Na tragédia da Lagoa, o assassino morador de rua não é vítima
A PM do Rio agiu de maneira exemplar no caso e deveria ser referência no debate sobre a polícia que a maioria dos cidadãos deseja para o Brasil
Cidades|Marco Antonio Araujo, do R7

Nosso país está doente já faz um bom tempo. Na polarização que esgarça o chamado tecido social, a questão da violência do Estado (aquela, constitucional, praticada pela polícia) tem sido um dos debates em que ninguém muda de opinião. Provavelmente, porque estamos todos errados.
Em resumo, os grupos antagônicos se dividem entre os que acham que bandido bom é bandido morto (afinal, 60 mil brasileiros são mortos por ano) e os que consideram inegociáveis os direitos humanos (aqueles, aprovado na ONU após a Segunda Guerra, quando o Ocidente acabara de vencer a barbárie do nazismo).
Nesse cenário de antagonismos radicais, a tragédia da Lagoa é tão chocante, dramática e atípica que dela poderíamos tirar algumas lições e, quem sabe, distender um pouco esse insustentável cabo de guerra sobre a polícia que a maioria dos cidadãos deseja para o Brasil.
Chama atenção o comportamento exemplar, profissional, técnico e – nos limites da situação –, bem-sucedido dos agentes envolvidos na captura do morador de rua que matou duas pessoas e feriu outra, a facadas, na tarde de domingo, 28.
Segundo a PM, os policiais chegaram ao local e tentaram negociar com o assassino. Mesmo após receber um disparo de eletrochoque, o esfaqueador continuou tentando matar outras pessoas. Em seguida, um policial efetuou disparo com arma de fogo nas pernas do agressor, que ficou ferido. Vale destacar: nas pernas.
A ação atende a todos os protocolos internacionais seguidos pelas melhores e mais eficientes polícias do mundo. No Brasil, a regra, estatisticamente comprovada, é a da execução sumária de suspeitos – mesmo rendidos ou, pior, notavelmente inocentes. São inúmeros os exemplos de ação “desproporcional” da PM contra pessoas de bem, crianças e trabalhadores mortos em supostos “confrontos” com os homens da lei. Normalmente, com tiros no peito e na cabeça. Vale destacar: no peito e na cabeça.
Desta vez, vimos que o Estado treina seus homens e mulheres para agirem como representantes e guardiões de uma sociedade civilizada. Os heróis da Lagoa não se comportaram como justiceiros, milicianos, bandidos. Sim, é possível alertar, imobilizar, render e prender. Claro, vai depender da situação. Mas não é disso que estamos falando.
A conversa aqui é, retomando, sobre como nós, indivíduos, precisamos delegar a tarefa de fazer justiça. Por mim – vendo as imagens do casal que teve a vida desgraçada por um psicopata –, a vontade era que fosse outro o desfecho. Não é razoável nem “civilizado” ter compaixão por um assassino. Não, o morador de rua não é um coitado. Muito menos vítima. Esse tipo de raciocínio é delirante e cruel com os que foram realmente atingidos.
A polícia agiu certo. Em uma democracia, com estado de direito e garantias individuais, é assim que devem se comportar os representantes da lei. Merece aplausos, elogios, condecorações, para que essa seja a regra. Podemos até lamentar que foi na hora errada. Mas isso não significa que estamos com a razão.
Não estamos.















