Depenado, Maverick que cruzou o Brasil é resgatado por grupo de fãs

Modelo da Ford atravessou todos os Estados brasileiros, foi para um museu e quase virou sucata; Entusiastas fizeram a restauração completa

Maverick histórico em fase final de restauração

Maverick histórico em fase final de restauração

Reprodução

Se é que é possível considerar um carro um herói nacional, este Ford Maverick modelo 1973 deveria estar nessa categoria. O “Maveco”, com motor seis cilindros, cruzou o país no evento chamado Primeiro Raid da Integração Nacional (veja mais abaixo), também no ano de 1973. O carrão enfrentou e venceu vários desafios pelas estradas brasileiras e retornou ileso de sua missão.

Mas depois disso a coisa complicou: ele foi para o Museu Paulista de Antiguidades Mecânicas, na cidade de Caçapava (SP), que ficou fechado por quase vinte anos, sem investimento. O resultado disso é que os veículos que estavam ali começaram a ser depenados e peças foram furtadas, o que deixou o Maverick 73 em estado de sucata.

O carro quase virou sucata

O carro quase virou sucata

Reprodução

A história é triste mesmo, porque, como você vê nas fotos, o carro virou quase que um ferro-velho sem valor. Acontece que a sorte virou quando Rodrigo Lombardi, dono de uma oficina e entusiasta do modelo da Ford, decidiu resgatar o veículo. Ele entrou em acordo com a prefeitura de Caçapava para fazer o trabalho de restauro junto com outros fãs. Ao todo, foram três anos de um esforço que termina neste sábado (17) com a entrega do Maverick ao Museu Paulista de Antiguidades Mecânicas, que foi reativado em 2017.

TRABALHO DURO
“Até as rodas sumiram, precisamos de um par emprestado para fazermos a remoção”, conta Lombardi, que levou o Maverick para São Paulo em 2017. Com a ajuda de outros fãs do modelo, Rodrigo foi reconstruindo e restaurando o modelo da Ford. “O projeto é baseado inteiramente em doações de peças e colaborações dos apaixonados pelo Maverick”.

Como o carro estava com praticamente todas as peças e partes importantes faltando, o trabalho para trazê-lo de volta à vida foi complicado. “Sem dúvida, a maior dificuldade é encontrar todas as peças. Elas estão cada vez mais raras e caras”, diz Lombardi. Assim, outros fãs e amigos foram cedendo peças, sendo que muitas delas também precisaram de reparos para se adequar ao projeto.

Quem tem carro antigo, de qualquer marca e modelo, sabe bem a trabalheira que é mantê-lo. Sempre tem uma coisinha para fazer na lataria, no motor, no estofamento, o que muitas vezes exige um bom investimento em dinheiro. Imagine com um carro como este Maverick. Lombardi revela que uma restauração, como esta que foi feita, não sairia por menos de R$ 60 mil. “Mas nenhum dos envolvidos ganhou dinheiro, pelo contrário, dedicaram tempo, espaço, materiais e esforço próprios”. Rodrigo também faz questão de deixar claro que a prefeitura de Caçapava também não investiu dinheiro público neste projeto.

Lombardi e Giuliano trabalhando no Maverick

Lombardi e Giuliano trabalhando no Maverick

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Giuliano Piro é um dos fãs que ajudaram Lombardi na missão de resgatar o carro. Especialista em motores de carros clássicos, Tio Giuli, como é conhecido, foi o responsável por fazer o motor de seis cilindros voltar à vida. “Quando pegamos o carro, ele veio com o motor no lugar, mas faltando todos os acessórios: radiador, alternador, distribuidor. Faltava correia, carburador... o resto o cara roubou tudo”.

Giuli teve de abrir o motor, que estava travado por conta do tempo em que ficou parado. O objetivo era refazer o motor usando o máximo possível de peças originais. Com todos os problemas identificados, Giuli retrabalhou as várias partes que compõem o motor e também teve de acrescentar algumas novas. “Aí eu remontei o motor com toda a originalidade. Ele ainda é standard de fábrica, nunca foi retificado”.

O especialista em motores conta que doou para o projeto peças faltantes como distribuidor, carburador, alternador e correia. “A gente colocou ele [o motor] para funcionar de novo. Não precisamos mexer no câmbio, que estava em estado de zero quilômetro e fizemos os freios”. Giuli revela que seu investimento neste carro, se fosse cobrado, teria custado algo em torno de R$ 10 mil.

No fim das contas, o Maverick 1973 renasceu. Foi praticamente refeito do zero, com funilaria, pintura, motor, freios, suspensão, estofamento e o que mais foi necessário. Um baita resgate da memória do automobilismo brasileiro.

VOLTA PARA CASA
Depois de toda essa trabalheira de três anos em cima do projeto, o Maverick 1973 volta neste sábado (17) para a cidade de Caçapava, que fica a 121 quilômetros da capital paulista.

Mas ainda não é dessa vez que o carro vai colocar as rodas na estrada. Ele já foi testado nas ruas da Freguesia do Ó, bairro paulistano onde fica a oficina de Giuli, e funciona bem, mas o retorno será em cima de uma carreta.

Quase pronto

Quase pronto

Reprodução

A questão é que ele não pode rodar, uma vez que sua documentação não está em dia. O carro ainda tem as antigas placas de identificação amarelas, que passaram a ser substituídas pelas atuais cinzas nos anos 90. Fora isso, ainda restam alguns detalhes para finalizar totalmente a montagem, como frisos, forros e coisas do tipo.

A ida para Caçapava acontecerá na manhã deste sábado e partirá do Estádio do Pacaembu. O carro será “escoltado” por dezenas de outros Mavericks e veículos antigos, que é para fazer a coisa com estilo.

RAID DA INTEGRAÇÃO NACIONAL
Na década de 70 havia essa ideia de unir todo o país e foi meio que nesse contexto que a Ford do Brasil, junto com a Embratur e o DNER (Departamento Nacional de Estradas e Rodagem), lançaram o Primeiro Raid de Integração Nacional.

Belina, Maverick e Corcel prontos para iniciar o Raid pelo Brasil, em 1973

Belina, Maverick e Corcel prontos para iniciar o Raid pelo Brasil, em 1973

Ford Brasil

Assim, o evento visava, de maneira simbólica, promover a integração do país através de suas estradas. Juntou-se aí o Maverick (este da reportagem), um Corcel e uma Belina, todos modelos fabricados pela Ford. Estes três veículos rodaram todos os Estados do Brasil partindo do Rio Grande do Sul. Passaram por todos os Estados e, após 23 dias e 20 mil quilômetros rodados, chegaram em Brasília. A aventura começou em 8 de outubro e terminou no dia 31 do mesmo mês.

Claro que um dos objetivos do Raid era a Ford mostrar a resistência de seus veículos e dar aquela divulgada. De qualquer maneira, foi uma boa prova para os carros, que conseguiram sobreviver à empreitada. O Maverick passou maus bocados nas décadas seguintes, mas agora está de volta à ativa.