Cidades Acusado de manter site de ódio, universitário garante que é vítima da gangue que faz apologia ao estupro

Acusado de manter site de ódio, universitário garante que é vítima da gangue que faz apologia ao estupro

Cauê Felchar, de 22 anos, diz que jamais teve site e foi alvo de crime virtual

Acusado de manter site de ódio, Cauê Flechar garante que é vítima da gangue que faz apologia ao estupro

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Especialista em regurgitar ódio na Internet, a gangue que faz apologia ao estupro (entre outros crimes) também é uma máquina de moer reputações. Faz parte da estratégia do grupo, para tumultuar as investigações e ocultar os responsáveis, criar sites com conteúdo impróprio e atribuir a autoria a algum desafeto. Hackers experientes, invadem perfis, furtam domínios e espalham o terror. 

Cauê Felchar, apontado como autor de um site de ódio para onde os links do blog do Tio Astolfo foram direcionados, garante ser uma das vitimas da técnica do bando. O site que leva seu nome e traz, entre outras barbaridades, um texto que celebra a morte dos jovens na boate Kiss, seria resultado de um crime virtual. 

Felchar jura que nunca teve site algum. Em conversa com o R7, o jovem de 22 anos contou que entrou na mira da quadrilha por sua atividade como administrador de um chan, o 55chan.

Esses fóruns anônimos são uma versão das antigas salas de bate-papo, mas o anonimato, muitas vezes, torna os espaços uma terra de ninguém, com discursos de ódio e imagens de pedofilia. No chan de Felchar, no entanto, esses caras nunca foram bem-vindos.

— Essa pessoa me odeia muito por algum motivo. Eu acho que é porque eu não deixava ele postar os textos dele, até porque ele se identificava. Acho que guardou esse ódio, e no dia 7 de janeiro descobriram que eu era o Cauê. Tentaram roubar meu chan, mas resolveram ferrar a minha vida de outra forma: criaram um site com meu nome, e com os textos de ódio deles. 

Mas o que Felchar foi fazer neste lamaçal de chans? Ele se defende, diz que participa desde 2007, quando os chans eram incipientes no Brasil. 

— Tem o IP da máquina que postou, mas há uma sensação de anonimato. A proposta é não ter o ego no meio, só discutir as ideias. Em fóruns específicos, tem gente que discute anime, computação, mas 99% ficam em discussões aleatórias. Nunca dá pra saber o que vai ser debatido. Eu já vi 400 posts sobre pias. Juro que é divertido.

A coisa perde a graça quando as pessoas aproveitam o anonimato para promover discursos de ódio, incitar o estupro, divulgar imagens de pedofillia e postar mensagens racistas. E é nesses grupos que os chaners combinam suas ações, e decidem em cima de quem vão jogar a bomba da vez. Até o R7 está na mira, como mostra o print de uma conversa, em que ameaçam fazer conteúdos impróprios e atribuir a um jornalista do Portal. 

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Vânia Felchar, mãe de Cauê, está convencida de que o filho caiu na lista negra do grupo, e relata ameaças a ela e à sua família, com invasão de perfis e montagens de fotos. 

— Se meu filho fosse um cara errado, eu não estaria pagando este mico de defendê-lo. Mas a conduta na nossa família é a verdade. Desde o dia 8 de janeiro estamos tentando tirar esse site do ar, mas é preciso uma ordem judicial. O que me choca nisso tudo é exposição do nome do Cauê, sendo que que ele é uma vítima dessa quadrilha. Essas pessoas precisam ser presas para sempre. 

Felchar, que garante que só tinha o chan, saiu das redes sociais e tenta tirar do ar o conteúdo que segue em seu nome.  — Para tirar um wordpress do ar é preciso uma ordem judicial. Eu fui à delegacia no dia seguinte, achei até que eles fossem tirar do ar rapidamente, mas continua lá.
 

Petição pede abertura de investigação criminal

Petição pede abertura de investigação criminal

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A família contratou advogados especializados em crimes virtuais para buscar os culpados. O dr. Eduardo Grassi Gogola enviou  petição ao Ministério Público, que foi encaminhada à Polícia Federal, agora à frente das investigações, mas não é tão simples.

— No chan, eles passaram a apagar o conteúdo. É possível rastrear o IP da máquina até o servidor, mas só o servidor pode revelar o proprietário. Muitas vezes, o endereço está registrado fora do País, e esbarra na legislação local e na existência de uma convenção de direito internacional.

De acordo com apuração da Gerência de Combate a Crimes de Alta Tecnologia (Gecat), o site do Tio Astolfo, por exemplo, está hospedado na cidade de Kuala Lumpur, na Malásia. A página já está fora do ar, mas o domínio (registro) está ativo e por conta disso o link está sendo redirecionando para outros websites, entre eles, o de Cauê.   

O advogado também representa Emerson Eduardo Rodrigues, que alega estar sendo citado indevidamente como autor de conteúdos de ódio. Emerson tem um passado que condena. Foi preso em 2012 na Operação Intolerância da Polícia Federal, e teve sua pena reduzida ao colaborar com as investigações. Com isso, teria entrado para a lista de desafetos de seus antigos comparsas. 

— O Emerson se afastou da Internet depois da cadeia, mas voltou aos chans ao saber que seu nome estava sendo utilizado indevidamente. Até a foto dele (segurando o livro de Hitler), que aparece no site que viralizou semana passada, é uma montagem. Queremos descobrir os reais autores e puni-los. 

Emerson, que já foi preso por discursos de ódio, garante que é montagem sua foto com o livro de Hitler

Emerson, que já foi preso por discursos de ódio, garante que é montagem sua foto com o livro de Hitler

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Até Robson Otto Aguiar, que prestou esclarecimentos na Delegacia Municipal de Várzea Grande, onde foi ouvido pelos delegados Eduardo Rizzoto de Carvalho e Sylvio do Vale, também garante que não é o autor do blog que viralizou na semana passada.

Em vídeos, também se diz mais uma vitima da estratégia da gangue, de criar os conteúdos e culpar os desafetos. Otto, entretanto, é autor do blog expressotemdetudo.net, em que publica conteúdo pretensamente cômico, e mantém uma página que leva seu nome, em que critica o movimento feminista, LGBT e pensamentos de esquerda. Em sua defesa, alega direito à "liberdade de expressão".