Mãe de jovem assassinado brutalmente no DF vira militante e subsecretária em defesa das vítimas da violência
Ela defende a redução da maioridade penal e acredita que crianças de dez anos já sabem o que estão fazendo
Brasília|Gustavo Frasão, do R7

A mãe do jovem Marco Antônio Velasco, de 16 anos, espancado até a morte por um grupo de dez rapazes que formavam a gangue FL (Falange Satânica) em 1993 virou militante e subsecretária em defesa das vítimas da violência na capital federal após a morte do filho. Desde 1999, quando fundou a ONG Convive (Comitê Nacional de Vítimas de Violência) ela luta pela defesa dos direitos humanos das vítimas da violência. Em 2009, foi convidada a assumir o posto de subsecretária da Pró-Vítimas (Subsecretaria de Proteção às Vítimas de Violência) na Secretaria de Justiça do Distrito Federal.
Valéria Velasco nasceu em São João Nepomuceno, uma pequena cidade no interior da Zona da Mata de Minas Gerais em 1947. Formada em jornalismo pela Universidade Federal de Juiz de Fora, ela teve três filhos com o ex-marido. Depois que perdeu o caçula para a violência gratuita em plena luz do dia no ano de 1993 passou a militar na área com a intenção de mudar, de alguma forma, a sociedade e a legislação brasileira para que casos como esses não voltassem a se repetir com outras famílias.
Quando "Marquinho", como era conhecido, morreu o caso ganhou grande repercussão na imprensa local e nacional. O jovem foi espancado até a morte por dez jovens da gangue Falange Satânica na quadra 316 da Asa Norte, área central de Brasília, em plena luz do dia. O crime aconteceu por volta das 15h e o estudante estava acompanhado de dois amigos quando o grupo se aproximou.
Os amigos conseguiram fugir, mas Marco Antônio caiu e foi massacrado durante dois minutos pelos assassinos, todos praticantes de artes marciais. Entre os envolvidos, estavam cinco menores de idade, sendo que um deles tinha entre 12 e 13 anos na época. Depois da sessão da socos e chutes, os criminosos foram embora andando e deixaram a vítima inconsciente no chão.
Marquinho teve traumatismo craniano, baço rompido, braços e costelas quebrados e diversos outros ferimentos graves por todo o corpo. No dia seguinte, 10 horas após dar entrada no hospital, ele não resistiu e morreu. A crueldade do crime chamou a atenção da sociedade, especialmente por ter acontecido sem qualquer motivo, em plena luz do dia e em uma quadra comercial onde jovens de classe média e alta passavam o dia sem preocupação com a segurança.
Diante disso, várias pessoas se solidarizaram com a situação e começaram a prestar todo o apoio necessário para que a fase fosse superada pela família. Depois de alguns meses, Valéria se motivou no cuidado dos outros dois filhos que, apesar de serem mais velhos, ainda dependiam dela. Desde então, o objetivo passou a ser lutar por eles e contra a violência para que outras famílias não sentissem a dor que ela estava sentindo.
— Eu via na televisão crimes bárbaros no DF e em vários lugares e sempre dizia que podia imaginar a dor que as famílias sentiam. No entanto, estava totalmente enganada. A gente nunca acha que vai acontecer com a gente, mas quando acontece dá para ver que é impossível imaginar qualquer coisa nesse sentido. A dor é indescritível, é violenta. Se o inferno existe, posso dizer que é isso e só quem passa sabe como realmente é. Não tem como se colocar no lugar se você não tiver passado pela experiência.
Por isso, Valéria passou a se reunir semanalmente com outras famílias que também perderam entes queridos para a violência com a intenção de prestar o apoio psicológico.
Foi dessa prática que, em 1999, surgiu oficialmente o Convive. No começo, Valéria assumiu a presidência do comitê e desenvolveu ações que marcaram o País, como a primeira Caravana das Mães contra as Armas e a Violência, que reuniu familiares de vítimas da violência de todo o País em Brasília para reivindicar por mudanças e melhorias na Justiça brasileira.
Como militante e representante do comitê ela também dedicou-se a campanhas mobilizadoras, como a campanha do desarmamento em 2006. Também participou de diversos seminários nacionais e internacionais voltados para o controle do uso de armas de fogo e a promoção da cultura de paz na sociedade.
Como jornalista profissional, Valéria especializou-se em edição de revistas e jornais para empresas públicas e privadas. Teve a oportunidade de ocupar cargos importantes dentro do governo, como coordenação de comunicação social do extinto Ministério do Interior e assessorias. Trabalhou durante uma década como subeditora de Cidades e editora do Caderno Trabalho e de capa de um jornal de grande circulação no Distrito Federal.
Em 2009, deixou a profissão a pedido do secretário de Justiça, Alírio Neto, para se dedicar à implantação da recém-criada Pró-Vítimas (Subsecretaria de Proteção às Vítimas de Violência). Para ela, este é um projeto inovador que tem como objetivo assegurar a assistência que as vítimas e famílias de crimes violentos no DF e Entorno precisam, por meio de políticas públicas de prevenção e controle da criminalidade.
— Atendemos todas as vítimas e famílias das vítimas com apoio social, psicológico e jurídico. São vítimas de estupro, sequestro, sequestro-relâmpago, assalto, latrocínio (roubo seguido de morte), homicídio, tentativa de homicídio, violência doméstica (Lei Maria da Penha), lesão corporal e crimes de trânsito.
Impunidade
Na época do crime que tirou a vida de Marco Antônio Velasco, um dos integrantes da gangue confessou o homicídio e admitiu que não conhecia a vítima. No entanto, ele afirmou que a intenção era só brigar e bater, e que ninguém tinha a intenção de matar.
Os cinco maiores de idade, incluindo o líder da gangue, Gengis Keyne, que é filho de um delegado da Polícia Federal, foram presos em flagrante e condenados a 28 anos de prisão pelo crime de homicídio qualificado, mas ficaram apenas seis atrás das grades.
Quatro adolescentes foram apreendidos e ficaram alguns meses no antigo Caje (Centro de Atendimento Juvenil Especializado), atual UIPP (Unidade de Internação do Plano Piloto), mas saíram e estão impunes até hoje. O outro menor conseguiu fugir e nunca mais foi localizado.
O líder do grupo, Gengis Keyne, hoje com 38 anos, inicialmente condenado a 28 anos de prisão, entrou com recurso e conseguiu reduzir a pena para 21 anos. Na época, metade dos integrantes da gangue tinha menos de 18 anos, mas mesmo assim Keyne conseguiu escapar do crime de corrupção de menores.
Pouco depois, em 1998, ganhou o benefício do regime semiaberto, concluiu o ensino médio e cursou administração de empresas em uma faculdade da Asa Sul, área central de Brasília, mas foi preso no mesmo ano por outro crime.
Em 2001, oito anos depois da morte de Marquinho, ele já estava em liberdade condicional. No entanto, foi preso novamente em 2008 por tráfico de drogas e permanece detido até hoje por esse crime. Os outros integrantes da gangue, porém, foram postos em liberdade e nunca mais voltaram para a cadeia.
Pró-vítimas e a maioridade penal
Atualmente, Valéria trabalha para dar maior visibilidade aos direitos dos cidadãos atingidos de forma direta ou indireta por crimes violentos.
Durante a entrevista exclusiva ao R7, Valéria também comentou que existe uma incoerência de responsabilidades que o Estado dá aos cidadãos, motivo que ajuda a desencadear a violência.
— É incoerente permitir que um jovem de 16 anos vote, que é a maior responsabilidade da vida dele enquanto cidadão, e não permitir que ela responda criminalmente pelos próprios atos. A maioria esmagadora dos crimes no DF e no Brasil são cometidos por menores de 18 anos que sabem da proteção da lei. Eles sabem que podem fazer o que quiser que vão sair impunes.
Para ela, isso faz com que as pessoas cometam os crimes com a premissa de que não serão punidos e, se forem, as penas serão muito brandas. Ela entende que o Estado deve impor respeito para que ocorra de fato uma educação e ressoscialização dessas pessoas a longo prazo.
— É preciso trabalhar bem isso. Se ele vota, deve responder criminalmente sim. E hoje, uma criança de dez anos já sabe o que é certo, o que é errado, o que é viver, o que é morrer, como viver e como morrer. As pessoas devem ser punidas igualmente, independente da idade. Podem ser separadas por grupos, mas todos devem responder igualmente pelos seus atos.
A subsecretária disse que o programa Pró-vítima oferece o atendimento multidisciplinar em várias regiões administrativas do DF e tem como objetivo evitar que novos casos de violência aconteçam com outras famílias.
— Sei o quanto dói e não quero que outras pessoas sintam essa dor. Infelizmente, isso aconteceu mas o desejo dessas pessoas também é o mesmo que o meu. Então lutamos por isso, porque acreditamos que é possível de acontecer.
Confira abaixo a lista dos locais e as formas de entrar em contato com a Pró-Vítimas.
Endereço: SIA trecho 8, lotes 170/180
Telefone: (61) 3905-1434
E-mail:provitima.sejusgdf@gmail.com
Horário de funcionamento: Das 8h30 às 18h
Núcleos do Pró-vítima
Sede: Estação Rodoferroviária, Ala Central, térreo, Brasília-DF – CEP: 70631-900.
Fones: (61) 2104-1934/2104-1953
Núcleo Paranoá: Qd. 5, Cj. 3, Área Especial D, Parque de Obras, Paranoá- DF.
Fones: (61) 3905-4720/3905-1481/3905-7193
Núcleo Plano Piloto: Estação 114 Sul do Metrô, subsolo, Brasília-DF.
Fones: (61) 2104-1191/2104-1195
Posto 6ª DP/Paranoá: Área Especial, quadra 33, lote 4, Paranoá, DF - CEP 71570-330.
Fone: (61) 3369-9135













