Brasília Lula discursou no G20 sobre sustentabilidade, combate à fome e inclusão social; veja íntegra

Lula discursou no G20 sobre sustentabilidade, combate à fome e inclusão social; veja íntegra

O Brasil vai presidir o grupo no próximo mandato, que vigora de 1º de dezembro deste ano a 30 de novembro de 2024

  • Brasília | Bruna Lima, do R7, em Brasília

Modi e Lula trocaram mudas na passagem do mandato

Modi e Lula trocaram mudas na passagem do mandato

Ricardo Stuckert/Divulgação

Ao encerrar a participação na 18ª Cúpula de Chefes de Estado e Governo do G20, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) elencou, no discurso, as prioridades do Brasil na presidência do grupo que reúne as 20 maiores economias do mundo: combate à fome, à pobreza e à desigualdade; transição energética e desenvolvimento sustentável; e reforma do sistema de governança internacional.

Lula recebeu, neste domingo (10), o martelo de madeira que simboliza a liderança temporária do país. O primeiro-ministro indiano Narendra Modi e Lula trocaram mudas de árvore na passagem do mandato, como um símbolo da preocupação do grupo com a pauta ambiental. A cerimônia aconteceu em Nova Déli, na Índia, país que ocupava a presidência do G20.

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O Brasil recebeu a missão de presidir o grupo no próximo mandato, que vai vigorar de 1º de dezembro deste ano a 30 de novembro de 2024. Na fala, Lula destacou a consolidação do G20, há 15 anos, como uma das principais instâncias de governança global, que permitiu enfrentar períodos de crise econômica. No entanto, ele ressaltou a carência de lançar uma governança econômica mais justa.

"Novas urgências surgiram. Os desafios se acumularam e se agravaram. Vivemos num mundo em que a riqueza está mais concentrada. Em que milhões de seres humanos ainda passam fome. Em que o desenvolvimento sustentável está sempre ameaçado. Em que as instituições de governança ainda refletem a realidade de meados do século passado. Só vamos conseguir enfrentar todos esses problemas se tratarmos da questão da desigualdade"

Luiz Inácio Lula da Silva (PT), ao discursar no encerramento da participação brasileira na Cúpula do G20

"Novas urgências surgiram. Os desafios se acumularam e se agravaram. Vivemos num mundo em que a riqueza está mais concentrada. Em que milhões de seres humanos ainda passam fome. Em que o desenvolvimento sustentável está sempre ameaçado. Em que as instituições de governança ainda refletem a realidade de meados do século passado. Só vamos conseguir enfrentar todos esses problemas se tratarmos da questão da desigualdade", destacou. 

O presidente também confirmou que o Brasil vai criar duas forças-tarefa para ampliar o combate à desigualdade ao longo da presidência brasileira: a Aliança Global contra a Fome e a Pobreza e a Mobilização Global contra a Mudança do Clima.

Lula também usou o discurso final para falar sobre a tragédia no Rio Grande do Sul provocada pela passagem de um ciclone extratropical e a necessidade de preservar a natureza, que, segundo ele, "continua dando demonstração de que nós precisamos cuidar dela com muito mais carinho".

Confira o discurso completo:

Bem, primeiro gostaria de dizer às autoridades aqui presentes, suas altezas, aos presidentes, aos primeiros-ministros, de que a natureza continua dando demonstração de que nós precisamos cuidar dela com muito mais carinho.

Essa semana, há três dias atrás, no Brasil, um ciclone, no estado do Rio Grande do Sul – nunca tinha havido ciclone –, matou quarenta e seis pessoas e tem quase cinquenta pessoas desaparecidas. Isso nos chama a atenção porque fenômenos como esse têm acontecido nos mais diferentes lugares do nosso planeta.

Bem, eu quero, primeiro, cumprimentar o primeiro-ministro Narendra Modi pela condução eficaz da Presidência indiana do G20, e pelo excelente trabalho na preparação dessa Cúpula e no carinho que foi dedicado a todos nós, convidados, nesses dias que nós passamos aqui.

Agradeço os esforços da Índia em dar voz a temas de interesse dos países emergentes. Por isso, eu quero me solidarizar aqui com o nosso querido companheiro, representante da União Africana, que agora faz parte do G20.

Há 15 anos, este grupo se consolidou como uma das principais instâncias de governança global na esteira de uma crise que abalou a economia mundial.

Nossa atuação conjunta nos permitiu enfrentar os momentos mais críticos, mas foi insuficiente para corrigir os equívocos estruturais do neoliberalismo.

A arquitetura financeira global mudou pouco e as bases de uma nova governança econômica não foram lançadas.

Novas urgências surgiram. Os desafios se acumularam e se agravaram.

Vivemos num mundo em que a riqueza está mais concentrada.

Em que milhões de seres humanos ainda passam fome.

Em que o desenvolvimento sustentável está sempre ameaçado.

Em que as instituições de governança ainda refletem a realidade de meados do século passado.

Só vamos conseguir enfrentar todos esses problemas se tratarmos da questão da desigualdade.

A desigualdade de renda, de acesso a saúde, educação e alimentação, de gênero e raça e de representação está na origem de todas essas anomalias.

Se quisermos fazer a diferença, temos que colocar a redução das desigualdades no centro da agenda internacional.

Por isso, a presidência brasileira do G20 terá três prioridades:

(i)  a inclusão social e o combate à fome

(ii)  a transição energética e o desenvolvimento sustentável em três vertentes (social, econômica e ambiental) e

(iii)  a reforma das instituições de governança global

Todas essas prioridades estão contidas no lema da Presidência brasileira, que diz: "Construindo um Mundo Justo e um Planeta Sustentável".

Duas forças-tarefas serão criadas: a Aliança Global contra a Fome e a Pobreza; e a Mobilização Global contra a Mudança do Clima.

Precisamos redobrar os esforços para alcançar a meta de acabar com a fome no mundo até 2030, caso contrário estaremos diante do maior fracasso multilateral dos últimos anos.

Agir para combater a mudança do clima exige vontade política e determinação dos governantes, e também recursos e transferência de tecnologia.

Queremos maior participação dos países emergentes nas decisões do Banco Mundial e do Fundo Monetário Internacional.

A insustentável dívida externa dos países mais pobres precisa ser equacionada.

A OMC tem que ser revitalizada e seu sistema de solução de controvérsias precisa voltar a funcionar. 

Para recuperar sua força política, o Conselho de Segurança da ONU precisa contar com a presença de novos países em desenvolvimento entre seus membros permanentes e não permanentes.

A comunidade internacional olha para nós com esperança, porque reunimos no G20 economias de países emergentes e países desenvolvidos.

Representamos 80% do PIB global, 75% das exportações e cerca de 60% da população mundial.

Para assegurar que o G20 atue de forma inclusiva e coerente, o Brasil pretende organizar os trabalhos em torno de três orientações gerais:

Primeiro, nós vamos fazer com que as trilhas política e de finanças se coordenem e trabalhem de forma mais integrada.

Não adianta acordarmos a melhor política pública se não alocarmos os recursos necessários para sua implementação.

Segundo, nós temos de ouvir a sociedade.

Não existem governos sem sociedade.

A Presidência brasileira vai assegurar que os grupos de engajamento tenham a oportunidade de reportar suas conclusões e recomendações aos representantes de governo.

Terceiro, nós não podemos deixar que questões geopolíticas sequestrem a agenda de discussões das várias instâncias do G20.

Não nos interessa um G20 dividido.

Só com uma ação conjunta é que podemos fazer frente aos desafios dos nossos dias.

Precisamos de paz e cooperação em vez de conflitos.

O caminho que nos levará de Nova Delhi ao Rio de Janeiro exigirá de todos muita dedicação e empenho.

Os grupos técnicos e as reuniões ministeriais preparatórias serão sediadas em várias cidades de todas as cinco regiões do nosso país.

Por isso, nós acolheremos os integrantes do G20 de braços abertos e precisamos, efetivamente, do apoio de todas as pessoas, inclusive a experiência dessa bem-sucedida Cúpula feita no nosso querido país que é a Índia.

Terei a honra de receber todos vocês na Cúpula do Rio de Janeiro em novembro de 2024. E quero, antes de bater o martelo, eu quero agradecer ao presidente Modi e agradecer ao povo indiano pela competência da organização.

E eu quero dizer, presidente Modi, que eu, particularmente, fico muito emocionado quando estou em uma homenagem ao nosso querido Gandhi. Todo mundo sabe que, na minha vida política, Mahatma Gandhi tem muito significado, porque a luta pela não violência é um exemplo que, por muitas décadas, eu segui quando estava no movimento sindical. Por isso, eu fiquei emocionado e quero agradecer a oportunidade de ter ido prestar homenagem ao Gandhi e quero dizer a todos vocês que o Brasil assumirá o G20 e vamos fazer um esforço muito grande para conseguirmos fazer, pelo menos, igual os companheiros da Índia fizeram.

Muito obrigado.

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