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Expulsão de embaixadores é mais grave para Nicarágua que para Brasil, avaliam especialistas

País da América Central tem pouca relevância e participação econômica na balança comercial brasileira

Brasília|Ana Isabel Mansur, do R7, em Brasília

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Embaixador foi aprovado para o posto em 2021 Edilson Rodrigues/Agência Senado - 1.12.2021

A crise diplomática com a Nicarágua, que levou à expulsão de embaixadores nesta quinta-feira (8), tem mais impactos negativos para o país da América Central que para o Brasil, apontam especialistas em relações internacionais e direito internacional ouvidos pelo R7. A Nicarágua, governada pelo ditador Daniel Ortega, já lida com o isolamento de outros países e tem pouca relevância no cenário econômico internacional.

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Os estudiosos analisam, ainda, que as trocas comerciais entre Brasil e Nicarágua são pequenas. Segundo o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, as exportações do Brasil para a Nicarágua somaram US$ 68,3 milhões entre janeiro e julho de 2024. Nesse intervalo, as importações brasileiras vindas do país centro-americano ficaram em US$ 2,9 milhões. A título de comparação, no mesmo período, o Brasil vendeu US$ 61,8 bilhões para a China e comprou R$ 34,7 bilhões da nação asiática.

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Ortega expulsou o embaixador brasileiro no país, Breno de Souza Brasil Dias da Costa, por ele não ter comparecido à cerimônia de aniversário de 45 anos da Revolução Sandinista, em 19 de julho. Em resposta, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva expulsou a embaixadora da Nicarágua em Brasília, Fulvia Patricia Castro Matus.

As relações entre os dois países estão em processo de esfriamento desde 2016, com o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff, com uma breve tendência de retomada em 2017. Em 2018, a situação piorou novamente, com o agravamento do cenário político da Nicarágua sob o regime de Ortega.

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O internacionalista João Coser, que estuda América Latina e política externa brasileira, aponta que a expulsão das representações máximas de um Estado em outro país demonstra total quebra de laços diplomáticos. No caso Brasil-Nicarágua, com o cenário dos últimos anos, o movimento já era esperado.

“Esse episódio foi algo silencioso. O Brasil é reconhecido pelas boas relações diplomáticas. A situação é delicada, e Ortega expulsou o embaixador brasileiro sabendo das implicações que poderia causar”, afirma, ao citar a reciprocidade nas relações diplomáticas.

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Apesar de não ser uma prática comum da diplomacia brasileira, Coser cita outras ocasiões em que representações estrangeiras foram expulsas do Brasil. “Temos como exemplos 1948, quando o embaixador alemão foi expulso por tensões do pós-guerra; em 1964, durante a ditadura militar daqueles que se opunham ao governo; e em 1984, o embaixador da Líbia, sob altas tensões diplomáticas”, exemplifica.

Protagonismo brasileiro e isolamento da Nicarágua

O professor de relações internacionais da ESPM São Paulo Roberto Uebel destaca que o episódio que envolve os embaixadores impacta mais a Nicarágua que o Brasil, devido ao “peso” dos dois países. “É hiperdimensionado para a Nicarágua, mas é uma dimensão de pouca expressão e relevância para o Brasil”, pontua.

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“O Brasil é um protagonista latino-americano, e inclusive inspira as outras nações, enquanto a Nicarágua é um pequeno país centro-americano. Então, o impacto de não contar mais com a parceria e o reconhecimento do governo brasileiro pode levar a um isolamento ainda maior da ditadura de Ortega na América Central e na América Latina. Já tem relações complicadas, por exemplo, com El Salvador, e relações muito complexas com o Panamá. O Brasil servia como intermediário da Nicarágua com outros países da região, inclusive os Estados Unidos”, observa o especialista.

Relações inexpressivas e comparação com Venezuela

Uebel afirma que a Nicarágua não é um parceiro estratégico, por ser um país de pouca expressão econômica para as relações comerciais do Brasil na América Central. “Acho que, como próximo passo, talvez o Itamaraty deva fazer algum tipo de mapeamento de quais relações com a Nicarágua ainda interessam para o Brasil. São relações comerciais inexpressivas, se comparadas a outros países da região, como Costa Rica, Panamá, El Salvador e Honduras”, avalia.

O professor compara a situação da Nicarágua ao atual cenário da Venezuela, que assim como o país centro-americano tem um governo autoritário. Na visão do professor, a ação do Brasil é diferente nos dois casos porque a Venezuela é mais relevante que a Nicarágua. Apesar de o tratamento não ser o mesmo, a posição brasileira em relação ao regime de Ortega sinaliza o afastamento do Brasil de ditaduras.

“[A Venezuela] é um país fronteiriço, tem toda a questão energética — o estado de Roraima todo depende da Venezuela, coisas que a Nicarágua não oferece para o Brasil. [A expulsão da embaixadora nicaraguense] demonstra também para a comunidade latino-americana que o diálogo do governo brasileiro com regimes autoritários, inclusive de esquerda, como o de Ortega, não faz parte mais dos princípios da diplomacia brasileira”, acrescenta.

‘Crítica dentro das quatro linhas’

Na mesma linha dos colegas, o advogado doutor em democracia e direito constitucional Acácio Miranda destaca o impacto político do episódio para o Brasil. “A Nicarágua, por mais que seja da América, é um país com quem o Brasil tem poucas relações econômicas, e são elas que, no fim das contas, acabam pautando as relações internacionais”, argumenta.

Miranda avalia que o fato de Lula ter expulsado a embaixadora nicaraguense pode ser lido como uma repulsa do petista à ditadura de Ortega. “Mas é uma crítica dentro das quatro linhas, uma vez que Lula não fez um apontamento acerca de eventuais ilegalidades ou excessos cometidos na Nicarágua. É natural que um presidente, especialmente de um país importante nas Américas, critique outros países. O que é despropositada é a reação do líder da Nicarágua”, completa o advogado.

Entenda

Lula tentou interceder em defesa do bispo católico Rolando Álvarez, preso pela ditadura nicaraguense no ano passado por críticas ao regime. O movimento em defesa do religioso, segundo o próprio petista, partiu de um pedido do papa Francisco. Ortega não retornou o contato do brasileiro.

Em resposta, Lula orientou que o embaixador Breno de Souza Brasil Dias da Costa não participasse mais de atividades que envolvessem o governo nicaraguense. A ausência do diplomata na cerimônia de aniversário de 45 anos da Revolução Sandinista, celebrada em 19 de julho, teria sido a gota d’água para Ortega.

A princípio, a ditadura apenas sinalizou que expulsaria o embaixador brasileiro. Como em um primeiro momento não houve comunicação oficial da decisão, o Ministério das Relações Exteriores interpretou que havia espaço para negociações. A atuação da diplomacia brasileira, no entanto, não surtiu efeito. A indicação de Breno de Souza Brasil Dias da Costa para o posto nicaraguense foi aprovada pelo Senado em dezembro de 2021.

Em nota oficial, o Itamaraty informou que “o governo brasileiro decidiu pela retirada da Embaixadora da Nicarágua em Brasília como resultado da aplicação do princípio da reciprocidade à medida adotada pelo governo nicaraguense em relação ao Embaixador brasileiro em Manágua”.

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