Greve paralisa 70% da Santa Casa e afeta Pronto-Socorro
Gazeta Digital|Do R7

Greve de funcionários já paralisou 70% da Santa Casa de Misericórdia da Capital e os reflexos são percebidos no Hospital e Pronto-Socorro Municipal de Cuiabá (HPSMC), localizado a poucos metros. Os funcionários cruzaram os braços devido aos salários atrasados e a paralisação das atividades chega a dois meses. O cenário em uma unidade é de quartos vazios, leitos desocupados, equipamentos parados à espera de pacientes. O da outra é de corredores abarrotados de pessoas internadas, esperando tratamento.
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Parte da dívida salarial da Santa Casa com os servidores começou a ser quitada nesta sexta-feira (21). Os enfermeiros receberam dois pagamentos que estavam atrasados, porém o débito com os médicos continua. Os enfermeiros continuarão a escala de greve até o dia 2 de janeiro.
Nesse período grevista, apenas 30% dos funcionários da Santa Casa estão trabalhando. A unidade estima que aproximadamente 200, dos mais de 270 leitos, estão vazios, uma vez que novos pacientes não são recebidos. Porém, o presidente da unidade de saúde, Antonio Preza, frisa que aqueles que já estavam internados estão com o tratamento em dia. Ele rebate a acusação que a unidade deve à Secretaria Municipal de Saúde (SMS) R$ 4,5 milhões em serviços, que teriam sido pagos antecipadamente. “Essa dívida não existe. Foi marcada uma reunião para o dia 27 (quintafeira), mostrarei que isso não procede”, reitera.
Nesta semana, o setor de nefrologia ameaçou fechar as portas e remanejar 102 pacientes. “É preocupante isso, precisamos estar atentos para que não haja o fechamento. Esperamos que os funcionários possam trabalhar devidamente e manter o quadro, e os pacientes se tratem tranquilamente”, pontua Carlos Antônio Pereira, presidente da Associação dos Pacientes Renais e Transplantados de Mato Grosso.
Pronto-Socorro
A poucos metros da Santa Casa de Misericórdia, no atual Pronto-Socorro de Cuiabá, o cenário é calamitoso. A reportagem esteve na unidade durante esta semana. A sala vermelha é a principal porta de entrada dos pacientes que chegam à unidade, em sua maioria, politraumatizados devido a acidentes ou feridos por algum tipo de arma. As pessoas ficam distribuídas em macas muito próximas. Um paciente acompanha de perto o que acontece com o outro. Depois, ficam internados ali mesmo ou distribuídos pelos corredores da unidade.
O setor de ortopedia está lotado. A enfermaria é alvo de expectativa para quem precisa de um leito. Andar pelos corredores do HPSMC é lastimável. Alguns pacientes escondem o rosto, outros tentam dormir, enquanto tem gente que parece que já se acostumou, se entregou àquela situação e pelo olhar perdido, demonstra a apatia e desesperança. Há corredor em que os dois lados estão ocupados pelas camas com as hastes de soro.
Para driblar o calor, ventiladores de chão são distribuídos próximo às macas. No corrimão da rampa de acesso de um andar a outro, os aparelhos estão amarrados.
A Sociedade Mato-grossense de Anestesiologia (Soma) denunciou que desde quartafeira (19) os medicamentos necessários para a realização de anestesias estão em falta. Segundo a nota emitida, foram canceladas cirurgias eletivas e os procedimentos de urgência e emergência podem ser inviabilizados.
Os acompanhantes veem tudo de perto e dividem a agonia com os pacientes, se apertam entre as macas e nos rostos não escondem a indignação e preocupação. “Estão todos abandonados na maca. Estão mandando os outros embora porque não tem mais maca”, relata uma acompanhante, que preferiu não se identificar. “Estávamos lá desde cedo. Não teve promessa de resolver ainda hoje. O médico ainda passaria no especialista para passar em outro profissional, para então, ela ser internada. Ela estava em uma cadeira, ia ficar o resto do dia esperando com fome, sem água. Não há um copo para beber a água no bebedouro”, reclama a mulher que acompanhava a irmã que acabou indo embora do hospital.
O Sindicato dos Profissionais de Enfermagem de Mato Grosso (Sinpen) reforça que a situação do Pronto-Socorro, em parte, reflete a paralisação da Santa Casa. Com o pagamento de parte do débito existente com os funcionários, a expectativa é que esse quadro melhore. “O centro cirúrgico voltará a trabalhar, a unidade vai receber os pacientes novamente”, comenta Dejamir Souza Soares, presidente sindicalista.
Pagamentos
Na quinta-feira (19) foi assinado o contrato entre Prefeitura e Santa Casa para o recebimento da emenda parlamentar de R$ 2,9 milhões. O recurso foi pago ontem e, com ele, a Santa Casa quitou duas folhas de pagamento dos enfermeiros que estavam atrasadas. Porém, uma folha e o 13º ainda estão atrasados. “Já estão recebendo. A comissão de funcionários acertou que trabalharão na escala reduzida até o início do próximo mês. As internações estão liberadas, mas pela metade da capacidade”, explica Soares.
Entretanto, Preza reforça que ainda faltam recursos para pagar os médicos. “Ficou combinado que será paga uma folha e, então, eles retornarão ao trabalho”, destaca.
O valor da folha a ser paga, de acordo com o presidente da Santa Casa, é de aproximadamente R$ 700 mil. É aguardada uma nova liberação por parte da SMS, no valor de R$ 1 milhão, pelos serviços de Terapia Renal, Incentivos Municipais, Unidades de Terapia Intensiva (UTI) e Fundo Estadual de Equilíbrio Fiscal (FEEF).















