Polícia carece de uma rede preventiva de combate ao crime, diz ex-secretario nacional de segurança pública
Ataques no Rio Grande do Norte são uma retaliação ao bloqueio de sinal de celulares
Cidades|Caroline Apple, do R7

Em retaliação à instalação de bloqueadores de sinal de celulares no presídio de Parnamirim, no Rio Grande do Norte, criminosos promoveram diversos atentados no estado, que incluem ataques a ao menos 34 ônibus, além depredação de prédios públicos, veículos particulares, escolas, comércios e bases policiais.
De acordo com Ricardo Brisolla Balestreri, ex-secretario nacional de segurança, a falta de investimentos na Polícia Militar, o modelo reativo em vez de preventivo da corporação, a carência de uma rede suficiente de inteligência que mapeie o crime e a falta de proximidade com a comunidade ajudam a tornar o cenário de retaliação do crime ainda mais caótico.
Balestreri aponta que as deficiências do modelo atual da polícia ficam mais evidentes quando ações como essas acontecem.
— Não são os policiais os culpados. O modelo de polícia em que atuam não os ajuda. Temos uma polícia sempre pronta para reagir, mas sem um trabalho de inteligência suficiente, que a ajude a conter ou minimizar ataques como o Rio Grande do Norte está vivendo. Além disso, as cadeias estão superlotadas de criminosos menos perigosos misturados com outros de alta periculosidade. Os menos perigosos acabam sendo intimidados e forçados a atuar numa rede de crime, que se estende para fora dos presídios. É preciso separá-los e ressocializar esses presos menos perigosos, com os quais as leis acabam sendo mais duras enquanto os mais perigosos têm mais benefícios.
O ex-secretário aponta outras causas que levam os ataques a serem efetivados pelos criminosos e afirma que, sem uma mudança na estrutura da polícia, a sociedade continuará vivendo uma "guerra perdida".
— A falta de contingente e uma polícia temida pela população enfraquece ainda mais as ações. O modelo de policiamento por proximidade tem sido uma meta do governador do estado, mas vejo que há um boicote por puro desconhecimento. Esse modelo pode ajudar a reduzir de 40% a 70% da violência, mas enquanto continuarmos lutando uma guerra perdida não veremos efeitos. Temos que ter base de inteligência, planejamento cientifico, fazer o geoprocessamento do crime, de caráter preventivo, atentar para a "estética da violência" entre os mais jovens e notar onde ela se torna crime, para realizar ações que vão de melhoria na iluminação das vias até programas escolares sobre valores. E a aproximação com a população é essencial. É uma somatória de esforços. O crime tem essa rede de pessoas que ajuda a levar a informação que os criminosos querem para onde querem, mas a polícia não tem, porque a população ainda teme tanto o bandido quanto a polícia.
Há pelos menos 50 pessoas presas e apreendidas suspeitas de envolvimento nos ataques. A Polícia também apreendeu 30 coquetéis molotovs em uma casa abandona em Natal e três galões de combustível com os suspeitos. Já são 40 ataques registrados no Estado desde sexta-feira (29).
Foram confirmadas ações criminosas em onze cidades do estado: Natal, Parnamirim, Macaíba, São José de Mipibú, Caicó, Currais Novos, Caiçara do Norte, Santa Cruz, Mossoró, João Camara e Jardim de Piranhas. O aeroporto de Natal chegou a ser fechado por segurança.














