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"Morar em favela é melhor hoje do que nos tempos de meus pais", diz morador 

Ele mora em grande comunidade de Mauá e experimenta as vantagens e desvantagens do local

Economia|Eugenio Goussinsky, do R7

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Favela Pedreirinha é uma das mais conhecidas de Mauá
Favela Pedreirinha é uma das mais conhecidas de Mauá

A rotina de Sérgio Santos Aleixo não é diferente da maioria dos habitantes de favelas no Brasil. Morando na favela de Pedreirinha, uma das mais famosas em Mauá, no ABC paulista, ele praticamente não conhece outra forma de vida. 

Nasceu e cresceu entre alvenaria sem acabamento, barracos, ruelas e luta diária pela sobrevivência, mas também em rodas comunitárias, recheadas de amizade e alegria. Em comparação com seus pais, com quem divide uma pequena moradia na localidade, ele se considera um privilegiado.


— Hoje em dia, mesmo com dificuldades, está melhor morar na favela do que nos tempos em que meus pais eram mais jovens.

Por dificuldades, ele destaca a instabilidade que é viver em uma comunidade desse tipo. Nesse sentido, sua situação se assemelha à de muitos moradores de favela que, após um período de consumo acima da média, ficaram endividados.


No Brasil, um em cada três moradores de favelas está endividado

—Na favela existe falta de emprego, muita gente perde o trabalho, depois de atividades temporárias, e as contas para pagar vão aumentando. Quando se encontra de novo trabalho, tudo começa a voltar ao normal.


Segundo levantamento do Instituto Data Favela, com apoio do Data Popular e da Cufa (Central Única das Favelas), a ser divulgado nesta terça (3), o número de endividados nas favelas subiu de 27% em 2013 para 35% em 2015. 

Sérgio sabe bem como é essa situação. Após dois meses parado, ele está entusiasmado porque voltará a trabalhar nesta segunda, pela empresa de saneamento de Mauá, a Sama, como operador de máquina. 


Seu primeiro contrato como temporário havia vencido em dezembro e ele estava preocupado, já que gastou a mais nas comemorações de fim de ano, chegando a dever algo em torno de R$ 4.000. Agora, ele diz que, apesar de não ser muito, o salário de R$ 1.790 que ele irá receber, mais refeição e convênio médico, irá ajudá-lo.

—Não é muito, mas tem muito pai de família que não ganha isso. Agora vou voltar a me estruturar, pagar as dívidas em parcelas. Comprei roupas, comidas para as festas e ainda tenho quatro filhos, que moram com minha ex-mulher, na zona leste de São Paulo.

Foi em uma favela da região paulistana, em que ele cresceu ao lado de dois irmãos, que ele viu muitos de seus amigos se perderem no mundo da criminalidade. Sérgio tem consciência de que a violência ainda é uma realidade nesses tipos de comunidades, apesar de dizer que a sua, atual, é mais tranquila.

— Dos meus amigos de infância, a maioria virou ladrão. Ou foram presos ou morreram. O lado bom de tudo isso é que eu não embarquei na deles. Sinto muito por eles, são meus amigos, mas não pude acompanhá-los neste tipo de vida.

Uma das coisas que ele se arrepende é ter parado os estudos na oitava série. Mas fazer o que, se a vida exigia sustento vindo do trabalho? Agora ele até está procurando uma vaga em um curso técnico, para conciliar com o trabalho.

Receoso, no início Sérgio sempre se referia ao local em que mora como comunidade. Depois, foi se soltando e admitiu que não se incomoda, e até prefere, chamá-lo de favela, da mesma maneira que a grande maioria dos seus moradores. Já descontraído, ele foi mais além.

—Tenho orgulho em dizer que moro na favela. Mas quer saber? Eu chamo mesmo é de quebrada...

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