Da sala de aula ao mundo real: a nova geração que aprende a lidar com dinheiro
Educação financeira passou a fazer parte do currículo escolar brasileiro após a BNCC de 2020, deixando de ser um tema isolado
Brasília|Victória Olímpio, do R7, em Brasília
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Produzido pela Ri7a - a Inteligência Artificial do R7

A educação financeira deixou de ser um tema restrito a especialistas e passou a ocupar espaço dentro das salas de aula brasileiras. Com a implementação da BNCC (Base Nacional Comum Curricular) no ensino médio em 2020, o assunto deixou de ser tratado de forma isolada, podendo ser abordado em matérias como matemática e ciências humanas.
A necessidade da mudança acontece em um cenário em que 79,5% das famílias brasileiras estão endividadas, segundo a Peic (Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor). Em meio a isso, a maioria dos brasileiros admite que entende pouco ou nada de educação financeira, de acordo com a pesquisa Observatório Febraban.
Por isso, o objetivo é preparar os jovens para lidar com dinheiro de forma responsável em um cenário de consumo digital, mudanças rápidas no mercado de trabalho e até mesmo crédito fácil. A base tornou o tema conteúdo obrigatório, abrindo espaço para que estudantes aprendam sobre planejamento financeiro básico, conceitos como juros, crédito e consumo, além de noções de empreendedorismo e tomada de decisão responsável.
A mudança ampliou o debate, mas deixou a cargo das escolas a forma de execução, o que gera diferenças na prática. Em redes de ensino públicas do Distrito Federal o tema entra como uma trilha de aprendizado, com os alunos podendo optar por fazer na área de humanas ou de exatas.
A professora de matemática Danielly de Souza Figueiredo, do Centro de Ensino Médio Paulo Freire, na Asa Norte, conta que a trilha “Dinheiro na Mão é Vendaval” abordou os conteúdos de matemática financeira, trabalhando conteúdos voltados para o dia a dia. Segundo ela, outros professores abordaram a visão histórica, econômica e teórica da educação financeira.
A disciplina é trabalhada durante os dois semestres, ao longo de todo o ano letivo. As trilhas são obrigatórias no ensino médio da capital.
Também é feito um trabalho com os pais para que os aprendizados dos alunos sejam aplicados em casa e no dia a dia. Uma parceria com o programa Oficina de Finanças visa oferecer materiais e estratégias pedagógicas, validadas por pesquisas e inovações.
Aprender Valor
Como forma de incentivo, o Banco Central lançou um programa gratuito que ajuda professores, escolas e redes de ensino a levarem educação financeira a estudantes do ensino fundamental em todo o país. O Aprender Valor é a plataforma oficial do Na Ponta do Lápis, iniciativa do MEC (Ministério da Educação) para promover a educação financeira, fiscal e previdenciária e securitária na educação básica.
Segundo dados do Banco Central, 27 mil escolas participam do programa em todo o Brasil, com 65% dos municípios tendo instituições participantes e 27 secretarias estaduais cadastradas.

O economista e professor de finanças Augusto Mergulhão considera a educação financeira nas escolas primordial para que os jovens aprendam a lidar com dinheiro e entender como a economia funciona.
“A gente tem uma escola completamente conteudista, focada em passar no vestibular, mas não prepara para o mercado de trabalho, que é uma realidade profissional. Os jovens saem das escolas, entram nas faculdades e saem sem saber o que é taxa Selic, CNPJ, sem saber o efeito da inflação ao longo do tempo. Não sabem sobre a produção de riqueza de um país, sem saber de fato se a economia do Brasil está indo bem ou não”, explica.
O especialista reforça a importância do tema para ajudar a moldar a consciência de que o dinheiro tem um custo, como funcionam os juros e o preço dos bens.
A prática do dia a dia

Por fora das instituições de ensino, alguns pais preferem incentivar os filhos e aderir à educação financeira nas atividades práticas do dia a dia. A enfermeira Alice Caroline Souza conta que o filho de cinco anos, Luan Souza Rodrigues, já começou a entender o valor do dinheiro. Segundo ela, o amor por plantas sempre esteve presente na vida do menino, o que pareceu uma boa oportunidade para ensiná-lo a vender e aprender mais sobre o tema.
Ela explica que comprou algumas plantas e estruturou uma página nas redes sociais para divulgar o trabalho do pequeno empreendedor e o ensinou a oferecer para outras pessoas. “Com valor simbólico, Luan passou a aprender um pouco sobre o dinheiro. Assim ele desenvolveu e passou a ter um entendimento sobre como funciona o dinheiro. Ele vendia plantas, recebia dinheiro para guardar ou usar com algo que fosse importante”, relatou.
A mãe conta que o crescimento do projeto incentivou ainda mais o filho a continuar e perder a timidez: “Vi Luan desfrutar do seu próprio dinheiro em passeios, viagens e claro, comprar as próprias plantas.”

Tendo um resultado positivo e em pouco tempo, a mãe também se animou com a possibilidade de incentivar e motivar outras famílias a viverem a mesma realidade com os filhos. “Eu quero implementar um projeto de assinatura mensal para enviar cartilhas escritas por mim e pelo Luan sobre educação financeira infantil. A ideia é mandar o livro e um brinde como cofrinhos, cadernetas e outros itens que remetem ao tema para motivar as crianças. Nesse projeto eu também quero propor um desafio em cada edição, como juntar moedas ou economizar em alguma compra e contar sobre a experiência.”
A enfermeira relata que o filho atualmente sabe diferenciar o que é necessidade, vontade e o que é prioridade. “Ele é um mini empresário. Isso mostra que é possível empreender desde a infância. Luan aos cinco anos comemorou seu aniversário realizando um sonho de andar de navio. Quero ensinar que tudo é possível com a organização e o planejamento. Eu tenho aprendido muito com ele também. Pretendemos inaugurar a Floricultura Jardim do Luan no próximo ano”, projeta.
Educação financeira fora do Brasil
Em contrapartida, na Finlândia, a educação financeira está incluída no currículo nacional em todos os níveis de ensino, do ensino fundamental ao ensino médio. Ela não é uma disciplina separada, mas está integrada a diversas matérias, especialmente estudos sociais, matemática, economia doméstica e trabalhos manuais. Habilidades financeiras cotidianas são introduzidas por meio do trabalho, das profissões e do uso do próprio dinheiro. Na escola, a gestão financeira e o consumo responsável são discutidos de maneira adequada à idade.
Segundo a embaixada do país europeu, durante o ensino fundamental e médio, os alunos conhecem as empresas, os locais de trabalho e os serviços em seu ambiente local, por exemplo, nas aulas de estudos sociais. No nível social mais amplo, o ensino sobre economia considera perspectivas locais, nacionais e globais. Na década de 2000, o sistema educacional da Finlândia começou a receber atenção mundial graças às altas classificações internacionais na área da educação.
Além disso, a Finlândia alcançou esse resultado gastando apenas um pouco mais por aluno do que a média da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico). O ensino básico procura fornecer competências amplas, como pensamento crítico, capacidade de resolver problemas e educação financeira. Ainda segundo a embaixada, os jovens finlandeses têm ótimo desempenho em estudos, por exemplo, no PISA 2022 (Programa Internacional de Avaliação de Estudantes) focado no pensamento criativo, em que os alunos finlandeses se destacaram, ficando acima da média da OCDE.















