Ranking da corrupção: saiba por que a Dinamarca lidera e o Brasil aparece em 107º
Brasil está estagnado no índice que mede confiança pública; especialistas mencionam impactos em investimentos estrangeiros
Brasília|Do R7, em Brasília
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Produzido pela Ri7a - a Inteligência Artificial do R7

O Brasil encerrou 2025 com pontuação crítica no IPC (Índice de Percepção da Corrupção), divulgado na semana passada pela organização Transparência Internacional. O país obteve 35 pontos, a segunda pior nota desde o início da série histórica atual, em 2012, e ficou na 107ª colocação entre 182 países avaliados.
No extremo oposto do ranking, a Dinamarca lidera, com 89 pontos, seguida de perto pela Finlândia, com 88.
Já entre os piores desempenhos aparecem Venezuela (10 pontos), Somália (9) e Sudão do Sul (9), países marcados por instabilidade política, conflitos e instituições frágeis.
Diferentemente do que muitos imaginam, o IPC não mede a corrupção “real”. O índice funciona como um termômetro da confiança: ele indica como especialistas, analistas e executivos percebem a capacidade de um país de governar com integridade, previsibilidade e regras claras.
Especialistas ouvidos pelo R7 explicam por que Dinamarca e Brasil aparecem tão distantes no ranking.
Para o cientista político Gabriel Amaral, o bom desempenho dinamarquês vai além da ideia de “virtude moral” e revela algo mais profundo: uma convergência histórica entre capacidade estatal, confiança social e estabilidade normativa.
“A Dinamarca construiu um Estado que opera com baixa fricção burocrática e alto grau de previsibilidade decisória. Nesse ambiente, a corrupção não apenas encontra menos oportunidades operacionais, como perde racionalidade econômica, porque os custos institucionais e reputacionais tornam os desvios pouco vantajosos”, analisa.
Segundo ele, o país não governa para subir em rankings internacionais.
“A Dinamarca melhora nos rankings como consequência de uma engrenagem institucional funcional. O indicador reflete o sistema, e não o contrário, o que preserva a consistência da avaliação ao longo do tempo.”
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A percepção da fragilidade
A posição brasileira no ranking, avalia Amaral, sinaliza fragilidade na confiança institucional projetada internacionalmente. “O índice não quantifica corrupção real, mas indica como o Estado é percebido em sua capacidade de governar com integridade e previsibilidade”, diz.
Essa percepção tem efeitos concretos: afeta decisões econômicas, negociações multilaterais e a imagem de estabilidade democrática do país.
“Rankings globais transformam números em símbolos políticos e moldam o debate público interno. O risco é o descrito pela Lei de Goodhart: quando o foco passa a ser melhorar o indicador, políticas podem priorizar ganhos reputacionais imediatos, e não transformações estruturais”, alerta o especialista.
Mecanismos importam
Para o internacionalista João Alfredo Nyegray, um dos grandes diferenciais da Dinamarca está nos mecanismos institucionais.
“Os processos decisórios são amplamente documentados e auditáveis. Há integração entre controles internos, tribunais de contas e Ministério Público”, analisa Nyegray.
Além disso, a governança regulatória é estável, com regras claras e pouca volatilidade normativa, o que reduz espaços para intermediações informais.
“O setor privado também opera sob padrões rigorosos de compliance e responsabilização. Não se trata de um ‘povo virtuoso’, mas de um ecossistema institucional que torna a corrupção estruturalmente desvantajosa”, resume.
O peso da reputação internacional
Com 35 pontos e na 107ª posição, o Brasil aparece abaixo da média global e da média das Américas. Na prática, isso indica que o setor público brasileiro é percebido como vulnerável a práticas corruptas e com fragilidades persistentes nos mecanismos de prevenção e responsabilização.
“Essa colocação sinaliza risco reputacional, encarece transações, aumenta a percepção de insegurança regulatória e pode afetar decisões de investimento estrangeiro”, afirma Nyegray. A variação mínima em relação ao ano anterior, acrescenta, sugere estagnação e ausência de reformas estruturais capazes de mudar essa percepção.
Para o especialista, o peso no ranking não vem apenas da existência de escândalos de corrupção, mas do padrão de resposta institucional. “Em países com forte responsabilização, escândalos são tratados com celeridade, transparência e critérios claros.”
No Brasil, porém, grandes casos costumam ser acompanhados por disputas narrativas, decisões contraditórias, recursos intermináveis e questionamentos sobre parcialidade.
“Para quem observa de fora, investidores, analistas de risco, organismos internacionais, o que importa é a consistência do sistema. Se investigações parecem politizadas ou decisões judiciais são revertidas por razões que a opinião pública não compreende, a percepção não é de amadurecimento institucional, mas de incerteza”, conclui Nyegray.
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