Prisão de Maduro e crise na Venezuela testam estratégia diplomática do Brasil com os EUA
Para especialistas, Brasil deve manter uma postura apaziguadora e cautelosa diante das ações do governo de Donald Trump
Brasília|Débora Sobreira, do R7, em Brasília*

A prisão do ditador Nicolás Maduro após ataque dos Estados Unidos em solo venezuelano trouxe desdobramentos que se estenderam para além do país andino. Detido em Nova York depois de passar por audiência nessa segunda-feira (5), Maduro negou todas as acusações que pesam sobre ele: narcoterrorismo e conspiração para exportação de cocaína para os Estados Unidos.
Em meio à crise na Venezuela, as nações latino-americanas buscam uma posição conjunta diante da interferência norte-americana tanto em território venezuelano quanto em outras regiões — na última segunda (5), o presidente dos EUA, Donald Trump ameaçou, por exemplo, o presidente colombiano Gustavo Petro.
O Brasil não enfrenta uma ameaça direta na atual circunstância, mas passa por desafios particulares ligados à sua posição na América Latina. Especialistas ouvidos pelo R7 apontam para um cenário volátil e inédito para o continente neste século.
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Vizinhança em alerta
“Qualquer escalada de tensão na Venezuela afeta diretamente o Brasil em temas como migração, pressão nas fronteiras, segurança na Amazônia e até estabilidade econômica regional”, afirma o internacionalista João Vitor Cândido.
Ele explica que o momento é de riscos e, ao mesmo tempo, de oportunidades para o governo brasileiro. Entre as ameaças, estão as pressões externas e internas em um cenário polarizado, junto ao agravamento da crise regional. Por outro lado, há a oportunidade de o país reforçar seu papel de agente de equilíbrio e de relevância na América Latina.
Cândido argumenta que o Brasil carrega uma responsabilidade maior do que a de outros países da região, devido à dimensão geográfica, à influência e à posição histórica. Assim, a atuação se traduz em liderar iniciativas diplomáticas, estimular negociações e construir uma posição regional coordenada a respeito da crise no país vizinho.
Desafio para o Brasil
O cientista político Leandro Gabiati lembra que, em 2025, o Brasil assumiu uma postura apaziguadora quando mobilizou forças e agiu de forma diplomática na ocasião em que Maduro ameaçou invadir a Guiana. Neste sentido, uma ação norte-americana, como a realizada nesta semana, põe em xeque também a pretensão brasileira de se colocar como uma liderança do continente.
O desafio do Brasil é de se posicionar de forma que não arrisque suas relações estratégicas nem com os EUA nem com aliados latino-americanos, ainda mais neste cenário em que países vizinhos temem a possibilidade de também sofrerem ingerência de Trump.
Para Gabiati, a ameaça enfrentada pelo continente ocorre principalmente devido à postura unilateralista dos Estados Unidos. Característica também observada pelo especialista em outros conflitos, como entre Rússia e Ucrânia e China e Taiwan. “Grandes potências militares tomando ações unilaterais sem qualquer tipo de negociação prévia e sem qualquer constrangimento em relação a violações do direito internacional”, ressalta.
Valor simbólico
Outro fator preocupante é a fragilidade de entidades internacionais, como a ONU (Organização das Nações Unidas), cujo posicionamento tem valor apenas simbólico, com pouco efeito prático para conter intervenções.
“Isso enfraquece regras que protegem países médios, como o Brasil, de pressões externas futuras. A longo prazo, o enfraquecimento dessas normas internacionais torna a soberania algo mais vulnerável, especialmente fora do campo militar, em áreas como economia e diplomacia”, avalia Cândido.
A internacionalista e professora da Universidade Federal de São Paulo Carolina Pedroso chama a atenção para a estratégia mais cautelosa do governo brasileiro. Em sua visão, o tom adotado até o momento pelo governo Lula — mais ponderado em comparação com outros mandatos, na visão da especialista — é motivado pelo novo cenário geopolítico.
Carolina Pedroso lembra uma conversa com o assessor especial da Presidência da República Celso Amorim, em 2023. Ela relata que, à ocasião, interpretou a estratégia do governo como um sinal do desejo de que o Brasil tivesse uma ‘política externa ativa e altiva’, de não se curvar diante de grandes potências.
“Me parece que eles [o governo] queriam reeditar as premissas que foram relativamente bem-sucedidas nos primeiros mandatos. Porém, as condições internacionais e domésticas são muito diferentes. Acredito que essa mudança de tom vem também da dificuldade de ajustar essas premissas a uma realidade que talvez não aceite mais um posicionamento tão assertivo do Brasil”, analisa.
A tendência dos discursos cautelosos
O cientista político Leandro Gabiati acrescenta que o tom sóbrio do governo brasileiro, observado em comunicado emitido horas após a invasão à Venezuela, indica uma tendência em todo o continente. Com exceção do presidente colombiano Gustavo Petro, que tem um histórico de embates com Donald Trump, e do chileno Gabriel Boric, em fim de mandato, os líderes latinos-americanos buscaram ponderar discursos e amenizar as críticas.
O comunicado publicado nas redes do governo brasileiro cita violações ao direto internacional, à soberania e à autodeterminação de povos, mas não faz menção nem a Trump nem aos EUA. “O Lula está, neste momento, resolvendo a questão das tarifas, que ainda não se resolveu completamente. Então tem que tomar certa cautela, justamente para defender os interesses brasileiros em outros âmbitos, como o econômico”, argumenta Gabiati.
Influência nas eleições brasileiras
Um outro ponto destacado pela internacionalista Carolina Pedroso são as eleições brasileiras. Neste contexto, a postura do presidente Lula diante da crise na Venezuela pode ser ainda mais cautelosa. A especialista chama a atenção para o fato de a Venezuela ter um efeito polarizador no Brasil.
“A Venezuela é um tema que polariza o debate público nacional, seja pelas diferentes interpretações que partidos políticos têm do que aconteceu e em relação à figura do Maduro, do Chávez e da Revolução Bolivariana, seja pelas opiniões diversificadas e muitas vezes radicalizadas veiculadas nas redes sociais”, observa.
Já Leandro Gabiati reforça a posição delicada do governo brasileiro no período eleitoral, principalmente devido ao histórico do presidente Lula com o chavismo. “O maior risco para o governo está no plano da retórica, de como a oposição poderá aproveitar esse momento para tentar desgastar o governo Lula”, conclui.
*Sob supervisão de Leonardo Meireles
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