Economia O que a Americanas pode vender na recuperação judicial para sair da crise?

O que a Americanas pode vender na recuperação judicial para sair da crise?

A venda de ativos é uma das opções para a varejista, que tem uma gama variada de negócios, mas ainda há desafios a ser superados

Agência Estado - Economia
Americanas deve mais de R$ 40 bilhões a vários credores

Americanas deve mais de R$ 40 bilhões a vários credores

Edu Garcia/R7 - 20.01.2023

Para pagar parte de sua dívida, uma das estratégias que poderão ser adotadas pela Americanas é a venda de ativos. É o que fez, por exemplo, a operadora de telecomunicações Oi, que saiu recentemente de uma recuperação judicial — e está prestes a entrar em outra.

Segundo especialistas, com uma gama variada de negócios, que inclui marcas importantes como Submarino, ShopTime e Ame, a Americanas tem na venda de ativos uma das opções à mesa. Mas há desafios a ser superados, mesmo nesse caso.

A varejista deu início ao processo de recuperação judicial em 19 de janeiro, ao declarar uma dívida de mais de R$ 40 bilhões com vários credores, como bancos, fabricantes de eletrônicos e fornecedores de chocolate.

Com o processo de recuperação aceito pela Justiça, a empresa passará pelos ritos tradicionais, com a apresentação de um plano de pagamento das dívidas após 60 dias, a ser votado numa assembleia de credores. Esse plano pode incluir a injeção de capital por parte dos sócios ou a venda de bens.

Em 2021, a Americanas uniu negócios com a B2W, que operava o comércio eletrônico da varejista, assim como as marcas Submarino, ShopTime e AME. Além disso, a rede de varejo popular também comprou o hortifrúti Natural da Terra no mesmo ano, em um acordo de valor estimado em R$ 2,1 bilhões.

As marcas do grupo Americanas:

- Lojas Americanas

- Americanas Express (versão menor das lojas físicas)

- Americanas.com (loja online)

- Americanas Empresas (e-commerce de vendas do tipo B2B, business-to-business)

- Submarino (e-commerce)

- Shoptime (canal de vendas para artigos da casa)

- Local (lojas de conveniência)

- Vem Conveniência (lojas de conveniência)

- Digital (lojas menores que as de conveniência)

- Natural da Terra (rede varejista especializada em frutas, verduras e legumes)

- AME (fintech e plataforma de negócios mobile)

- AME GO (lojas sem atendimento, com pagamento por meio de inteligência artificial)

- Let's (plataforma de gestão compartilhada)

- +Aqui (plataforma para serviços de crédito, seguros, cartões de conteúdos e venda assistida)

- Grupo Uni.co (dono das marcas Puket, Imaginarium, MindD e Lovebrands)

Para Eduardo Yamashita, diretor de operações na Gouvêa Consulting, a Americanas vai enfrentar um cenário de mercado desfavorável durante a sua recuperação, especialmente devido aos problemas financeiros, que devem dificultar a aquisição de mercadorias.

"Os fornecedores serão muito mais duros nas negociações, o que vai reduzir a oferta de produtos, e a demanda do consumidor vai cair. As outras varejistas veem isso como oportunidade", afirma ele.

Yamashita vê possibilidades de vendas de ativos como dados anônimos de perfil de consumo de clientes, imóveis e marcas, como a carteira digital AME. "Existem ativos que podem ser monetizados, mas estão fazendo avaliação interna."

Renato Leopoldo e Silva, líder de contencioso empresarial cível, recuperação de empresas e arbitragem do escritório Donelli Abreu Sodré e Nicolai Advogados, diz que casos de recuperação judicial como o da Americanas tendem a permitir a criatividade na quitação de débitos.

"A lei é aberta. Dentro da legalidade, a Americanas tem diversas opções para apresentar formas de pagamento, como venda de ativos e aumento de capital. É comum a empresa negociar com seus credores algo que seja factível para lidar com as dívidas contraídas após o pedido de recuperação judicial", destaca.

Filipe Denki, sócio do escritório Lara Martins Advogados e diretor da Comissão de Recuperação de Empresas e Falência do Conselho Federal da OAB, vê o caso da Americanas como "delicado", uma vez que a empresa tem ações negociadas na bolsa de valores, e a injeção de capital se mostra necessária diante do caixa estimado de R$ 800 milhões.

"As demissões em massa serão inevitáveis, por causa da redução de lojas. Fora isso, deve ocorrer o fatiamento da Americanas para evitar que todas as unidades de negócios sejam afetadas. No plano de recuperação judicial, a empresa pode prever unidades produtivas isoladas, que podem ser vendidas. É um processo de cisão. No caso da Oi, a telefonia celular foi vendida para operadoras, e o negócio de fibra óptica foi para o BTG", diz.

Denki lembra que o caso recente mais comparável ao da Americanas é o da Ricardo Eletro. A varejista precisou fechar todas as lojas físicas e demitir milhares de funcionários, tendo ficado apenas com o seu site de comércio eletrônico. Como adiantou o Estadão, a empresa agora já planeja a abertura das primeiras cinco lojas.

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