R7 denuncia esquema de fraude para formação de universitários em SP
Reportagem conseguiu comprar certificado de trabalhos complementares por R$ 150
Educação|Peu Araújo, do R7

Um cartaz nas imediações do campus Memorial da Uninove, na zona oeste de São Paulo, bem próximo ao metrô Barra Funda, chama atenção. Ele anuncia venda de TCC (trabalho de conclusão de curso) e certificado de horas complementares. Assim, como em um anúncio imobiliário, o texto oferece o serviço e registra um endereço de e-mail embaixo.
A reportagem do R7 entrou em contato com o anunciante, se identificando com um aluno do curso de admnistração de empresas, e foi prontamente atendida. Na primeira resposta, os responsáveis pelo esquema disseram que o certificado falso de um curso de 70 horas custa R$ 300 e um trabalho de conclusão de curso pronto sai, em média R$ 1.300, já com as normas da ABNT (Associação Brasileira de Normas e Técnicas).
E propõem um desconto: “Os dois (TCC e horas complementares) sairia para você por R$ 1.600, porém como já estamos finalizando para este ano, caso você tenha interesse nos dois, você pagaria os 1.300 do TCC e eu te mandaria o certificado de curso, ja com a cópia autenticada em cartório sem custo, mas somente para este final de ano.”
O certificado de horas complementares é uma exigência das universidades para a conclusão da graduação.
Em outra mensagem, do dia 5 de dezembro, o fraudador explica como funciona a compra: “Você paga na hora da entrega depois que verificar se está tudo correto, nunca tivemos problemas nas faculdades, já que a empresa e o CNPJ são verdadeiros, não trabalhamos com certificados falsos”. Nessa mesma mensagem, os infratores ainda garantem um bom resultado no trabalho final da universidade: “No caso do TCC, ele vai para uma pessoa que trabalhou 12 anos em faculdade, por isso já tem experiência na elaboração de projetos. A partir da sua ideia ela pode pensar num tema e te passar para saber a sua opinião, já que ela também tem experiência na área de educação física.”
No dia 6 de dezembro, outra mensagem pede os dados do aluno para elaboração do certificado falso e reafirma a garantia de boa nota no TCC: “No caso é forma totalmente segura e com garantia de aprovação.”

A reportagem encontrou pessoalmente com o homem responsável pela fraude e, na conversa, ele afirma que a maioria dos clientes dele são estudantes da Uninove, onde o cartaz foi encontrado.
Procurada, a universidade explicou o que faz para evitar fraudes do tipo: “há uma Comissão de Ética que também pode analisar casos de plágio, suspeita de falsidade ideológica para eventual punição. De acordo com a Comissão, irregularidades poderão sofrer sanções previstas no regimento da instituição, desde suspensão até o completo desligamento da universidade. A instituição dispõe de softwares para detectar plágios não só em TCC, como também em teses de mestrado e doutorado, posto que a conduta antiética da falsidade ideológica ou do plágio são absolutamente contrários às normas da instituição, que preza pela formação cidadã e profissional.
O texto diz, ainda, que a "Uninove reitera seu compromisso com a educação de qualidade e repudia todo e qualquer ato que não se relacione com a ética, contribuindo, assim, com a ampliação da produção intelectual nacional, capaz de gerar conhecimento científico e contribuir com o crescimento do país.”
O certificado obtido pelo R7 é de um curso de metodologia japonesa de melhoria contínua chamado “Kaizen - Melhoria Contínua”, com 42 horas de duração, realizado entre os meses de agosto e dezembro de 2016. Ele foi autenticado em 13 de dezembro no 19º Cartório de Registro Civil, em Perdizes, e tem a assinatura de um instrutor de libras credenciado na Prefeitura de São Paulo.
No Diário Oficial da cidade, o nome do fraudador, o mesmo que assina o documento, aparece ao menos duas vezes em editais como instrutor de libras.
Procurada, a Secretaria Municipal de Educação afirmou, por meio de nota, que "não é emitida qualquer certificação, por parte da Prefeitura, aos candidatos a instrutor e intérprete de Libras nos processos de credenciamento feitos pela Secretaria Municipal de Educação. O instrutor e intérprete denunciado na reportagem é credenciado, cumprindo o requerido nos editais de credenciamento (SME/DIEE 01/2016 e 02/2016 (DOC dias 27 de abril de 2016 páginas 76 e 77 e 30 de abril de 2016 - páginas 99 à 101). O credenciamento refere-se exclusivamente à possibilidade de o profissional atuar como intérprete em equipamentos públicos da rede municipal de ensino."















