Mais autonomia para os cegos

Regina Oliveira

Regina Oliveira

Gazeta Digital

Recentemente reconhecido pela Assembleia Geral das Nações Unidas, o Dia Mundial do Braille contribui para conscientização sobre a importância do Sistema como meio de comunicação e informação.

A Lei Brasileira de Inclusão (LBI), de 2015, possibilitou grandes avanços para a garantia de direitos fundamentais para as pessoas com deficiência. A principal inovação está na mudança do conceito do próprio termo deficiência, que deixa de ser entendida como uma condição do indivíduo e passa a ser considerada como o resultado das inúmeras barreiras impostas pela sociedade.

Só no Brasil, 45 milhões de pessoas possuem alguma limitação física, mental, intelectual ou sensorial. Desse total, 6,5 milhões têm deficiência visual, sendo 500 mil cegas.

Nesse cenário, quanto mais igualdade de acesso e oportunidades para todos são oferecidas, menores serão as dificuldades encontradas e mais inclusiva será a sociedade.

Comemorado no dia 4 de janeiro, o Dia Mundial do Braille é uma oportunidade de ampliar a discussão social sobre o acesso à informação e à cultura para as pessoas com deficiência visual. A data celebra o nascimento de Louis Braille, criador desse sistema de escrita e leitura que continua sendo imprescindível até hoje, e foi reconhecida no último dia 17 de dezembro de 2018 pela Assembleia Geral das Nações Unidas.

Para as pessoas cegas, ter a maior quantidade de textos em braille em seu dia a dia significa ter mais autonomia e segurança para, por exemplo, ingerir e administrar remédios, pedir um extrato bancário e ter privacidade para consultá-lo, verificar contas de consumo ou ainda ter acesso ao conhecimento por meio de livros acessíveis.

E mesmo com o avanço de recursos como o livro digital acessível ou audiolivro, é extremamente importante que a produção de obras didáticas, literárias e outros conteúdos textuais em braille siga em crescimento.

Isso porque, além da independência que ele proporciona, a representação tátil das letras é indispensável para a alfabetização de crianças cegas, assim como a transcrição de gráficos, símbolos matemáticos, ilustrações, entre outros símbolos que fazem parte do processo educacional.

Na década de 40, a jovem cega Dorina Nowill já entendia a necessidade de se ampliar a produção de livros braille. Junto a copistas voluntárias que aprendiam o sistema e transcreviam os livros, Dorina deu início à Fundação para o Livro do Cego no Brasil, hoje Fundação Dorina Nowill para Cegos.

Eu fui uma das beneficiadas por esse trabalho. Nasci com glaucoma congênito e era uma criança muito interessada em aprender. Quando perdi a visão, aos 7 anos, minha mãe encontrou na Fundação uma forma de me ensinar a ler e a escrever. Aqui aprendi o braille, que foi meu passaporte para chegar aonde estou hoje: trabalhando com o que mais gosto como coordenadora da revisão braille e em contato direto com as centenas de títulos produzidos.

De lá para cá, muitos avanços foram conquistados, mas ainda hoje é fundamental que organizações de todas as esferas sociais estejam dispostas e colaborem pela a acessibilidade e inclusão de pessoas com deficiência.

Por isso, iniciativas como a ampliação do investimento na expansão de parques gráficos auxilia na garantia do direito ao acesso à informação e educação. Com a aquisição de 26 novas máquinas de impressão braille, a Fundação Dorina alcançará a produção de até 450 mil páginas braille por dia, tornando-se uma das maiores do mundo em capacidade produtiva.

Esse é um passo importante que beneficiará milhares de brasileiros e brasileiras cegos. Mas ainda há um longo caminho pela frente que será trilhado apenas com o engajamento de toda a sociedade para fazer com que cada vez mais materiais e publicações acessíveis sejam disponibilizados.

Regina Oliveira é coordenadora de Revisão da Fundação Dorina Nowill para Cegos e membro do Conselho Mundial e do Conselho Ibero-americano do Braille.

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