Caso de garoto desaparecido após abordagem de policiais em Goiânia faz oito anos
Mãe do rapaz lamenta a falta de punição a policiais que chegaram a ser acusados do crime
Cidades|Da Agência Brasil

Informações desencontradas, expectativas frustradas, ameaças de morte, o contato com a burocracia e a “falta de sensibilidade” do Estado levaram a dona de casa Maria das Graças Soares a acreditar que ninguém será punido pelo desaparecimento do filho, Murilo Soares. Nesta segunda-feira (22), dia em que o desaparecimento do adolescente completa oito anos, Maria das Graças declarou à Agência Brasil que o que a sustenta é o desejo de localizar o corpo do filho e enterrá-lo dignamente. “Acabaram com a minha vida”, disse.
Murilo é uma das 39 pessoas que desapareceram na região metropolitana de Goiânia, nos últimos anos, após serem abordadas por policiais. O adolescente tinha 12 anos quando, no dia 22 de abril de 2005, policiais do grupo Rotam (Rondas Ostensivas Táticas Metropolitanas) pararam o carro dirigido pelo servente Paulo Sérgio Pereira Rodrigues, 21 anos, um conhecido da família do garoto.
A pedido do próprio pai, que tinha que trabalhar e — na época, já estava separado de Maria das Graças — Murilo pegou uma carona com Paulo para voltar para a casa da mãe, com quem o garoto vivia. No caminho, o carro foi parado por policiais da Rotam. Várias pessoas testemunharam o momento em que os policiais revistaram o motorista enquanto o garoto permanecia em pé, ao lado do veículo, e depois levados pelos policiais.
Foi a última vez que Murilo e Paulo foram vistos. O carro foi encontrado no dia seguinte, carbonizado e sem a aparelhagem de som e as rodas. Os corpos dos dois ocupantes, no entanto, jamais foram localizados. Segundo Maria das Graças, Paulo tinha antecedentes criminais.
Oito policiais foram acusados de assassinato e ocultação de cadáver. Seis deles chegaram a ser temporariamente detidos. A Justiça de Goiás absolveu Allan Pereira Cardoso, Neill Gomes da Rocha, Anderson Amador de Jesus, Wellington da Costa Cunha, Cleiton Rodrigues da Silva, Fernando Gabriel Pinto, Thiago Prudente Escrivani e Marcello Alessandro Capinam Macedo por falta de provas materiais, já que os corpos nunca foram encontrados.
Citado em outros crimes, o cabo Capinam Macedo foi morto a tiros em março do ano passado. O crime ocorreu em plena luz do dia, em uma avenida movimentada do Setor Cidade Jardim, em Goiânia. Os criminosos dispararam ao menos 12 vezes contra a caminhonete em que o militar estava e fugiram, de moto.
Descaso das autoridades
Maria das Graças desabafa, revelando que desde que o filho foi visto pela última vez, ela teve um quadro de depressão profunda, faz tratamento psiquiátrico e se mantém a base de remédios.
— Falta vontade das autoridades. Tem imagens do carro da polícia; uma conversa gravada de dois policiais dizendo que “dois passarinhos estavam presos na gaiola”; manchas de sangue na viatura; várias pessoas disseram que viram meu filho com os policiais [...] Mesmo assim, o processo foi arquivado [por falta de provas]. Eu sou pobre, não é? Por isso não acredito mais na revisão da absolvição desses policiais. Porque eles nunca vão confessar e vai continuar tudo do jeito que está: eu com a minha dor”.
A mãe do jovem continua divulgando o telefone ao buscar pelo filho, mas afirma que recebe ameaças pelo celular.
— A única coisa que fizeram por mim nesse tempo foi me ameaçar. A cada vez que eu dou uma entrevista sobre esse assunto, no dia seguinte eu recebo uma ameaça por telefone.
Ela também cita o fato de os policiais ainda fazerem parte da corporação.
— A última notícia que eu tenho é que os policiais continuam todos nas ruas, trabalhando. Menos o que foi morto.
A dona de casa que faz o possível para que as pessoas não se esqueçam do caso.
— Minha vida virou uma tristeza, um inferno, e minha única esperança é encontrar meu filho. Batalho, continuo correndo atrás para um dia encontrá-lo, mas o pouco que eu posso fazer é dar entrevistas para que o caso não seja esquecido e participar de reuniões de grupos de direitos humanos.
Ossada
“Infelizmente, de lá para cá, nada aconteceu”, lamentou Maria das Graças. Há pouco mais de dois anos, o IML (Instituto Médico-Legal) de Goiânia fez exames para verificar se uma ossada, supostamente de um adolescente, era de Murilo.
— Disseram que o resultado ia demorar uns seis meses, mas, até hoje, eu nunca tive uma resposta se o exame deu positivo ou negativo. Já fui lá e não me deram resposta.
O advogado Alan Hahnemann Ferreira, que hoje representa a mãe de Murilo, disse estar tentando obter uma resposta oficial do IML. Mas, segundo ele, extraoficialmente a informação é que a ossada não seria de Murilo.
Na semana passada, ao pedir a federalização da investigação e julgamento dos 29 assassinatos de moradores de rua registrados em Goiânia desde agosto de 2013, a ministra dos Direitos Humanos, Maria do Rosário, sugeriu que também os desaparecimentos fossem federalizados.
“Isso seria positivo. Não só para o meu caso. Porque se a Polícia Federal não entrar no meio, isso vai ficar assim para o resto da vida”, comentou a mãe.
A Agência Brasil entrou em contato com a assessoria do Tribunal de Justiça de Goiás, mas não obteve respostas até o momento. Por meio do chefe de Comunicação Social, coronel Anésio Barbosa Júnior, a Polícia Militar informou que acompanha os desdobramentos do caso, classificado como “extremamente complexo”, e tem o maior interesse no esclarecimento dos fatos para que, se comprovadas as acusações, os eventuais responsáveis sejam punidos. Ou que, caso contrário, não restem dúvidas sobre a atuação de quaisquer servidores públicos ou da corporação.














