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Código em currículo elimina candidatos negros de vaga que exige "boa aparência"

Crítico de cinema relata como ele mesmo, um negro, já teve o racismo naturalizado em sua vida

Cidades|Do R7

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"Ainda existem muitos negros e negras mergulhados na naturalização ou na negação do racismo como forma de proteção"
"Ainda existem muitos negros e negras mergulhados na naturalização ou na negação do racismo como forma de proteção"

Na adolescência, o crítico de cinema* Heitor Augusto trabalhou como plaqueiro. Nos parágrafos a seguir, ele relata como enfrentou um episódio marcante em sua vida. Ainda pouco consciente do que seriam atitudes racistas, aos 17 anos, ele foi orientado a escrever no verso dos currículos que recebia para uma determinada vaga o código 030. Aquilo significava que os concorrentes negros, assim como ele, estariam automaticamente eliminados de uma oportunidade de trabalho que exigia "boa aparência", apenas porque era negros. Hoje, pesquisador e professor, sujeito formado, Heitor resgata a história como ferramenta de luta para tirar outras negritudes do armário. 

Leia o relato completo:


"Em 2003, aos 17 anos (idade complicadíssima para se ingressar no mercado de trabalho formal, dado o risco de alistamento no Exército), eu consegui um emprego como plaqueiro. Acho que hoje o termo mais utilizado é “homem-sanduíche” por causa da natureza da placa: você não segura algo, ela é que te embrulha. Você veste um negócio de plástico que tem anúncios de emprego colados, vai para a Barão de Itapetininga e fica. Trabalhadores desempregados observam as vagas anunciadas, anotam o telefone da agência para ligar, vão diretamente na agência ou deixam currículo.

Trabalhei nisso por dois, três meses até passar pelo trauma do “serei pego ou não pelo Exército” – felizmente, escapei – e conseguir um outro emprego de baixa qualificação (ajudante de estoque). Pois bem, tinha uma identificação grande com a dona da agência por muitas razões: ela era negra, como eu, tinha uma figura masculina alcóolatra em casa (como eu) e tinha ascendido socialmente (como eu aspirava naquele momento). Era um negócio familiar de duas, três pessoas. A minha facilidade em me comunicar ajudou bastante para que, no último mês de trabalho, eu fizesse meio expediente como plaqueiro e passasse o restante do tempo fazendo prospecção de novos clientes por telefone.


Nos meses de plaqueiro, porém, era pesado: o dia inteiro em pé, debaixo de sol e chuva, lidando com o desespero impregnado no olho alheio diariamente. Escrevo este relato e tento dar cara, cor, nome, feição e contornos às memórias de um tempo tão distante, de que eu não me pareço eu. Lembro de haver uma camaradagem entre os plaqueiros daquele quarteirão e que trabalhavam com agências de emprego (a maioria senhores aposentados precisando complementar a renda, pagar a escola do neto etc). Lembro de ter sido bem recebido e ajudado muitas vezes (“olha a placa pra mim enquanto vou ali?”) e de como cobríamos uns aos outros quando a necessidade de “dar um perdido” era gutural (e como era!).

Mas lembro também de racismo. De algo que apenas anos depois, crescido e finalmente com o processo finalizado de tornar-me sujeito, tive a capacidade de entender a complexidade, a crueldade e o mecanismo de opressão. Lembro-me de que a agência para a qual trabalhava fechou com um cliente para anunciar uma vaga. Mas eles queriam uma pessoa de “boa aparência”. Como fazer esse filtro apenas ao ler um currículo?


Aí que entra o plaqueiro – eu, um negro, em franco processo de autonegação e distanciamento entorpecido da violência. Minha chefe, uma negra, pediu que eu apenas recebesse currículos (isso era normal, havia vagas para as quais apenas recolhíamos currículo, não encaminhávamos o candidato à agência) e que, ao recebê-los, anotasse um código: 030. Para negros. Por que? Simples: o dia tem 24 horas e a fictícia hora 30 seria em que a noite estaria mais preta mergulhada no pretume.

Assim que foi feito o filtro.


Lembro-me de isso ter sido colocado de forma muito natural. Com o vocabulário hunano e político que tinha à época questionei, mas muito timidamente. “Isso não é errado?”. A minha chefe respondeu, de forma muito natural: “É um cliente e a gente tem de atender às necessidades dele quaisquer que sejam”. It's just business. E lá estava eu, anotando 030s nas costas das folhas de currículo como se fossem um símbolo de inaptidão pra tal vaga. Ser 030 automaticamente tornaria um candidato inapto à vaga.

E isso passou. Não como memória porque mais de uma década depois eu me lembro disso. E acho importante lembrar, ainda mais a partir da pessoa que sou hoje: profundamente inteolerante à naturalização dos preconceitos no cotidiano (já entrei no modo “mando taxista à merda” toda vez que escuto um “tinha que ser mulher mesmo” no trânsito). É bom olhar para esse passado em que eu naturalizei o racismo na minha vida para entender como o caminho é longo para se chegar num outro lugar e como existem muitos negros e negras ainda lá, mergulhados nessa naturalização ou na negação (“o preto é o Outro, eu sou quase branco”) como mecanismo de proteção, como passe que permita a circulação por ambientes sociais distintos.

Pensei em ampliar o relato, reletir sobre quais foram as características desse meu caminho de tornar-me negro, de tirar minha negritude do armário, mas seria alongar-me demais, deter-me ao que sou hoje (que é lindo e poderoso). Pra esse relato, penso que importa o que eu era, pois o que eu era muitos ainda o são".

*Heitor Augusto é​ crítico de cinema, pesquisador e professor. Escreve para a revista Interlúdio. Leciona em cursos livres sobre cinema e crítica, além de ter trabalhos como curador. Atualmente finaliza um livro de ensaios sobre o Blaxploitation.

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