Parceria do Brasil com a Índia surge como ‘terceira via’ em meio à tensão entre EUA e China
Viagem de Lula a Nova Déli nos últimos dias fortaleceu aproximação do Brasil com o país asiático
Economia|Bruna Pauxis, do R7, em Brasília
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Nos últimos dias, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e uma comitiva do governo brasileiro participaram de uma série de reuniões com autoridades da Índia, firmando parcerias para fortalecer as relações comerciais e econômicas entre os países. Na avaliação de especialistas ouvidos pelo R7, essa aproximação pode ampliar a margem de manobra diplomática e econômica brasileira em meio à crescente rivalidade entre Estados Unidos e China.
Para analistas, a estratégia reforça um movimento de “multialinhamento”, no qual o Brasil busca diversificar parceiros estratégicos para reduzir vulnerabilidades externas e ganhar maior resiliência diante de crises internacionais (leia mais abaixo).
Durante a visita oficial, a comitiva do presidente avançou em frentes estratégicas nas áreas de saúde, comércio exterior e agricultura, com foco na ampliação da cooperação tecnológica e no fortalecimento da produção nacional.
No campo econômico, Lula participou, em Nova Déli, da inauguração do novo escritório da ApexBrasil (Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos), o primeiro da entidade na capital indiana. A iniciativa pretende ampliar a presença brasileira em um mercado considerado estratégico.
Segundo o governo, foram identificadas 378 oportunidades de exportação para setores como minerais, alimentos, máquinas, saúde e energias renováveis. Em 2025, o comércio entre Brasil e Índia atingiu US$ 15 bilhões, recorde da série histórica, e a meta é chegar a US$ 20 bilhões até 2030.
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O ministro da Saúde, Alexandre Padilha, teve reuniões com ministros indianos para avançar em parcerias na produção de medicamentos, vacinas e tecnologias para o SUS. O governo brasileiro também convidou a Índia a discutir cooperação em saúde digital, inteligência artificial e a criação de uma biblioteca digital de medicina tradicional.
Além disso, ele visitou o parque industrial de uma farmacêutica indiana para conhecer a produção de medicamentos biológicos e biossimilares de alta complexidade, como tratamentos para câncer e fármacos à base de GLP-1, utilizados contra diabetes e obesidade. A aproximação, segundo o governo, busca viabilizar parcerias para transferência de tecnologia e produção desses medicamentos no Brasil, ampliando o acesso no SUS e reduzindo a dependência externa.
A comitiva brasileira também teve conversas com autoridades da Índia sobre bioinsumos, mecanização e inteligência artificial aplicada ao campo. O intercâmbio tecnológico deve envolver instituições como a Embrapa e o Instituto de Pesquisa Agrícola Indiano, além de negociações para ampliar o comércio de produtos agropecuários entre os dois países.
Essa foi a segunda vez que Lula visitou a Índia no atual mandato. O convite foi feito após o presidente brasileiro receber, em 2025, o primeiro-ministro Narendra Modi.
Em entrevista a uma TV indiana, Lula frisou que o Brasil não pode depender apenas dos Estados Unidos e China para questões comerciais. “Queremos que nossas economias cresçam, porque, se crescerem, o fluxo de comércio também crescerá, e isso será bom para a Índia e será bom para o Brasil”, destacou.
Multialinhamento: neutralidade ou equilíbrio?
Para o cientista político e vice-reitor do Centro Universitário UniProcessus, Gustavo Castro, a aproximação com a Índia é uma tentativa de o Brasil “escapar da armadilha” de ser pressionado ou alinhar-se no conflito entre os EUA e a China.
O pesquisador atenta, porém, que a parceria não fará com que o mercado brasileiro deixe de depender do chinês, nem do sistema financeiro internacional ancorado nos EUA.
“O que está em jogo não é independência absoluta, algo irrealista, mas uma margem de manobra. A Índia, sob a liderança de Narendra Modi, consolidou uma política externa baseada no pragmatismo. Coopera com Washington quando lhe convém, mantém relações estratégicas com Moscou, participa ativamente dos Brics e amplia sua projeção no Indo-Pacífico. Esse modelo, chamado de multialinhamento, não é neutralidade passiva. É cálculo de poder”, defende.
Castro explica que a estratégia de multialinhamento oferece ao Itamaraty uma alternativa realista: cooperar com EUA e China, sem exclusividade com nenhum. A manobra, porém, não significa neutralidade, mas capacidade econômica, tecnológica e diplomática para sustentar a posição de equilíbrio entre os conflitos internacionais.
“A pressão para escolher entre Washington e Pequim é crescente. Sob a eventual volta de Donald Trump à Casa Branca, essa lógica tende a se intensificar, com exigências de lealdade estratégica especialmente em áreas sensíveis como tecnologia, minerais críticos e cadeias produtivas. A China, por sua vez, amplia sua presença econômica, mas cobra alinhamentos políticos implícitos”, afirma.
“O multialinhamento exige firmeza. Não basta declarar neutralidade. É preciso ter capacidade econômica, tecnológica e diplomática para sustentar essa posição”, completa.
Brasil e o ocidente
O professor de direito internacional Paulo Henrique Portela completa o raciocínio, ao pontuar que a estratégia internacional aumenta a independência do país e também sua resiliência perante possíveis imprevistos.
“O multialinhamento evita que um país se torne muito dependente do relacionamento com outro. Imagine, por exemplo, o caso do México, que tem cerca de 75% do volume de suas exportações destinadas aos EUA. Uma eventual crise na economia americana ou um problema no relacionamento entre os dois países pode ter graves consequências para a economia mexicana”, explica Portela, que aponta a relevância da aproximação do Brasil com a Índia, país que hoje tem a maior população do mundo e posição geopolítica de destaque.
Segundo o professor, a aliança com a Índia é importante não apenas para evitar contornar restrições como as impostas pelo governo de Donald Trump, por exemplo, mas de qualquer outro país. Além disso, a parceria aponta para a inevitabilidade do diálogo internacional.
“Até agora, o Brasil tem-se mantido equidistante dos conflitos entre o Ocidente e a Rússia. É possível que a relação tranquila com o governo Putin tenha causado prejuízos ao país, como quando a empresa aérea polonesa LOT interrompeu uma longa relação comercial com a Embraer. No entanto, a própria Europa está caminhando para conscientizar-se de que precisará dialogar com a Rússia, sem o que o território europeu viverá tensões de contornos imprevisíveis”, analisa.
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