Conhecido pelo vinho e pelo pisco, o Chile abraça a produção de gim
País sul-americano tem cerca de cem marcas do destilado, e muitas ganham reconhecimento internacional
Economia|Do R7

A Last Hope Distillery tem um dos únicos bares de coquetéis de verdade em Puerto Natales, cidade em forma de ferradura cercada por uma enseada onde venta muito, na Patagônia chilena. Os visitantes entram no estilo speakeasy (bar escondido com uma proposta mais intimista e exclusiva), penduram o casaco e se acomodam no bar. O garçom coloca o copo na mesa e diz: "Oi. Você já provou gim?"
A pergunta pode surpreender os turistas, já que muitos deles — vindos de outros países para fazer trilha no Parque Nacional Torres del Paine, perto dali — estão familiarizados com a bebida destilada do zimbro. Mas, como o gim é algo novo para muitos chilenos, os garçons da Last Hope não fazem suposições.
A abordagem começou por necessidade, contou Kiera Shiels, que se mudou da Austrália para o Chile com seu companheiro, Matt Oberg, e abriu o bar. Os clientes apareciam sem saber o que esperar. "Eles nunca tinham tomado gim; não tinham nem o habito de tomar coquetéis."
Uma das primeiras destilarias da bebida no Chile, a Last Hope começou a vendê-la em 2017. Mas a indústria do gim explodiu no país nos últimos anos. Da Last Hope (no sul) à Gin Nativo (no norte), existem hoje cerca de cem marcas do destilado no Chile, e muitas estão ganhando reconhecimento internacional.
Só no ano passado, a bebida produzida pela Gin Elemental, destilada nos arredores de Santiago, recebeu medalha de ouro no SIP Awards, concurso internacional de destilados julgado por consumidores, entre outros prêmios. O Gin Provincia, produzido na região vinícola do Chile, fez a segunda maior pontuação na London Spirits Competition, um de seus feitos. E um dos vários prêmios do Tepaluma Gin, das terras altas e florestas tropicais da Patagônia, foi o ouro na International Wine and Spirit Competition.
"Vai vir muito mais do Chile. Quer o mundo nos conheça, quer não, estamos chegando", afirmou Andrea Zavala Peña, que fundou a Tepaluma Gin – uma das primeiras destilarias do país – com seu marido, Mark Abernethy, em 2017.
'A natureza tem gosto especial'
Cinquenta anos depois do golpe que instituiu uma ditadura brutal que durou 17 anos, e só quatro anos depois da eclosão de manifestações em massa, o Chile continua lidando com divisões sociais profundas. Mas o país tem trabalhado duro para recuperar sua reputação internacional.
Conhecido há muito tempo pelo vinho, o Chile se tornou destino consagrado para viagens de aventura, depois que expandiu seus parques naturais e atraiu mais visitantes para a Patagônia. O gim chileno, segundo seus produtores, pode fazer uma ponte entre essas duas estratégias de marketing, sedimentando a reputação do país de fabricar bebidas alcoólicas diferenciadas e engarrafar sua natureza selvagem. "Temos uma das últimas áreas selvagens do mundo, e a natureza tem um gosto especial", comentou Zavala Peña.
Cercado pelo Deserto do Atacama, com a Patagônia ao sul e espremido entre a Cordilheira dos Andes e o Oceano Pacífico, o Chile é pródigo em diversidade natural. As destilarias de gim do país não estão só interessadas em produzir o melhor London Dry; também estão tentando fazer um destilado que tenha o sabor do Chile. "Queremos espalhar nossos sabores, por isso estamos usando ervas nativas", disse Teresa Undurraga, diretora da Associação Chilena de Gim e uma das fundadoras da destilaria Destilados Quintal.
O gim é uma base alcoólica ideal; o destilado neutro extraído do zimbro absorve o sabor dos ingredientes incorporados. As destilarias do país esperam que a infusão de ervas e frutas vermelhas sirva como passaporte – um convite para visitar, ver e saborear. Na verdade, muitas importam o álcool, por ser mais fácil e barato – mas dizem que o que acrescentam à base é o que vale. "É como uma pintura", comparou Gustavo Carvallo, cofundador da Gin Provincia, olhando para o famoso Vale do Colchagua, que circunda a destilaria. O álcool feito de milho, que ele importa dos Estados Unidos, serve como tela. "Todos os vegetais são as cores."
Além da 'Ginaissance'
A indústria em expansão do gim chileno coincide com o que pode ser o fim do seu renascimento global, às vezes chamado de "Ginaissance", que começou na Grã-Bretanha mais de uma década atrás, parcialmente influenciado pelo movimento de destilação artesanal americano.
A bebida já foi considerada antiquada – resquício de quando os britânicos a usavam para tentar evitar a malária. Mas experimentos internacionais renovaram sua reputação. Existem destilarias na Espanha, na Índia, na África do Sul, na Austrália, no Brasil e no Vietnã, entre outros países. E agora o gim é considerado sofisticado, até mundano. A busca do Velho Mundo pelo quinino foi revigorada por seus novos devotos cosmopolitas.
Como muitas bebidas alcoólicas, o gim pode "capturar um senso de lugar", observou David T. Smith, presidente do World Gin Awards e autor de vários livros sobre a bebida, incluindo "The Gin Dictionary". Mas geralmente é mais fácil – e mais barato – produzi-lo do que outros destilados, o que explica em parte o crescimento tão rápido da indústria no país.
Gim x pisco, uísque e vinho
O gim chileno enfrenta forte concorrência das três bebidas alcoólicas mais amadas do país: o pisco, o uísque e o vinho. Mas a produção do gim tem vantagens práticas.
A primeira é a acessibilidade. O pisco vem de regiões específicas do Chile e do Peru. (De certa maneira, é um pouco parecido com o champanhe e o parmesão). O gim, não: é um destilado que pode ser feito em todos os lugares, o que o torna uma bebida de qualquer lugar, que qualquer um pode produzir. "A receita para a fabricação do gim é infinitamente adaptável, por isso você pode fazê-lo como quiser", frisou Henry Jeffreys, escritor britânico especialista em bebidas.
A segunda é o tempo. Considerado o destilado mais sofisticado por muitos chilenos, o uísque demora anos para ser maturado nos barris, enquanto o gim pode ficar pronto dias depois de ser produzido.
Os visitantes da Last Hope Distillery, por exemplo, podem saborear coquetéis de gim Last Hope enquanto se debruçam sobre barris de carvalho para sentir o aroma do primeiro lote de uísque Last Hope – que ainda vai levar anos para chegar ao mercado.
A terceira é a despretensão. O vinho e o uísque exigem refinamento; só alguém com certo treinamento consegue discernir as diferentes origens da bebida tomando um gole só. Não é o caso do gim: os vegetais sobressaem, se destacam, são fáceis de reconhecer e compreender. Até o repórter mais inexperiente, quando bebe um gim-tônica depois de um dia longo de mochilão pela Patagônia, pode provar diferentes sabores – muitos dos quais cultivados perto das próprias destilarias.
Carvallo colhe boldo de um arbusto a poucos passos da destilaria. (Os chilenos usam chá de boldo como medicamento para várias doenças, incluindo dor de estômago.) "Isso é o que nos move; estamos tentando divulgar a botânica e a cultura do Chile", disse, esfregando uma folha entre os dedos.













