Cidades Acolhimento, chás e lenços: vítimas da Kiss relatam convívio em tenda

Acolhimento, chás e lenços: vítimas da Kiss relatam convívio em tenda

Espaço montado ao lado do Foro Central de Porto Alegre ajudou familiares e sobreviventes a enfrentar tensão em tribunal do júri

  • Cidades | Fabíola Perez, do R7, em Porto Alegre (RS)

Espaço com doações de alimentos e atendimentos psicológicos às vítimas do incêndio

Espaço com doações de alimentos e atendimentos psicológicos às vítimas do incêndio

Arquivo pessoal

Sobrevivente do incêndio na boate Kiss, em Santa Maria, a estudante de direito Amanda Knackfuss, de 25 anos, recorria ao atendimento na Tenda do Cuidado, como foi chamado o espaço montado pela Secretaria de Desenvolvimento Social da Prefeitura de Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, para dar apoio psicológico às vítimas da tragédia. "Aqui eu consigo respirar", diz.

Na madrugada da tragédia que deixou 242 mortos e 636 vítimas, a jovem conseguiu deixar a boate graças à ajuda de um amigo que a carregou para fora do local. "Se eu estivesse sozinha lá, eu poderia ter sido pisoteada. Foi bem difícil, um momento de horror." Para ela, o convívio na tenda durante os dias de tensão do júri a ajudou a compreender a luta e o luto das outras vítimas da tragédia. "A gente conseguia colocar nossos sentimentos para fora", afirma.

O espaço de sete a oito metros quadrados montado em um terreno ao lado do prédio do Foro Central I, em Porto Alegre, onde ocorreu o tribunal do júri que condenou os quatro réus por homicídio doloso com penas que vão de 18 a 22 anos e seis meses de prisão, foi equipado com cozinha, banheiros, sofás para descanso, alimentação, água, cadeiras localizadas embaixo de árvores e até rodas de chimarrão.

"Reviver tudo que aconteceu na noite do dia 27 e ver as lembranças foi muito difícil. Tinha muita coisa guardada e acabamos colocando para fora", diz ela. "Pude conhecer a história de outras pessoas, perceber toda a dor pelos que se foram e a sensação de impunidade. Nesses dias, aprendi coisas que em anos não aprenderia. Houve muita solidariedade, empatia e resiliência."

Montada todos os dias antes das 8h30, a tenda recebia os familiares de vítimas e sobreviventes da tragédia para tomar café da manhã, almoçar, jantar e descansar. Além disso, a equipe de enfermeiros e psicólogos dividida nos turnos de manhã, tarde e noite estava preparada para receber pessoas que precisassem ser tranquilizadas a qualquer momento, após um pico de estresse ou crise de ansiedade.

Cartas de apoio, flores e chás também fizeram parte do espaço de acolhimento. "Assistia um pouco do júri no plenário e quando eu estava muito ansiosa, ia para a tenda. Os vídeos eu não consegui assistir, justamente pelo fato de não ter forças para reviver aquele dia."

Pude conhecer a história de outras pessoas, a dor pelos que se foram e a sensação de impunidade. Nesses dias, aprendi coisas que em anos não aprenderia

Amanda Knackfuss, sobrevivente

Amanda se refere a um dos momentos de maior tensão nos dez dias de julgamento. Tanto o Ministério Público quanto os advogados de defesa dos réus exibiram vídeos, fotos e áudios do momento do incêndio repetidas vezes, desencadeando crises de choro e nervosismo na plateia. 

Ressignificar a dor

Ao lado das vítimas e sobreviventes desde o dia subsequente à tragédia, a enfermeira Patrícia Curti Bueno coordenou o serviço Acolhe Saúde em Santa Maria e trabalhou no atendimento psicossocial ao longo dos dez dias em que ocorreu o tribunal do júri. Segundo ela, o momento do julgamento esteve entre os três que mais deflagraram reações em sobreviventes e familiares.

"A fase mais aguda foi no momento da perda e no sétimo dia. Depois, tivemos um pico de quatro meses quando os réus foram soltos. Isso gerou muita revolta neles e, por fim, o julgamento", afirma Patrícia. "Mas a resiliência deles nos ensina demais, eles criaram um laço muito forte de união."

Eles precisam chorar, colocar para fora esse sentimento, precisam ter alguém ao lado, e o intuito é estar ao lado deles em qualquer momento agudo de desespero.

Patrícia Bueno, enfermeira

Com isso, em setembro do ano passado, quando as famílias foram informadas de que o júri ocorreria em Porto Alegre e não em Santa Maria, foi feito um pedido pelo Ministério Público e pela Associação dos Familiares de Vítimas e Sobreviventes da Tragédia de Santa Maria de atendimento psicossocial às famílias durante o tribunal do júri. "Temos esse cuidado em todos os eventos relacionados ao dia 27, então, pedimos um espaço dentro do júri", diz Patrícia. "Eles precisam chorar, colocar para fora esse sentimento, precisam ter alguém ao lado, e o intuito é estar ao lado deles em qualquer momento agudo de desespero."

Familiares e vítimas receberam a visita do ex-jogador Dunga na tenda

Familiares e vítimas receberam a visita do ex-jogador Dunga na tenda

Arquivo pessoal

Além da tenda, foi montada uma sala de apoio no prédio do Foro Central para o atendimento a familiares e sobreviventes. “Quando eles diziam que não aguentavam mais ouvir os depoimentos iam para a sala. Lá não havia câmera, computador nem televisão ligados. Eram lugares em que eles recebiam abraços e aconchego”, afirma a enfermeira. Os espaços foram fundamentais para essas pessoas, explica Patrícia, uma vez que, no tribunal, qualquer manifestação poderia levar à anulação do julgamento.

No plenário, entre os momentos de maior tensão, estavam as horas a fio de depoimentos de sobreviventes, questionados à exaustão sobre detalhes do incêndio. “Eles pensavam que os filhos poderiam ter vivido a mesma coisa. São quase nove anos tentando entender o que houve, e durante as falas das vítimas os sentimentos são aflorados”, afirma Patrícia. Ao mesmo tempo, a enfermeira ressalta que se trata de reações esperadas. "Eles precisam viver tudo isso. Foram quase nove anos de luta."

Eles podiam se abraçar, gritar, chorar. Vi muitos pais chorando, outros que se permitiram dormir ou descansar sem que ninguém atrapalhasse. Foram pequenas coisas que eles valorizavam no espaço

Patrícia Bueno, enfermeira

A tenda encerrava os atendimentos somente quando a última pessoa deixava o lugar. Os chás, bolos caseiros e lenços de papel repousavam sobre as mesas organizadas até mesmo na quinta-feira (9), dia em que o júri se estendeu até as 23h50. O convívio com outras vítimas ajudou Amanda a encerrar uma etapa em sua vida.

"Senti um alívio com isso, a justiça foi feita. Não foi uma fatalidade, eles tiveram responsabilidade. Aquele ciclo não se findava, parecia que nada tinha sido feito, ficamos com o sentimento engasgado. Só quem perdeu um filho ou quem estava lá sabe o tamanho dessa dor."

A tensão do plenário

A enfermeira Priscila Araújo Niendicker, que também acompanhou os familiares durante o julgamento, lembra que somente no primeiro dia 11 pessoas foram atendidas pelas equipes de saúde. "São relatos que desencadeiam gatilhos em razão dos traumas vividos."

Segundo ela, durante o julgamento, foram atendidas, em média, cinco pessoas por dia. “O plenário é um lugar muito pesado, as vítimas e testemunhas são interrogadas de uma maneira muito incisiva. Isso faz com que elas cheguem emocionadas, chorosas e ofegantes."

Familiares deram as mãos em silêncio para se manifestar no plenário do júri

Familiares deram as mãos em silêncio para se manifestar no plenário do júri

Fabíola Perez/R7 09.12.2021

Após a condenação dos réus, a enfermeira diz que é preciso ressignificar. "Eles precisam passar dessa fase de luta pela Justiça, que de certa forma foi feita, e viver o luto e a saudade." Nesse sentido, a tenda proporcionou aos pais momentos que os fizessem escapar da rigidez e indiferença dos ambientes jurídicos.

"Lá eles podiam se abraçar, gritar, chorar. Vi muitos pais chorando, outros que se permitiram dormir ou descansar sem que ninguém atrapalhasse. Foram pequenas coisas que eles valorizavam no espaço", lembra Patrícia. "Simbolizou o alívio de estar num espaço protegido."

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