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‘Escola sem professores’: educação com IA é o futuro do ensino ou uma aposta arriscada?

Em instituição nos EUA, alunos aprendem conteúdos acadêmicos com ‘guias’ humanos de inteligência artificial

Educação|Sunlen Serfaty, Linda Gaudino e Nicky Robertson, da CNN Internacional

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LEIA AQUI O RESUMO DA NOTÍCIA

  • A Alpha é uma rede de escolas privadas nos EUA que usa IA para o ensino, com foco em aprendizado sem professores humanos.
  • O modelo educacional é controverso, com experiências mistas de alunos e pais, incluindo críticas sobre estresse e dependência excessiva de tecnologia.
  • Alguns pais relataram resultados positivos, enquanto outros levantaram preocupações sobre a eficácia do ensino e saúde mental dos alunos.
  • A Alpha defende sua abordagem, alegando que seus alunos têm desempenho superior, mas enfrenta críticas pela falta de transparência e pesquisa independente sobre seus métodos.

Produzido pela Ri7a - a Inteligência Artificial do R7

O uso de IA está cada vez mais comum na educação Jason Lancaster/CNN/Getty Images via CNN Internacional

Crianças falantes e de olhos brilhantes cercavam a secretária de Educação dos Estados Unidos, Linda McMahon, enquanto ela caminhava com elas por um prédio amplo e iluminado no Texas.

Parte de uma turnê pelos 50 estados, essa parada no ano passado foi em uma instituição incomum: o campus de Austin da Alpha, uma rede de escolas privadas que educa alunos do jardim de infância ao ensino médio usando IA (inteligência artificial) para acelerar o ensino das disciplinas acadêmicas centrais em apenas duas horas por dia.


A ênfase está no aprendizado por meio de IA, e não de professores humanos. Não há dever de casa nem livros didáticos — apenas softwares que os alunos usam todas as manhãs para aprender, com “guias” humanos responsáveis por motivação e apoio em sala.

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Um dia típico começa pouco antes das 9h, com uma atividade em grupo que introduz uma habilidade de vida a ser trabalhada ao longo do dia.


Em seguida, os alunos se sentam diante de laptops, colocam fones de ouvido ou até óculos de realidade virtual e aprendem conteúdos acadêmicos com um tutor de IA.

O currículo de duas horas inclui quatro sessões de 30 minutos em matemática, ciências, estudos sociais e linguagem, além de 20 minutos de conceitos adicionais de aprendizagem, como técnicas de realização de provas.


O restante do dia é dedicado a oficinas como educação financeira, comunicação ou resolução de problemas.

“Há tanta coisa para fazer, tanta oportunidade, que estou vendo aqui”, declarou McMahon durante a visita, em uma mesa-redonda com estudantes e MacKenzie Price, uma das fundadoras da Alpha e seu rosto público.


Muito se tem falado sobre a promessa da inteligência artificial para todos os aspectos da vida, e a educação não é exceção.

Pioneirismo norte-americano

O governo Trump afirmou que quer ser pioneiro em novos usos de IA nas escolas, e McMahon tem apresentado a Alpha — cuja rede se estende por mais de uma dúzia de localidades nos EUA — como um exemplo de para onde a educação deveria caminhar.

Fundada em 2014, em Austin, com o apoio de um bilionário do setor de tecnologia, a ascensão da Alpha coincidiu com avanços significativos nas capacidades da inteligência artificial.

Ao mesmo tempo, o sistema educacional americano enfrenta sérias rupturas e desafios — as avaliações nacionais mais recentes mostram que as notas em matemática e leitura continuam caindo, como parte de uma queda que já dura uma década.

Nesse contexto, pais de todo o país vêm buscando alternativas às escolas públicas tradicionais.

Com a IA já cada vez mais comum na educação — 6 em cada 10 professores usaram alguma ferramenta de IA no ano letivo de 2024–2025, segundo uma pesquisa da Walton Family Foundation com o Gallup — recorrer a um modelo de aprendizagem liderado por IA parece, para alguns, uma opção de ponta.

Alguns pais afirmam que suas experiências com a Alpha corresponderam à promessa de oferecer uma educação nova, empolgante e melhor para seus filhos. O ritmo personalizado de ensino, as habilidades práticas e os incentivos estão entre os pontos positivos destacados.

Mas para outros pais que aderiram à Alpha no passado, essa forma incomum e pouco testada de escolarização se mostrou problemática.

A segunda escola aberta pela Alpha, em Brownsville, no Texas, enfrentou questionamentos sérios de alguns pais que matricularam seus filhos nos primeiros anos após a abertura, em 2022.

De acordo com documentos e comunicações do ano letivo de 2023–2024 analisados pela CNN, cerca de meia dúzia de famílias levantaram preocupações sobre a eficácia do modelo de ensino e sobre a ansiedade que a cultura da escola e as metas de aprendizagem definidas pela IA estavam causando em seus filhos.

Alguns alunos estavam “extremamente estressados” e, ainda assim, a escola os apresentava como “modelo” e “prova de que a Alpha funciona”, disse Jessica Lopez, uma das mães mais críticas, à CNN. Ela retirou suas duas filhas da escola em 2024.

“Percebi que a escola não era a escolha certa para nós”, escreveu Lopez a Price na época, citando como problemas a dependência de aplicativos como únicos professores, a falta de apoio de educadores humanos e as longas e punitivas horas que as crianças mantinham para cumprir métricas definidas pela IA.

A Alpha negou qualquer ligação entre suas escolas e ansiedade infantil e afirmou que a unidade de Brownsville mudou desde o modelo híbrido com ensino domiciliar, que classificou como “confuso e ineficaz”, e que “não se assemelha em nada ao modelo atual”.

“Toda a experiência escolar, a pedagogia e a abordagem de aprendizagem se transformaram drasticamente”, incluindo aplicativos, metas e oficinas, afirmou a empresa.

Segundo a Alpha, não é “preciso nem justo” usar a experiência inicial de Brownsville como representativa do modelo atual, acrescentando que hoje há muitas famílias satisfeitas em todos os seus campi.

Fiscalização

De forma mais ampla, especialistas afirmam que há pouca fiscalização externa sobre o modelo da Alpha e sobre o quão eficaz ele realmente é para ensinar crianças.

“Uma grande preocupação entre pesquisadores é que a Alpha se recusa a permitir pesquisas independentes para avaliar suas alegações ou examinar de fato o que está acontecendo”, disse Victor Lee, professor associado da Faculdade de Educação da Universidade Stanford.

“Esse tipo de comportamento sugere que há algo a esconder”, afirmou, acrescentando que considera “duvidosas” algumas das alegações de sucesso da escola.

Enquanto alguns especialistas veem potencial no uso da IA, outros temem que a dependência excessiva de computadores possa privar as crianças de oportunidades de socialização e do uso do pensamento crítico.

Em longas respostas à CNN, a Alpha defendeu seus métodos e resultados e afirmou que as críticas são “falsas” ou “distorcidas”.

Segundo a escola, especialistas externos que questionam sua transparência e resultados “não estão familiarizados com a abordagem da Alpha” e isso deveria ser deixado claro. “Essa não é uma forma científica de apresentar um retrato preciso da abordagem de aprendizagem da Alpha.”

A empresa afirmou ainda que contratou “cientistas da aprendizagem de renome mundial” e especialistas acadêmicos para avaliar resultados e desenvolver o currículo, e que seus alunos “aprendem duas vezes mais rápido e desenvolvem melhor compreensão em todas as disciplinas centrais”.

Apesar disso, a Alpha recusou pedidos feitos ao longo de vários meses pela CNN para visitar seus campi ou entrevistar sua cofundadora, MacKenzie Price. (A empresa afirmou no outono passado que havia “pausado” visitas não essenciais devido ao alto volume de solicitações.)

Um porta-voz do Departamento de Educação disse: “A Alpha School está reinventando a educação do ensino básico ao médio ao capacitar estudantes com habilidades práticas em IA e prepará-los para uma força de trabalho cada vez mais tecnológica.”

“Embora essa abordagem não seja adequada para todas as famílias, ela tem se mostrado transformadora para muitas, o que motivou a visita da secretária McMahon.”

Uma nova forma de aprender

A Alpha se apresenta como um modelo alternativo de educação — com um diferencial.

“E se eu dissesse que esta escola não tem professores, e que os alunos aprendem conteúdos acadêmicos com um tutor de IA, em aplicativos que oferecem a cada estudante uma jornada personalizada de domínio que garante sucesso?”, diz Price em um vídeo promocional de 2024.

A Alpha foi cofundada por Price, formada em Stanford, e pelo bilionário da tecnologia Joe Liemandt, fundador da Trilogy Software e da gestora ESW Capital.

Desde que abriu com algumas dezenas de alunos em Austin, a Alpha se expandiu para grandes cidades como Miami e San Francisco, além de locais menores como Brownsville e, mais recentemente, Chantilly, na Virgínia. Alguns campi são seletivos, com foco em esportes ou alto desempenho acadêmico.

A CNN participou de uma sessão informativa para pais em Chantilly, onde a liderança da Alpha apresentou o modelo de ensino e projetos realizados por alunos, como estudantes do segundo ano correndo provas de 5 km e alunos do terceiro ano competindo em triatlos.

As mensalidades podem ser altas, variando de US$ 10 mil (aproximadamente R$ 51 mil) a US$ 75 mil (R$ 388 mil) por ano, dependendo da localidade.

Jennifer Gabler, parteira em Brownsville e ex-professora de matemática, afirma que seus filhos — de 7, 11 e 13 anos — prosperaram na Alpha desde que se matricularam, em março de 2023, após terem sido educados em casa.

Sua filha mais nova melhorou rapidamente a leitura. “Ela foi do zero ao cem em quatro ou cinco semanas, e adorou”, contou Gabler. “Ela chegava em casa e, mesmo sem dever de casa, fazia por vontade própria, de tão animada para aprender.”

‘Incentivos’

A Alpha motiva os alunos oferecendo “incentivos”, propostos ou concedidos como recompensa por bom desempenho. O progresso é acompanhado diariamente em uma plataforma online, e essas métricas são usadas para medir resultados.

Os incentivos vão desde dias de pijama e cinema até visitas a cafés locais ou parques de trampolim — e incluem até prêmios mais caros, como dinheiro ou viagens internacionais.

Viagens locais e internacionais às vezes estão incluídas na mensalidade e, em outros casos, são pagas à parte. Os dois filhos mais velhos de Gabler viajaram para Itália e Suíça e participaram de um evento de Fórmula 1 em Austin após uma competição de programação.

Os adultos que acompanham os alunos durante as duas horas de aprendizagem e conduzem oficinas de habilidades de vida são chamados de “guias”, e não professores. Segundo a Alpha, há professores humanos para caligrafia, leitura e educação especializada, devidamente credenciados.

De acordo com anúncios de vagas, os guias não corrigem provas nem seguem um currículo tradicional. Não é exigido diploma em educação, apenas graduação em qualquer área.

Dois ex-guias disseram à CNN que assinaram acordos de confidencialidade. Um deles descreveu um ambiente informal, sem salas de aula, mais parecido com uma startup do que com uma escola.

“Parecia mais que eu trabalhava em uma startup do que em uma escola”, disse.

Gabler disse apreciar o fato de a Alpha estar sempre mudando e se adaptando, o que ensina flexibilidade às crianças — embora reconheça que isso pode ser desafiador.

Ela apontou, no entanto, que ainda vê espaço para professores humanos que dominem o conteúdo e possam intervir quando necessário.

Segundo Gabler, quando um aluno tem dificuldade, o guia o incentiva a buscar soluções por conta própria, via YouTube ou Google, mas sem ensinar diretamente. “A Alpha tem uma política muito forte de zero ensino por parte da equipe”, afirmou.

Uma dose de ceticismo

A Alpha afirma que seus alunos aprendem duas vezes mais rápido do que seus pares, com base no teste MAP (Measures of Academic Progress). Um relatório fornecido à CNN indica que os estudantes da Alpha superaram a média nacional em matemática, ciências e leitura.

Justin Reich, diretor do Teaching Systems Lab do MIT, questionou se o teste é uma medida adequada, observando que o MAP é usado principalmente em escolas públicas, não em instituições privadas com mensalidades de US$ 40 mil por ano.

Reich também demonstrou ceticismo em relação ao modelo hiperindividualizado.

“Algumas das experiências de aprendizagem mais importantes vêm de momentos coletivos”, disse. “Os momentos mais poderosos são colaborativos.”

Ele questionou que tipo de sociedade seria formada se cada criança fosse treinada apenas para otimizar seu próprio desempenho individual.

Entre os defensores da Alpha estão o bilionário Bill Ackman e a própria secretária de Educação. Elon Musk também compartilhou reportagens favoráveis.

Segundo um vídeo promocional, metade dos alunos da Alpha em Brownsville eram filhos de funcionários da SpaceX.

Victor Lee, de Stanford, afirma que a Alpha reflete o desejo de experimentar novos modelos, mas alerta: “Tenho receio de que a Alpha se torne o mascote da IA na educação.”

‘Para um grupo que vende perfeição, isso está longe de ser perfeito’

Lee também destacou preocupações sobre o uso de IA em contextos de risco para algumas crianças.

A ida das filhas de Jessica Lopez para a Alpha, em 2022, parecia uma oportunidade positiva — especialmente para a filha mais velha, autista e com ótimo desempenho acadêmico. Mas Lopez disse que logo percebeu mudanças negativas.

Embora atingissem metas acadêmicas, as meninas passaram da curiosidade pelo conhecimento para uma obsessão por métricas.

Em uma reunião de 2023, pais relataram que crianças ficavam acordadas até tarde para melhorar seus números, gerando ansiedade e choro.

Após dois anos, Lopez retirou as filhas e as matriculou em escola pública, onde percebeu que estavam defasadas.

“Elas faziam o que a escola queria. No fim, não era por alegria”, disse. Segundo ela, ao sair da Alpha, as filhas pareciam “zumbis”.

Outras famílias também deixaram a unidade de Brownsville. Algumas chegaram a formar um grupo de apoio para compartilhar experiências preocupantes.

Um porta-voz da Alpha afirmou que o modelo busca corrigir lacunas deixadas pelo ensino tradicional e que ninguém sério que estude o modelo de perto diria que conceitos fundamentais são perdidos.

As famílias que saíram o fizeram porque o modelo “não se alinhava mais às suas preferências”, acrescentou a escola.

“Minha maior reclamação é: sejam honestos sobre o que isso é”, disse Lopez. “Não existe sistema perfeito, e para um grupo que vende perfeição, isso está longe de ser perfeito.”

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