Economia Banco Central reconhece que Brasil passa por desaceleração do crédito

Banco Central reconhece que Brasil passa por desaceleração do crédito

Foi verificada uma desaceleração no crescimento do crédito nas diversas modalidades e uma deterioração nos preços dos ativos

Reuters
O presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto

O presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto

Adriano Machado/Reuters-15/02/2023

O Banco Central reconheceu na noite desta quinta-feira (2), em nota divulgada na internet, que o Brasil passa por uma desaceleração do crédito em diversas modalidades, no mesmo dia em que o presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, voltou a criticar a autoridade monetária e disse que "logo logo" o país pode sofrer uma crise nos financiamentos.

A nota do BC foi divulgada após a reunião do Comef (Comitê de Estabilidade Financeira), grupo formado pela cúpula da instituição que estabelece diretrizes para a manutenção da estabilidade financeira e prevenção a riscos sistêmicos.

O encontro desta quinta-feira contou com a participação do presidente do BC, Roberto Campos Neto, e com sete dos oito diretores da autarquia.

Conforme a instituição, o Comef verificou "uma desaceleração no crescimento do crédito nas diversas modalidades e uma deterioração nos preços dos ativos".

Ao mesmo tempo, o BC passou recomendações aos bancos na concessão de crédito.

"Diante dos riscos relacionados à atividade econômica e à redução da renda disponível para o pagamento de dívidas das famílias, é importante que os bancos sigam preservando a qualidade das concessões", pontuou o BC na nota.

De acordo com a autoridade monetária, os bancos em geral mantêm voluntariamente capital e liquidez em níveis superiores aos requeridos.

Os dados mais recentes do BC mostram que, em janeiro, o saldo total de crédito do sistema financeiro caiu 0,3% em relação a dezembro de 2022, para 5,317 trilhões de reais. No crédito livre (sem direcionamentos), o recuo foi de 0,9%. Estes números, divulgados no fim de fevereiro, foram tratados pelo BC como ajustes sazonais, o que não indicaria uma tendência de retração.

A avaliação desta quinta-feira do Comef surge em um dia em que Lula, em entrevista ao jornalista Reinaldo Azevedo, da BandNews, voltou a criticar Campos Neto e o atual nível dos juros. O presidente vem insitindo que a Selic - a taxa básica de juros, atualmente em 13,75% ao ano - tem prejudicado o crédito.

Apesar de citar a desaceleração nos financiamentos, o BC afirmou, na nota, que o sistema financeiro brasileiro está preparado para enfrentar riscos e tem provisões adequadas para perdas de crédito.

Ao mesmo tempo, o BC constatou incidentes em operações com empresas de pequeno porte e pessoas físicas, além de “casos pontuais” em empresas maiores.

“O Comitê considera que o sistema financeiro está preparado para enfrentar a materialização de riscos”, disse o BC. “A materialização do risco de crédito tem-se dado nas operações com micro e pequenas empresas, nas linhas de maior risco concedidas a pessoas físicas, além de casos pontuais em empresas de maior porte”, acrescentou, ressaltando que os bancos têm se mostrado capazes de absorver esses incidentes.

Agentes do mercado e do governo vêm acompanhando a evolução do crédito no país, diante do forte aperto monetário promovido pelo Banco Central, com temores ampliados após a crise da varejista Americanas.

“O Comitê acompanha a evolução do crédito amplo, incluindo os desdobramentos dos eventos recentes que afetaram os prêmios de risco no mercado de capitais”, pontuou o BC na nota, sem fazer especificações.

A nota ressaltou ainda que a política macroprudencial se mantém em posição neutra, “consistente com períodos sem acúmulo significativo de riscos financeiros". O comitê recomendou que os bancos persistam com a política de gestão de capital prudente por conta das incertezas econômicas.

“O Comitê está atento à evolução dos cenários doméstico e internacional e segue preparado para atuar, minimizando eventual contaminação desproporcional sobre os preços dos ativos locais”, afirmou.

Em sua reunião, o Comef decidiu ainda manter em 0% o Adicional Contracíclico de Capital Principal. O adicional é uma parcela do capital das instituições a ser acumulada em momentos de expansão do ciclo de crédito, tratando riscos do crédito e dos preços dos ativos.

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