Economia Volume de chuvas vai determinar risco de apagão no 2º semestre

Volume de chuvas vai determinar risco de apagão no 2º semestre

Mesmo com sistema mais aprimorado, especialistas não descartam interrupção de energia similar ao que ocorreu em 2001

  • Economia | Alexandre Garcia, do R7

Em 2001, mais de 90% da geração de energia era produzida nas hidrelétricas

Em 2001, mais de 90% da geração de energia era produzida nas hidrelétricas

ANDRE FELICIANO/ESTADÃO CONTEÚDO - 10.6.2001

O fantasma de um novo apagão energético no Brasil, como o que ocorreu em 2001, voltou a assombrar a população devido ao baixo volume dos reservatórios e a escassez de chuvas para reverter a situação.

Apesar da evolução do sistema em relação há 20 anos, quando 90% da geração de energia era proveniente das hidrelétricas, especialistas que acompanham o setor garantem que o risco de uma nova interrupção é uma realidade a partir do segundo semestre, a depender da capacidade das chuvas para reverter a pior crise hídrica dos últimos 91 anos.

O pesquisador sênior no núcleo de energia da FGV (Fundação Getulio Vargas), João Teles, diz que o sistema interligado de abastecimento nacional opera atualmente com 42% da capacidade e alerta para a possibilidade de o Brasil ingressar no próximo ano com um nível insuficiente para iniciar 2022, o que pode resultar no temido apagão.

"Decretar um racionamento durante uma estação seca é ineficaz, porque há pouco tempo para se economizar. Deve-se esperar as chuvas até fevereiro e, se a situação permanecer muito crítica, é possível recorrer pelo racionamento", explicou Teles ao observar uma maior possibilidade de interrupção no próximo ano. "Existe esse risco [de apagão] para 2022", afirma ele.

O diretor do CBIE (Centro Brasileiro de Infraestrutura), Adriano Pires, se diz otimista, mas não descarta a necessidade das medidas rígidas de corte na transmissão de energia já nos últimos meses deste ano. "A gente sabe que o risco é muito grande. Talvez a primeira coisa que vai acontecer é o corte de carga, de uma ou duas horas, mediante à possibilidade de não existir capacidade para atender os picos de energia durante determinados dias quentes", avalia ele ao prever os meses de setembro e outubro "com muita emoção" diante da chance de déficit de energia.

Para 2022, Pires reforça a permanência do problema e destaca alerta para a necessidade de se atentar para a velocidade da recuperação econômica, o que pode agravar ainda mais a situação se o período chuvoso não garantir o abastecimento necessário. "Só não tivemos problemas mais graves de falta de energia nos últimos 10 anos porque a economia cresce em ritmo inferior a 1% ao ano", observa.

Diante da possibilidade de precisar interromper a transmissão de energia, o governo federal se movimenta com ações na tentativa de incentivar o consumo consciente e prepara uma MP (Medida Provisória) que pode abrir caminho para um eventual racionamento de energia.

Para Teles, a adoção de medidas mais drásticas para controlar o uso de energia, como as que podem ser trazidas pela MP, são bem-vindas no momento atual. "Quando você está em uma crise, é preciso tomar as rédeas e ser forte. Eu acredito que é uma coisa que tem que ser feita para administrar a situação", pontua o pesquisador.

Pires partilha da mesma ideia e destaca o uso da bandeira vermelha nível dois, a ativação das térmicas, a criação de um comitê de crise para gerenciar as bacias e as conversas com a indústria para controlar a demanda, apesar de reconhecer que as medidas foram adotadas tardiamente, "A curto prazo não tem muito o que fazer. Resta aguardar para ver o que vai acontecer", afirma.

O ONS (Operador Nacional do Sistema Elétrico), responsável pelo abastecimento de 99% da energia elétrica consumida no Brasil, diz que tem alertado a respeito da situação hídrica nacional desde o ano passado. O órgão, no entanto, nega o risco de desabastecimento neste ano.

"Estamos operando o sistema elétrico brasileiro num cenário desafiador e temos a certeza de que estamos conduzindo a operação de forma bastante segura e compatível com a demanda elétrica da sociedade brasileira", analisa a ONS.

Evolução do sistema elétrico pode não impedir necessidade de novo apagão

Evolução do sistema elétrico pode não impedir necessidade de novo apagão

LUIS MOURA/WPP/ESTADÃO CONTEÚDO - 11.6.2020

O Ministério do Minas e Energia afirma que as instituições do setor energético trabalham "incessantemente" para garantir o abastecimento de energia a todos brasileiros em meio à pior crise hídrica da história. "O governo federal, em coordenação com os entes federativos, vem explorando todas as medidas ao seu alcance que nos permitirão passar o período seco de 2021 sem impor aos brasileiros um programa de racionamento de energia elétrica", afirma a pasta.

"Embora a hidroeletricidade ainda seja a principal fonte de geração [de energia] no Brasil, sua participação na matriz elétrica brasileira tem cedido espaço a outras, desde os anos 2000, em uma estratégia intencional de diversificação, buscando reduzir a dependência da hidroeletricidade, uma das principais vulnerabilidades identificadas no racionamento observado em 2001", completa o Ministério de Minas e Energia na nota enviada ao R7.

Teles, da FGV Energia, recorda que o sistema era muito despreparado há 20 anos. "Tínhamos problemas de transmissão, havia atraso de obras e existia a dependência de 90% das hidrelétricas. Agora, desde 2015 enfrentamos baixos níveis de armazenamento, mas o sistema não entrou em colapso pela inserção das matrizes renováveis", destaca o pesquisador ao citar a presença da geração eólica e da biomassa no sistema atual.

Os avanços no sistema, no entanto, não reverteram a dependência de recursos climáticos — como sol, vento e água — para garantir energia elétrica aos brasileiros, conforme lamenta Pires. "Prever o clima é uma coisa cada vez mais imprevisível em função das mudanças climáticas. [...] Para parar com esse sobressalto que gera pesadelos todos os anos, a solução é construir uma matriz elétrica mais equilibrada, com fontes que deem mais confiabilidade, que são as usinas térmicas e a gás”, orienta o diretor do CBIE.

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