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Festival de música eletrônica em Pedra Azul ameaça sonho de empresário de manter área preservada

Terreno onde empresa pretende promover o Cafe de La Musique já pertenceu à família de João Santos Filho, que, há quatro décadas, não imaginava que a região um dia seria afetada

Folha Vitória

Folha Vitória|Do R7

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Há quatro décadas, o empresário João Santos Filho, que dirigia a Fábrica de Cimentos Nassau, em Cachoeiro de Itapemirim, no sul do Estado, comprou uma grande área na localidade de São Paulinho do Aracê, em Pedra Azul, Domingos Martins. Naquela época, o turismo na região ainda não havia sido explorado como nos dias de hoje e o local era habitado, basicamente, por seus moradores, que, com suas famílias, estimulavam a agricultura local, desde sempre de excelente qualidade.

Com a baixa ocupação, era possível escolher, dentre muitas alternativas, a propriedade a ser adquirida. Amigos de João Santos Filho contam que ele escolheu justamente aquela área para ser sua casa de campo e futura residência no Espírito Santo por ter se encantado com a vista para a Pedra Azul daquele ângulo e com a topografia do local. Além disso, ele tinha a certeza de que tudo aquilo jamais seria ameaçado, devido à proximidade com o Parque Estadual da Pedra Azul.


João Santos Filho morreu em um acidente aéreo, no ano de 1980. A partir de então, seu pai, João Santos, preservou o sonho do filho e manteve aquela área como uma espécie de “santuário” intocado, até sua própria morte, em 2009, aos 101 anos.

No entanto, o sonho de João Santos Filho de manter o local preservado pode estar ameaçado pela realização de um evento de música eletrônica, que está previsto para acontecer exatamente nessa área - localizada a cerca de 500 metros do Parque Estadual de Pedra Azul. Especialistas alertam que o excesso de barulho e luzes, provocados pelo evento musical, pode causar sérios prejuízos à fauna local.


Aluguel

O terreno que outrora pertencia à família de João Santos foi adquirido, recentemente, por um grupo de empresários, que o arrematou durante um leilão de caráter judicial. Inicialmente, o grupo anunciou o propósito de desenvolver, no local, um condomínio de luxo, seguindo as regras e limites locais para ali empreender.


No entanto, o sítio foi alugado para a empresa responsável pela organização do evento "Cafe de La Musique", que pretende promover, entre os dias 20 e 22 de junho, durante o feriado de Corpus Christi, a edição de inverno do festival de música eletrônica - que já é realizado em Guarapari durante o verão. Durante os três dias do evento, estão previstas apresentações de vários Djs, como Elekfantz e Vintage Culture.

A alegação da organização é de que o evento pretende divulgar Pedra Azul para todo o Brasil. Moradora da região e ex-secretária de Meio Ambiente do Espírito Santo, Glorinha Abaurre afirma que vê com bons olhos a realização de um evento desse tipo na região. No entanto, ela alerta para os riscos ambientais que existem ao se realizar esse festival em uma área tão próxima ao Parque Estadual de Pedra Azul.


"Não tenho nada contra o evento, que é um evento bacana e que pode trazer para a região turistas classe A, além de projetar Pedra Azul para todo o Brasil. Mas por que justamente naquele local, que é uma zona de amortecimento protegida por lei? Aquela área é extremamente sensível, justamente pela proximidade com o Parque Estadual da Pedra Azul, e é preciso muito cuidado ao se realizar qualquer tipo de evento naquele lugar. Acho válida a realização desse evento em Pedra Azul, mas acho que ele deveria acontecer em uma outra área", defende Glorinha.

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A ex-secretária e bióloga destaca ainda que, há algumas décadas, Guarapari era uma região pouco explorada pelo turismo e que, com o passar dos anos e com o desenvolvimento do setor, houve uma ocupação desenfreada na cidade.

"Não podemos pensar somente no curto prazo, mas também nas gerações futuras. Não podemos deixar que Pedra Azul se torne, daqui a dez ou 20 anos, uma nova Guarapari, onde já não se segue uma série de regras. Queremos que os turistas continuem tendo prazer em visitar Pedra Azul e desfrutar das belezas da região. Se permitirem a realização de um evento e não forem observadas todas as regras, isso abrirá um precedente para que, no futuro, outras empresas queiram realizar eventos na região sem obedecer essas normas", frisou.

Embargo

Na semana passada, o Instituto Estadual de Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Iema) notificou a organização do evento após constatar a realização de terraplanagem sem autorização ambiental na área onde pretende-se realizar o festival. Além disso, o órgão embargou a utilização da área, de aproximadamente 8 mil metros quadrados, até a regularização da situação e apresentação de um Projeto de Recuperação para Área Degradada (PRAD).

Por meio de nota, o Iema informou, nesta terça-feira (04), que a terraplanagem continua embargada. Ainda segundo o instituto, o empreendedor responsável pelo evento musical compareceu ao Iema, na ultima sexta-feira (31), e foi orientado sobre os procedimentos de regularização da situação do auto de embargo. O órgão esclarece que o prazo estabelecido no auto para protocolar tal documentação assertiva é de 30 dias, a partir da interdição.

Já a Prefeitura de Domingos Martins esclarece que compete ao município o Licenciamento Ambiental. No entanto, segundo a prefeitura, em casos como esse, em atendimento à legislação vigente, a Secretaria de Meio Ambiente precisa da manifestação do órgão gestor do Parque Estadual (no caso, o Iema) para conceder ou não a Licença Ambiental Municipal.

Ainda de acordo com a Prefeitura de Domingos Martins, o pedido de licença ambiental foi protocolado pela empresa organizadora do evento na última sexta-feira. O processo foi encaminhado para o Iema nesta segunda-feira para que o órgão se manifeste.

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