A maior cheia da história da bacia amazônica

O instituto Clube da Pesca.org analisa as influências da cheia histórica que atingiu a bacia do Rio Amazonas em 2021 e os reflexos nas microeconomias regionais movimentadas em sua grande maioria pelo turismo ecológico da pesca esportiva.

Folha Vitória
Foto: Divulgação/DINO
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As incertezas sociais e econômicas provocadas pelo novo Coronavírus, a maior pandemia do século XXI, já seriam suficientes para marcar o ano corrente como um dos mais inesperados e turbulentos da década. Contudo, no presente ano também ocorreu na bacia do Rio Amazonas a maior cheia da história, o que, para o mundo do ecoturismo de pesca esportiva gera insegurança e outras incertezas.

Do ponto de vista empresarial, principalmente para quem vive do turismo de pesca, o nível da água muito elevado traz grandes prejuízos, como exemplo a dificuldade em encontrar bons peixes nas operações. O exemplo se dá nas excursões de pesca que agendam seus pacotes pensando no nível em que os rios costumam estar “na caixa”, ou seja, quando o rio fica com a margem bem definida. Tal fato faz com que os peixes deixem o ambiente da floresta alagada para habitar somente o leito do rio, o que facilita a captura de bons exemplares.

Contudo, com o rio muito cheio, os peixes adentram na floresta por conta da oferta de alimento. Desde a frutinha do açaí que cai na água, insetos ilhados até pequenos mamíferos atraem toda a cadeia alimentar para dentro da floresta e tal fato impossibilita que o pescador esportivo alcance esses peixes de forma fluvial.

Uma pescaria difícil traz publicidade negativa para o hotel ou operação visto ser natural um grupo de pesca querer voltar para o local onde teve maior sucesso na pescaria. Nem sempre o pescador esportivo, seja ele de primeira viagem ou recorrente, se preocupa em saber os motivos de não ter achado bons exemplares, ou ainda, de achar os exemplares muito próximos das estruturas, o que dificulta ou impossibilita por completo seu embarque.

A cheia também traz prejuízos de ordens materiais. Como referência a bacia pertencente ao Município de Autazes – AM, que sofre influencia direta no nível do Rio Negro/Amazonas. No mês de setembro de 2021, o hotel de selva “CLUBE DA PESCA AMAZON JUMA” testemunhou a água do rio invadir boa parte de sua estrutura, que, apesar de ser construído em palafita, teve seu restaurante, cozinha e boa parte dos bangalôs alagados. Madeiras que nunca haviam sido expostas à água ficaram submersas por mais de 60 dias, ocasionando inchaço e rachaduras das tábuas. Ao juntar isso aos lockdowns de 2020 devido à pandemia é possível imaginar quanto os empresários e profissionais dependentes do ramo sentiram.

Em dados extraídos do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), verifica-se que as três maiores cheias já registradas no Porto de Manaus foram respectivamente em 2009, com 29,77 metros, em 2012, com 29,97 metros e finalmente em 2021, com 30,2 metros. O fato assombroso é que elas ocorreram nos últimos 12 anos. Foram, no total, sete cheias extremas (2012, 2013, 2014, 2015, 2017, 2019 e 2021), classificadas como extremas pois superaram os níveis considerados emergenciais pela Defesa Civil nos últimos 10 anos. Analisando o histórico, é possível ao menos supor o que ocorrerá nos próximos anos: o nível da água vai continuar batendo recordes. 

É fácil entrar nas especificidades das causas que podem ser facilmente apontáveis: El Niño, efeito estufa, buraco na camada de ozônio, degelo das calotas polares, queimadas desenfreadas e o consequente desmatamento.

No entanto, ainda é possível extrair de toda essa verdadeira tragédia alguns pontos positivos, tanto aos pescadores esportivos quanto aos empresários e outros profissionais atrelados ao turismo de pesca esportiva.

A pressão de pesca com certeza neste ano pandêmico foi inquestionavelmente reduzida, fato que permitiu aos peixes mais procurados como o tucunaré-açu, aruanã e pirarucu terem um verdadeiro alívio em sua procriação. As grandes matrizes também ficaram relativamente mais protegidas, pois com o nível da água elevado toda a cadeia alimentar fica protegida. 

Ainda com a cheia histórica ocorreu a união das bacias, fazendo com que espécies regionais acabassem migrando de uma região a outra, trazendo novas opções de pesca. Informação essa obtida em primeira mão com um empresário nascido no Rio Juma-AM, ribeirinho, que começou sua carreira como guia de pesca e hoje é coproprietário do hotel de selva Clube da Pesca Amazon Juma. "O pirarucu era um peixe praticamente extinto no rio Juma e neste ano de cheia pudemos notar diversos avistamentos. Outro peixe que não era comum por aqui é o Tambaqui. Apesar de, em sua maioria, aparecerem em regiões de difícil acesso, em igapós alagados, nunca tínhamos visto ao menos nos últimos 5 anos de existência do Hotel e hoje conseguimos capturá-los bem na frente do hotel", diz Kaka, coproprietário do hotel Clube da Pesca Amazon Juma. 

Como ocorreu após a cheia histórica de 2012, os anos que seguiram foram marcados por pesca em abundância, recorde de tamanhos e um aumento significativo das operações de pesca, ótimo para o desenvolvimento das economias locais mas ruim para preservação dos peixes.

Desta vez, diferentemente do que ocorreu no passado, as consequências da cheia histórica serão acompanhadas por uma legislação protetiva que proíbe o abate do tucunaré-açu. Autazes foi primeiro município a criar uma lei de proteção que, desde 2017, proíbe o abate do tucunaré (Cichla temensis). A Lei 178/2017 proibiu o abate do "embaixador" da pesca esportiva brasileira em uma área de proteção permanente que compreende o Rio Juma, Rio Mutuca, Rio Preto do Pantaleão, entre outros.

Para o Presidente do Instituto Clube da Pesca.org, um instituto de promoção e desenvolvimento da pesca esportiva como turismo ecológico, "cabe aos empresários, ribeirinhos e todos os outros personagens das microeconomias atreladas à pesca esportiva no país terem esperança de que as coisas irão melhorar, pois a tendência é que o desenvolvimento do turismo sustentável, com a ajuda de legislações protetivas, atraia mais e mais viajantes e a economia mundial, apesar de ainda engatinhar para o período pós-pandemia, voltará à sua normalidade", diz Thiago H. Fantini, Presidente do Instituto Clubedapesca.org.

Com todos os períodos de isolamento social, quarentena e incertezas políticas relacionadas ao período pandêmico, é lógico concluir que o mercado demore um pouco a aquecer. Contudo, a tendência desses nichos diretamente afetados pela pandemia, como o turismo em si, é terem uma melhora significativa nos próximos anos.

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