Após 18 anos, assassinato de jovem na periferia de São Paulo ainda não tem culpados
Mãe diz ter sido ameaçada quando investigava participação de policiais inocentados no tribunal
Cidades|Ana Cláudia Barros, do R7

Nas folhas de um caderno velho, a aposentada Valquíria Marques Azevedo dos Santos, 66 anos, guarda, com zelo de mãe, as informações que conseguiu investigar sobre o assassinato do filho Wagner Marques dos Santos. Com 15 anos recém-completados, o adolescente foi morto com um tiro de espingarda calibre 12 no coração. O ferimento em um dos pulsos indica que ele tentou se defender. Era sexta-feira, 6 de dezembro de 1996.
Apenas 15 anos após o crime, os três policiais militares acusados do homicídio se sentaram no banco dos réus. O trio foi absolvido por insuficiência de provas e, atualmente, o processo está arquivado e não cabe mais recurso, segundo o TJ-SP (Tribunal de Justiça de São Paulo).
Valquíria conta que o filho foi baleado diante de várias pessoas quando tomava refrigerante sentado com colegas, próximo a uma quadra nas imediações de uma favela no Jardim Aeroporto, zona sul de São Paulo — para o Ministério Público, a dinâmica foi outra. Wagner teria corrido, tropeçado e atingido quando estava caído no chão.
Horas antes, segundo relato da aposentada, um dos amigos de Wagner, morador da comunidade, levava as irmãs para a escola, quando foi abordado por policiais militares.
— Eles esbarraram no garoto e bateram nele. Na frente das irmãs do menino. E prometeram: “Fica esperto, porque à noite a gente volta para te matar”.
Naquele dia, Wagner não teve aula e foi jogar futebol com os colegas que moravam naquela favela.
— Um menino viu os policiais chegarem primeiro e gritou: “Polícia! E vem atirando”. Atingiram também este garoto. Ele sobreviveu.
De acordo com Valquíria, por duas vezes, o julgamento foi adiado, porque as testemunhas de acusação deixaram de comparecer ao fórum na data marcada. Pelo que apurou, foram silenciadas por supostas ameaças.
Apenas uma testemunha confirmou a versão no plenário, diz a aposentada, mas recuou na hora de identificar os acusados. Mais de uma década depois, disse que já não reconhecia mais os réus.
Na opinião da aposentada, os problemas começaram já na investigação policial. Desesperada por justiça, ela decidiu apurar o caso paralelamente e admite que se sentia invisível quando as informações levantadas por ela eram ignoradas. Conta ter pedido ajuda à Anistia Internacional e escrito para políticos. Na época, o caso chegou a ganhar espaço na imprensa, mas sem grande repercussão.
— Fui ameaçada. As ameaças vinham por telefone. Paravam em frente à minha casa. Mas eu não tinha medo. Eu passei por tanta coisa. Ligavam para mim, me paravam na rua e me seguiam quando eu ia ao médico, porque cheguei a ficar internada. Eu tomava muito remédio para dormir, para dar uma esquecida. Era eu contra a polícia [...] E sabe que lutar contra o governo, contra o Estado e contra o policial é muito difícil e muito perigoso.
Por várias vezes, foi ao fórum para folhear o processo do caso. Em lágrimas, ela se recorda de quando via as imagens do filho morto. Enquanto fala, pega uma foto de Wagner e a acaricia.
— Eu ia lá ler, para saber tudo o que está no processo. Primeira coisa que eu fazia era ir onde estavam as fotos do Wagner, mesmo sem vida. Para senti-lo. Vejo a foto e sei tudo. Até a fitinha amarelinha que ele tinha amarrada no pulso [...] Fitinha, cabelinho baixo, bem ajeitadinho. Ia lá, fazia um carinho, olhava. “Tchau, filho. Mamãe volta”. Nunca vou deixar de olhar meu filho porque ele está sem vida. Essas imagens precisam estar comigo.
Lembranças no varal
Quase 18 anos após o crime, Valquíria ainda não superou a perda. Por um longo período, viveu em depressão e precisou passar por tratamento psiquiátrico.
Devastada pela ausência de Wagner, ela usava as roupas do adolescente, incluindo as cuecas, só para ver as peças penduradas no varal e não admitir a partida do garoto. Emocionada, ela conta ao R7 que fez tudo isso “porque era uma maneira de manter o filho presente”.
— Aquelas roupas precisavam estar no varal. As roupas precisavam ser passadas. Então, nada como eu estar com a roupa dele, cortar a unha, cortar o cabelo baixinho. Representá-lo dentro de casa. Eu não podia amanhecer e dar um Nescau só para a Elaine [filha mais nova]. Usar a roupa era o mínimo que eu podia fazer para meu filho continuar presente dentro da minha casa.
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A aposentada passou também a comprar presentes para o filho morto.
— Eu não entrava em loja para comprar nada, porque não tinha o direito de comprar para um [filho] e não comprar para outro. Depois, comecei a comprar para ele também.
Embora seja corintiana apaixonada, ela guarda com orgulho as camisas do Palmeiras que pertenceram a Wagner.
— As camisetas do Palmeiras que ele adorava tanto, eu dormia com elas. Era o time do coração dele.
Como forma de driblar a falta, a aposentada preserva ainda diversos objetos do filho, como jogo de botão, cadernos e trabalho escolares. Em uma pasta, reúne informações sobre o caso e recordações de Wagner.
— É um modo de eu lembrar. Pena que o dia em que eu me for, apaga. Ninguém vai prestar a atenção nisso.
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