“Eu achava que não ia acontecer”, diz líder comunitário sobre derrubadas em lotes de mansões à beira do Lago Paranoá
Pedro Barros é líder comunitário da maior invasão de baixa renda do Distrito Federal
Brasília|Carol Oliveira, Do R7

Brasília é conhecida como a terra das invasões. Na capital do País, a apropriação privada do espaço público é democrática. Pobres, funcionários públicos de classe média e até os muito ricos tomam áreas públicas. Seja em barracos, como no Sol nascente, em grandes condomínios de classe média alta, como em Vicente Pires, ou na orla do Lago Paranoá, onde residências com áreas de lazer luxuosas chegam a custar R$ 18 milhões.
Derrubadas e regularizações das áreas invadidas são frequentes. O que ninguém imaginava é que as remoções chegariam até os jardins mais nobres. Desde segunda-feira (24), a Agência de Fiscalização do Distrito Federal cumpre decisão judicial de 2013 e retira cercas, grades e muros que impedem o acesso público à orla do lago em uma faixa de 30 metros a partir do espelho d’água.
Esta é a primeira de três etapas de derrubadas de estruturas e construções que ocupam área que deveria ser de acesso livre, como prevê o projeto urbanístico de Brasília, desenhado por Lúcio Costa.
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A operação, comemorada por uns e criticada por outros, provoca uma mistura de sentimentos no vigilante Pedro Barros, líder comunitário da maior invasão de baixa renda do Distrito Federal. Ele, um dos fundadores do Condomínio Habitacional Sol Nascente, considerado hoje a segunda maior favela da América Latina, atrás somente da Rocinha, no Rio de Janeiro, diz que vê a medida com surpresa e medo.

— Eu achava que não ia acontecer, mas acho que é justo. Ao mesmo tempo me causa preocupação porque se eles mexeram com os ricos, imagina com os pobres, explica o morador do DF há 24 anos.
Em outra reflexão, Pedro ainda vê desigualdade nas derrubadas realizadas atualmente no Lago Sul e as retiradas de famílias do Sol Nascente.
— Tem derrubada de cerca e árvore. Eu não vi nenhuma casa indo pro chão. Aqui já chega derrubando tudo.
Em 1997, seis anos depois de chegar do Piauí, Pedro foi um dos primeiros moradores do Sol Nascente. Na época, donos de pequenas propriedades no que era um setor de chácaras de Ceilândia, a maior cidade do DF, parcelaram as terras e venderam porções. Assim começou o loteamento irregular do Sol Nascente, que hoje abriga mais de 80 mil pessoas. O nascimento do setor coincide com uma explosão de invasões de terras públicas, parcelamento irregular de terras e grilagem no Distrito Federal.
Na mesma época nasceu Vicente Pires, Arniqueiras, Jardim Botânico, parte da Cidade Estrutural, Condomínios do Lago Sul, condomínios do Lago Norte, do Paranoá, moradores de todos os lugares estenderam seus terrenos e ocuparam áreas pública e de preservação ambiental. Havia invasão para toda sorte, como há até hoje, frutos do mesmo sistema irregular.
A crença era generalizada de que a invasão resultaria na garantia da casa própria, na extensão de um terreno ou em um instrumento de especulação imobiliária. A grilagem de terras passou a ser comum em todo o território central do país. Atualmente, cerca de 1 milhão de pessoas vivem em áreas irregulares, quase um terço da população do DF. A presidente da Agência de Fiscalização do Distrito Federal, Bruna Pinheiro, diz que o problema é maior do que se pensa.

— A cultura da invasão é triste, não tem nenhuma cidade no Distrito Federal que não é alvo de grilagem de terra pública, todas elas têm um histórico. A situação é tão grave que não tinha como derrubar tudo e a gente fez um corte a partir de junho de 2014 e vamos derrubar tudo daqui para a frente, diz.
Bruna acrescenta que o legado das invasões é uma situação ambiental crítica. Em alguns lugares, a devastação da natureza é irreversível.
— Brasília não suporta mais a ocupação desordenada. [...] As invasões comprometem o abastecimento de água, os recursos naturais. Em alguns lugares e situação é irreversível, a gente está tentando salvar as áreas em que ainda é possível fazer alguma coisa.
Para abrir à população e preservar o meio ambiente, a Agefis fez um plano de ocupação da orla do Lago Paranoá, em que prevê a criação de parques, de áreas de acesso livre e define locais que não podem ser visitados para preservação da fauna e da flora.
Em comemoração a ação histórica , moradores do DF marcaram um encontro neste domingo (30) nas áreas tiveram cercas, grades e muros derrubados. 13 mil pessoas confirmaram presença no “Isoporzinho da Orla do Povo” que planeja aproveitar os 39.286 metros de área pública devolvidos à população, mas a presidente do Instituto Brasília Ambiental, Jane Maria Villas Boas, alerta que a ocupação não será imediata.
— É como a reforma da casa que se faz para melhorar, para ampliar, para acolher melhor e durante a obra você não pode usar, então, a gente ainda tem um processo de retirada dos equipamentos, das cercas, alguns têm ferragens expostas, alguns moradores colocaram bomba de captação de água, tem fiação exposta.
O Ibram tem 180 dias para desenvolver um projeto de ocupação das áreas desobstruídas. O Lago Paranoá é utilizado pela CEB (Companhia Energética de Brasília) para a geração de energia elétrica, que abastece parte do Distrito Federal, para a prática de esportes náuticos e pela população como forma de lazer em parques ambientais e clubes privados da orla. Um projeto da Caesb (Companhia de Saneamento Básico do Distrito Federal) prevê a captação de água para abastecimento humano a partir de 2018.











