Com ruas mal iluminadas, 70% das mulheres já deixaram de sair por medo de assalto ou assédio
Pesquisa indica que 43,8% das entrevistadas mudaram forma de se vestir para evitar abusos
Cidades|Márcia Francês, do R7
A falta de iluminação em vias públicas de cidades do Brasil é uma das principais causas de insegurança entre as mulheres, segundo relatório As Mulheres e a cidade, produzido pela ONG ActionAid Brasil, entidade que atua na área de direitos humanos em 45 países. Segundo o levantamento, a pior situação é em Cabo de Santo Agostinho (PE) onde 78% das entrevistadas moram em vias com iluminação pública ruim.
De acordo com a ONG, por esse motivo, 70,6% das mulheres já deixaram de sair de casa com medo de assalto ou assédio. Além disso, 73,9% das entrevistadas já desviaram o caminho por causa de uma rua escura e 39,5% relataram ter mudado a forma de se vestir para chamar menos atenção e, assim, inibir possíveis assédios na rua e, principalmente, no transporte público.
Gabriela Pinto, assessora do programa de direito à cidade da ActionAid Brasil, destaca a situação ruim da iluminação pública em determinados bairros do País.
— Grande parte dos becos e vielas das comunidades onde a gente desenvolveu a pesquisa existe uma ausência de iluminação e quando não tem uma ausência, a manutenção das lâmpadas não é feita de forma eficaz. Uma das pautas da campanha é cobrar do poder público uma manutenção mais efetiva do serviço de iluminação pública, que ele também está relacionado direto com a vulnerabilidade dessa mulher sofrer algum tipo de violência.
No total, 39,5% relatam viver em ruas pouco iluminadas. Depois de Cabo de Santo Agostinho, a situação mais precária se observa na comunidade de Heliópolis, onde 52% declaram morar em vias com iluminação ruim. Nesta manhã, o R7 esteve na comunidade e constatou que o problema é recorrente.

Mayara Nascimento, 24 anos, auxiliar administrativa, mora em Heliópolis há muitos anos e disse ao R7 que já mudou o percurso para ir até o ponto de ônibus por causa de falta de iluminação das ruas e medo de assalto.
— Por conta desse perigo deixei de pegar um ônibus [que só passa em uma rua muito escura] e passei a ir a pé. Em um desses dias eu fui assaltada.
Segundo ela, dois rapazes passaram de bicicleta e levaram tudo que Mayara tinha. Dois dias antes, uma amiga da jovem também havia sido assaltada no mesmo percurso.
Jéssica de Jesus Costa, 18 anos, estudante de veterinária, não chegou a ser assaltada. Mas foi por pouco. A jovem, que faz faculdade no Morumbi, chegou no ponto de ônibus apenas 10 minutos depois de um arrastão sofrido por outro grupo de alunos da mesma faculdade. Até mesmo o material de estudo foi levado.
— Causa uma insegurança porque você fica muito vulnerável na frente da faculdade. Muitas vezes a gente tem que ir caminhando porque o ônibus demora meia hora e todo aquele percurso do Morumbi é muito difícil de passar.
Abusos
Além do medo de assalto, outro problema verificado pela pesquisa são os casos de assédio e abuso sexual nas ruas e no transporte público. Ao todo, 43,8% das mulheres relataram ter sofrido assédio dentro de ônibus ou trem. Em São Paulo, 100% das entrevistadas já passaram por esse tipo de situação.
Jaqueline Teixeira dos Santos, 35 anos, auxiliar de limpeza e estudante de pedagogia, sofre com a falta de luz nas ruas de Heliópolis e relatou que uma prima sua já foi assediada na rua.
— Ela [prima] estava indo para o curso, era à tarde, umas 18h. Chegou no meio do caminho e um cara armado pegou e a levou para um beco e fez ela fazer sexo oral com ele. A sorte dela é que, no momento em que estava abaixada, estavam vindo umas pessoas e ele ficou com medo e saiu correndo.
Carmem Dolores da Silva Santos, 27 anos, diretora escolar em creche, sofreu abuso dentro do transporte público.
— Foi em um trem da CPTM que estava esperando em pé e chegou um cara por trás e ficou me encoxando. Eu tentei falar e ele vinha atrás. Ele só saiu quando dei um soco na barriga dele. Ele acabou descendo na próxima parada e ainda ficou olhando para dentro [do vagão].
Levantamento
A pesquisa foi realizada com mulheres de São Paulo, Rio de Janeiro, Recife, Rio Grande do Norte, Cabo de Santo Agostinho (PE), e Olinda (PE). Cerca de 80% das entrevistadas têm entre 22 e 55 anos.
Divulgada em agosto, a pesquisa será lançada mundialmente em maio de 2015. Nesta quarta-feira (12), a entidade realizou um seminário em Heliópolis, na zona sul de São Paulo, para debater o assunto e levantar medidas que o Poder Público pode tomar para minimizar o problema e melhorar a segurança das mulheres no espaço público.















