contra casos graves da infecção, só é desenvolvida pelo sistema imunológico com a segunda aplicação. Por isso, Oliveira ressaltou que a proximidade das festas de fim de ano com uma população apenas parcialmente imunizada preocupa. “As pessoas vão querer passear, viajar, podendo transitar, levando cepas daqui a outro lugar e vice-versa”.

Atrasos

As causas para os atrasos vão desde questões ideológicas a logísticas. A gerente de áreas programáticas da secretaria de Saúde, Carine Rodrigues, atua no na linha de frente da aplicação das vacinas e percebe que há resistência a elas. “Tem pessoas que ficaram com medo de tomar a segunda dose porque tiveram uma reação normal na primeira”, ponderou. “Entra também ideologia política de ser contra a vacina – isso tem influência sobre a população”.

Outro fator é o esquecimento, já que as vacinas têm intervalos diferentes. Para a CoronaVac, o prazo é de 28 dias. No caso das vacinas da Pfizer/BioNTech e Oxford/AstraZeneca, o governo reduziu o intervalo para 56 dias. “As pessoas não têm costume de olhar a data no cartão de vacina chegam e dizem que esqueceram o dia”, relata. 

Além disso, a vacinação é computada à mão nos postos e só depois os registros são digitalizados. Com isso, há um atraso de até 30 dias entre a anotação manual e a digital. “A contabilização tem um delay. Tem unidade que faz até 2 mil vacinas por dia”, pontuou a profissional. A Secretaria de Saúde do DF anunciou que vai promover um "Dia D" da vacina para accelerar as imunizações, o que deve ocorrer em 20 de novembro, data em que cerca de 15 unidades de saúde ficarão abertas para a vacinação.

Empecilhos

Para especialistas, a estratégia de vacinação do governo do DF também contribui para as abstenções e atrasos. O Ministério da Saúde encaminha aos estados lotes com vacinas acompanhadas de uma pauta com o indicativo de quantas devem ser usadas para cada público. O governo distrital argumenta que segue rigorosamente a descrição da pasta nas aplicações. Em outubro, mesmo com vacinas em estoque, a vacinação dos adolescentes foi suspensa porque acabaram os imunizantes da Pfizer para 1ª aplicação.

“Toda hora é um empecilho. O governo federal manda as doses, há um pool de vacinas, e o governo do DF fica seguindo estritamente aquele número que sabemos que são estimativas”, afirma a infectologista Carla Domingues, ex-coordenadora do Programa Nacional de Imunizações (PNI). Domingues explica que, com essa orientação, a população que não se enquadra no uso indicado daquelas doses acaba tendo a imunização recusada nos postos. "Eles podem não voltar", pondera. 

Para ela, não se justifica priorizar doses quando há vacinas em estoque e que poderiam ser remanejadas entre os grupos. “Tem que facilitar de todos os meios, não pode ter nenhuma oportunidade perdida, porque isso atrasa a vacinação”, diz a infectologista. “O momento econômico é difícil, cada deslocamento para posto é um dia de trabalho ou de aula perdido, isso desmobiliza a população. Tem que ter uma campanha mais dinâmica”.

Comunicação

Carla Domingues diz, no entanto, que a decisão de antecipar a aplicação da 2ª dose de vacinas da Pfizer/BioNTech e de Oxford/AstraZeneca foi acertada. “Dá maior chance das pessoas serem vacinadas, mas isso precisa ser devidamente divulgado, estimulado, tem que fazer a busca ativa das pessoas, muitas ainda estão achando que é só com três meses, quando muda a estratégia tem que ter uma comunicação eficiente”, recomenda.

Assim como Carla Domingues, Wanderson Oliveira também reforça que as falhas na comunicação do governo atrapalham o sucesso da campanha.  “Está faltando educação em saúde”. Por isso, ambos reforçam a necessidade de se investir em campanhas publicitárias para informar a população e estimular a procura pelos postos de saúde.

Saúde

Entre os atrasados, estão desde os que foram contemplados pela campanha pela idade ou por categoria, como profissionais da saúde e trabalhadores da educação. Apesar de estarem entre os primeiros a serem imunizados em fevereiro, preferencialmente com a CoronaVac, cujo intervalo entre as doses é de até 28 dias, cerca de 15,34% dos trabalhadores da saúde não tomaram a 2ª dose. “É um absurdo”, argumenta Wanderson Oliveira. Para ele, um nível de 5% de atraso seria aceitável.

Educação

Os trabalhadores da educação começaram a ser vacinados em junho para viabilizar o retorno parcial das atividades presenciais nas escolas públicas, o que ocorreu em agosto. Na ocasião, 31.386 mil tomaram a vacina da Jassen, de dose única. No entanto, outros 24.242 receberam alguma das outras vacinas de dose dupla, que precisariam de até 3 meses de intervalo entre elas. Mesmo com esse prazo tendo se esgotado em outubro, o monitoramento do Vacinômetro indica que 13,5% desses profissionais ainda não voltou aos postos de saúde. Nessa quarta (3), sob protestos da categoria, houve a retomada 100% presencial das turmas e professores nas escolas públicas.

Em coletiva de imprensa na sexta-feira (29), a secretária Hélvia Paranaguá afirmou que a volta é compulsória não só para os estudantes, mas também para os professores totalmente imunizados. Quem se recusou a se vacinar também terá de trabalhar presencialmente. Na mesma entrevista, o secretário de Saúde Manoel Pafiadache afirmou que iria assegurar a vacinação para os que ficaram para trás.

Faixas etárias

Em outubro, o governo do DF reduziu o intervalo de aplicação das doses de Pfizer/BioNTech e Oxford/AstraZeneca para 56 dias na intenção de acelerar a imunização. Entre as faixas etárias, os adultos de 34 anos foram alcançados pela campanha em 29 de julho e deveriam tomar a 2ª dose em outubro. Ainda assim, 25% desse público está com a dose atrasada.

Flexibilização

No DF, 65,61% da população acima de 12 anos, elegível para a vacinação, está completamente imunizada. Diante dessa taxa, da quantidade de atrasados e da necessidade da aplicação da dose de reforço, os especialistas consideram prematura a flexibilização de medidas de contenção das transmissões, como o fim da obrigatoriedade do uso de máscaras em áreas abertas, e funcionamento pleno de estabelecimentos comerciais. “Tem que flexibilizar comércio e eventos, mas fazer isso com o devido cuidado, fazendo monitoramento das pessoas que frequentam os locais, pedindo a caderneta de vacinação, exigindo o uso de máscara”, diz Carla Domingues.

Além disso, houve o fechamento de leitos de UTI exclusivos para pacientes com Covid-19, o que também possibilitou a retomada de cirurgias eletivas, procedimentos que chegaram a ser suspensos durante a pandemia. “Estamos fazendo movimentos combinados que podem resultar no aumento do número de casos, com consequência de internação e óbitos”, ponderou o Wanderson Oliveira.

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