Metade das vagas para deficientes nas empresas está desocupada

Companhias que não cumprem meta determinada por lei estão sujeitas a multas que podem chegar a R$ 241.126,88

Dados foram coletados da Rais

Dados foram coletados da Rais

Pixabay

O número de vagas PCD (para pessoas com deficiência) ocupadas cresceu de 2014 a 2018, mas cerca de metade (49,4%) das oportunidades disponíveis continua desocupada, segundo dados enviados ao R7 pela Secretaria Especial de Previdência e Trabalho.

Os dados incluem oportunidades na administração pública, empresas públicas, sociedades e economia mista e empresas privadas coletadas pela Rais (Relação Anual das Informações Sociais).

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Nos quatro anos, as vagas ocupadas cresceram 25,53% — passaram de 309.999 em 2014 para 389.165 em 2018. No entanto, o número de vagas disponíveis diminuiu 11% no período — de 853.724 para 768.723.

Em 2014, as vagas ocupadas representavam 36,3% do total, enquanto em 2018 o percentual saltou para 50,6%.

Arte/ R7

A presidente da PWN São Paulo e cientista de dados do Great Place to Work, Lina Nakata, afirma que “apesar de ter aumentado, não se cumpre a meta. As empresas, nos últimos anos, têm melhorado a parte da inclusão”.

Para ela, o preconceito ainda é existente. “Nem sempre os gestores estão preparados, por não conviverem por este tipo de condição”, afirma.

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A gerente sênior da Catho, Bianca Machado, diz que a falta de informação impacta desde o processo seletivo até o dia a dia do profissional. “Tem uma questão de desconhecimento em como recrutar a pessoa com deficiência, quais os tipos de pergunta que são de bom tom, como identificar as particularidades da pessoa”, explica.

Alvaro é assistente de conteúdo web

Alvaro é assistente de conteúdo web

Divulgação/ Acervo Pessoal

O assistente de conteúdo web da Catho Alvaro Zermiani é cego e relata que já sofreu preconceito em processos seletivos. Para ele, quando a deficiência é mais extrema – como pessoas que não enxergam ou não escutam nada — as dificuldades aumentam ainda mais.

“Às vezes me ligavam e falavam sobre só ter escadas [na empresa]. Se não tem elevador, eu subo escada. As pessoas têm medo e falta de informação [sobre deficiências]”, afirma. Segundo Zermiani, no seu caso, é possível trabalhar de forma bastante autônoma se for disponibilizado um computador com leitor de tela (programa gratuito), que utiliza em suas funções na Catho.

Considerando a acessibilidade arquitetônica, o assistente diz que alguns equipamentos ajudam no dia a dia, como o piso tátil, mas não são imprescindíveis no seu caso. “Se for pensar de acessibilidade arquitetônica a gente não consegue nem sair de casa”, afirma, explicando que a cidade não é 100% planejada para pessoas com deficiência.

Zermiani está empregado desde março deste ano e participa de um grupo de pessoas na empresa que discutem sobre ideias e sugestões de como melhorar a inclusão e estimular a diversidade na companhia.

Alessandra trabalha em uma unidade de Santos

Alessandra trabalha em uma unidade de Santos

Divulgação/ Acervo Pessoal

A instrutora do Burger King Alessandra Barbosa Nogueira é uma pessoa com deficiência física e trabalha há 11 anos na companhia. Antes de ser contratada, ficou oito meses procurando um emprego.

“Alguns chegaram a falar que não contratavam pessoas especiais, mas não parei de procurar. Fiquei na esperança”
Alessandra Barbosa Nogueira

Hoje em dia, Nogueira diz que não precisa de nenhum equipamento de acessibilidade específico para trabalhar. Em seu dia a dia, a única exigência é passar com uma psicóloga, responsável por ajudar no dia a dia do trabalho.

Nakata diz que as empresas vêm trabalhando para a inclusão e que este movimento é resultado das multas do não cumprimento do número mínimo de funcionários, garantida pela lei número 8213/91, e pela inclusão em si. “O que a gente costuma dizer é que o importante não é só cumprir as vagas, mas promover a qualidade delas. Que [o funcionário] tenha oportunidade de desenvolvimento, que seja bem tratado”, explica.

Arte/ R7

Segundo a Secretaria Especial de Previdência e Trabalho, as empresas que não cumprem a legislação estão sujeitas a multas que variam de R$ 2.411,28 a R$ 241.126,88.

“O valor exato varia de acordo com o porte da empresa (número total de empregados) e com o número de vagas reservadas para PCD/reabilitados não preenchidas. A multa é aplicada somente após processo administrativo, em que é garantida ao empregador a ampla defesa e o contraditório”, afirma o órgão.

Falta de informação

A falta de informação é uma grande barreira para a inclusão no mercado de trabalho. Para evitar este tipo de conduta, Nakata orienta que as empresas promovam conversas com os funcionários sobre o tema, com criação de grupos de discussão e apresentação de cases de sucesso da própria companhia.

“As empresas costumam dizer que não contratam por falta de qualificação, mas não é o que acontece”, afirma. 

Machado diz que é importante que a empresa contrate consultorias especializadas para criar um ambiente adaptado aos funcionários com deficiência. “A atração do candidato da PCD requer muito mais conhecimento até a retenção desse talento. É importante a análise das habilidades versus o perfil ideal”, explica.