Belém antes e depois da COP30: o que a conferência entregou, e o que ficou faltando
Evento da ONU mudou a cidade de Belém, que teve pouco mais de um ano para receber delegações de 195 países
Cidades|Bruna Pauxis, do R7, em Brasília

Sediar a maior conferência climática do mundo colocou a cidade de Belém (PA) no centro do debate global e acelerou mudanças estruturais cobradas há décadas pela população. Ao mesmo tempo em que deixou obras, visibilidade internacional e avanços políticos inéditos, a COP30 expôs falhas de organização, impasses nas negociações e frustrações com a ausência de compromissos concretos para o fim dos combustíveis fósseis.
Ao longo de quase duas semanas, em novembro do ano passado, a conferência da ONU (Organização das Nações Unidas) deixou como saldo positivo a aprovação do Pacote de Belém, o protagonismo da Amazônia e a ampliação da participação indígena nas negociações, além de um legado de obras que alterou a infraestrutura urbana da capital paraense.
Por outro lado, a COP30 enfrentou episódios de insegurança e foi criticada pela ausência de grandes emissores nas discussões e de um roteiro prático para a transição energética.
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Belém viu, em aproximadamente um ano, sua estrutura passar por mudanças cobradas há décadas pela população. E o mundo, por pouco mais de uma semana, observou ao vivo a tão falada Amazônia, para além do senso comum.
‘Japoneses no mercado, alemães na feira’
“Eu nunca vi tanta gente diferente na vida. Eram japoneses nos mercados, alemães na feira. Nunca imaginei que a cidade pudesse sediar um evento assim, com pessoas do mundo todo”, afirmou Maria (nome fictício), aposentada, de 71 anos.
Ela, que viveu a vida inteira em Belém, disse que a “cara” da capital paraense mudou. “Acho que tem Belém antes e depois da COP. Tanto nas obras que ficaram prontas quanto na experiência de quem mora aqui”, observou.
A COP30 registrou mais de 42 mil participantes de 195 países, segundo o Ministério do Turismo. Para atender essa demanda, a cidade teve de adaptar motéis, mobilizar navios para acomodações e realizar 28 obras públicas em menos de dois anos.
Mesmo com as modernizações, a natureza seguiu seu curso sem tentar “impressionar os gringos”. Europeus, acostumados com a neve, vivenciaram temperaturas de até 32°C e chuvas torrenciais com todas as dificuldades de um clima equatorial úmido em meio a uma crise climática acentuada.
Natureza no centro do debate
“Delegados do mundo inteiro vivenciaram a Amazônia, sentiram o calor, viram o rio, conversaram com lideranças locais”, afirmou a presidência da COP30, acrescentando que 5.000 indígenas participaram de debates no evento e foram ouvidos por lideranças globais.
“A conferência recolocou a natureza no centro do debate climático de forma estratégica, conectando biodiversidade, economia, florestas, justiça social e clima”, destacou.
Pacote Belém
Ao final da COP, foi aprovado, por 195 países, o Pacote de Belém. O acordo tem como pontos centrais esforços para o financiamento climático até 2035; propostas para o fim do uso de petróleo, gás e carvão; conservação da floresta amazônica e proteção dos povos indígenas, além da inclusão de discussões sobre racismo ambiental - uma iniciativa inédita na história das conferências.

“Na dimensão política, o Brasil liderou um debate global sem precedentes sobre o futuro dos combustíveis fósseis. Apesar da ausência de consenso, com dezenas de países apoiando uma linguagem explícita e dezenas se opondo a ela, a presidência brasileira anunciou, por iniciativa própria, processos para elaboração de um mapa do caminho para a transição dos combustíveis fósseis de maneira justa, ordenada e equitativa, e um mapa do caminho para interromper e reverter o desmatamento”, defendeu a presidência da conferência.
‘Revolução’
Desde o anúncio, em 2023, de que a COP30 ocorreria em Belém, os governos federal e local iniciaram uma verdadeira corrida para modernizar a cidade. Ao todo, 28 obras foram entregues até o evento, desde a criação de estruturas para sediar debates até mecanismos de tratamento de esgoto.
Para o diretor de Infraestrutura da Secretaria Extraordinária para a COP30 da Casa Civil, Olmo Xavier, a conferência fez uma verdadeira “revolução” em Belém. “Em grandes eventos assim, não é tão comum que a população fique com os legados como ficou aqui no Pará”, ressaltou Xavier.
Para ele, os destaques são as melhorias na mobilidade pública e as obras nas redes de saneamento. “Belém tinha uma rede de ciclovias desconectada, e é uma cidade bem plana, propícia a esse meio de transporte. A COP, além de construir muitas ciclovias, fez obras para conectar as que já existiam”, pontuou o diretor.
“Belém é muito carente de infraestrutura urbana. Essas obras entregues puderam revitalizar 14 canais. A cidade toda tem mais de 60, mas esses 14 já beneficiaram mais de 500 pessoas, que muitas vezes, quando chovia, andavam nas ruas com água suja na altura dos joelhos”, relatou.
Para Olmo, um sinal de que a população recebeu de forma positiva as mudanças na infraestrutura é o fato de os espaços construídos para o evento serem apropriados e usados pelas pessoas.
“Ao redor do parque da cidade, na Doca, de noite tem famílias caminhando, idosos se exercitando, crianças brincando. Esses espaços ficam para a população e passam a fazer parte do lazer da cidade”, enfatizou.
Um legado ‘invisível’
Além dos benefícios que deixou para a cidade, e dos planos estabelecidos, a COP30 teve um impacto “invisível”, que não pode ser mensurado em números: o de consciência social.
“O mundo passou a enxergar uma Amazônia diversa, com governos organizados, capacidades técnicas, ciência, povos e comunidades com soluções reais e uma agenda propositiva. A narrativa mudou: a Amazônia não é apenas um território a ser protegido, mas um espaço de inovação, de desenvolvimento sustentável e de liderança climática”, salientou o secretário-executivo do Consórcio da Interestadual da Amazônia Legal, Marcello Brito.
Para ele, trazer o mundo à região amazônica favoreceu de forma essencial as discussões desenvolvidas ao longo dos dias em Belém. “A presença na região permitiu que lideranças globais, negociadores e a sociedade civil vivenciassem de perto o que está em jogo. Isso qualificou o debate, deu mais densidade política às negociações e reforçou a centralidade da Amazônia nas decisões globais sobre clima”, observou.

Além da visão de fora sobre o território, a conferência também fez diferença no senso de pertencimento da população paraense, como conta Gilmar Pereira da Silva, reitor da UFPA (Universidade Federal do Pará), instituição que participou ativamente do evento.
“A comunidade amazônica passou a se sentir mais dona do seu processo e a entender a Amazônia em uma dimensão muito mais complexa”, constatou o reitor.
“Essa compreensão nos uniu enquanto cidadãos da Amazônia, enquanto cidadãos do Pará e enquanto cidadãos e cidadãs de Belém do Pará. Eu acho que há um sentimento de afeto, de cuidado, de atenção uns com os outros, que aguçou fortemente a partir desse momento da COP”, completou.
As falhas da COP30
Embora a conferência tenha sido positiva para as discussões globais sobre o clima, nem tudo ocorreu exatamente como o planejado. Um dos imprevistos foi o incêndio no início da tarde do dia 20 de novembro, na área dos pavilhões de países. Embora as chamas tenham sido contidas dentro de alguns minutos, 13 pessoas receberam atendimento no local devido à fumaça.
Outras falhas estruturais apontadas tiveram relação com a segurança no local. O evento foi marcado por protestos. Em um deles, realizado no dia 12 de novembro, segundo dia da conferência, indígenas Munduruku chegaram a entrar na Zona Azul, área restrita a delegações, chefes de Estado, observadores e imprensa credenciada.
Mapa do caminho
Sobre as discussões no evento, o especialista em Financiamento Climático no Instituto E+ Transição Energética, João Marcelo Abbud, aponta que, no texto final da COP, faltou um ponto fundamental: o “roadmap”, ou seja, o mapa de ações para combater o uso de combustíveis fósseis.
“Esse ponto, em específico, é uma grande perda no debate, principalmente considerando ações concretas e datas, sobretudo em relação a países que dependem fortemente desse tipo de combustíveis para produção de energia”, aponta.
Ainda segundo Abbud, a ausência das delegações dos EUA e da China na conferência foi um fator que pesou na velocidade do avanço das discussões. “Os dois países são os maiores emissores do planeta. A China já tem conseguido diminuir o custo de produção de energia limpa, solar e eólica. O país domina o refino de minerais críticos, essenciais para as tecnologias de transição energética”, explica.
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