"Quem decide se a Paulista ficará aberta são os moradores do bairro", diz Russomanno
Em entrevista ao R7, candidato propõe "plebiscitos virtuais" para questões locais da cidade
São Paulo|Caroline Apple, do R7

No comitê de Celso Russomanno (PRB), na avenida Faria Lima, zona oeste de São Paulo, tinha ao menos 20 pessoas transitando, telefone tocando sem parar e um clima de corrida contra o tempo. E não é para menos. Com uma campanha curta e cuidados “cirúrgicos” para não sofrer um revés como nas últimas eleições municipais, Russomanno e sua equipe se desdobram para colocar em pauta o plano de governo, que tem como tema principal a descentralização da cidade.
Foi em meio a essa movimentação que o candidato à Prefeitura de São Paulo recebeu o R7 para uma entrevista exclusiva na qual conta detalhes de como pretende administrar São Paulo e, caso eleito, transformar a capital paulista numa “cidade inteligente” e “descentralizada”.
Russomanno mostrou à reportagem algumas imagens de vias e projetos de reciclagem em Tóquio, no Japão, de onde voltou recentemente. O candidato acredita que as experiências a que teve acesso no oriente poderiam dar certo em São Paulo, como é o caso de placas de abafamento de som (como as usadas no Metrô), que também servem como forma de dar privacidade aos prédios no entorno de vias como o Minhocão. “Na minha gestão, o Minhocão continuará funcionando, mas de uma forma mais confortável para quem mora perto”, diz.
Entre as propostas do candidato está também a criação de “plebiscitos” virtuais, nos quais o cidadão poderá participar das decisões que envolvam seu bairro, como é o caso da abertura da avenida Paulista aos domingos. “As pessoas que moram no bairro devem ter o direito de decidir o que acontece na sua região. Não pode ser uma coisa imposta de cima para baixo”, afirma.
Confira os principais trechos da entrevista:
R7: Você pretende manter a avenida Paulista aberta aos domingos?
Russomanno: A questão dos bairros, para eventos, os moradores da região é que irão decidir. Por meio de aplicativos haverá votações. Acho isso muito justo. Numa democracia a maioria decide. Não pode ser uma decisão unilateral do prefeito. Os aplicativos serão usados para que as pessoas votem para tudo. É mais interessante que a pessoa possa discutir o bairro e estabelecer o que é interessante.
R7: Essa proposta não funcionaria como uma “ditadura da maioria”?
Russomanno: Ditadura da maioria não existe. Quem paga o IPTU na sua casa? Quem tem direito a morar lá? As pessoas têm que ter o direito de viver onde elas vivem, onde elas pagam para viver. Você tem que ter direito à qualidade de vida. Não se pode impor situações de cima para baixo.
R7: Quanto ao Minhocão, quais são seus planos? Como vê a mudança de nome promovida pelo prefeito Fernando Haddad?
Russomanno: Não adianta trocar o nome. Trocar o nome porque era do regime militar é uma palhaçada. Não tem razão de ser. De uma forma ou de outra, o Minhocão escoa uma quantidade imensa de veículos da zona leste. No Japão, tem até seis andares de “minhocões”. Lá, eles têm placas para que os ruídos não cheguem aos edifícios e criam privacidade. É uma via importante. Tirar o Minhocão é congestionar a cidade. Serão mais de 100 km acumulados de congestionamento. Vai parar tudo. A curto prazo, temos que evitar que o barulho atormente os moradores do entorno.
R7: Quanto à polêmica dos aplicativos de transporte individual, o que pretende fazer para ser justo com taxistas, motoristas e passageiros?
Russomanno: Eu sou um legalista. As coisas têm que ser conforme a lei estabelece. O Código Brasileiro de Trânsito é claro em relação a isso. Para transporte de aluguel, de passageiro ou de carga, individual ou coletivo, a placa tem que ser vermelha. O Uber faz um serviço de aluguel, portanto não pode transitar com placa particular. Essa discussão está acontecendo em Paris, Nova Iorque, Madri. Para se ter uma ideia, Paris e Nova Iorque proibiram o Uber. Uma empresa não pode chegar numa cidade onde existe uma concessão pública, permissionária, e estabelecer regras, como se fossem lei. A situação está descontrolada.
O Uber pode existir devidamente legalizado e com estabelecimento de quantidade. Ninguém está ganhando nada, nem taxista e nem Uber. Não tem passageiro. Os Ubers estão vivendo de vender as concessões. O motorista indica outras pessoas e ganha R$ 700 por indicação. Isso está aumentando o problema da mobilidade, colocando mais carros na rua. Vamos estabelecer quantidade e cadastrar. Se tiver uma quantidade grande, será por sorteio. É uma concorrência predatória que está acontecendo e ninguém sobrevive. Os motoristas terão que ser profissionais e com registro na prefeitura.
R7: Como sua pauta de governo, a descentralização da cidade, pode colaborar para a melhoria da mobilidade urbana? Como pretende fazer isso na prática?
Russomanno: A descentralização é uma forma de você dar mobilidade para a cidade, que hoje tem nos extremos bairros dormitórios. Em grandes cidades do mundo você não encontra isso. É todo mundo indo para o centro de dia e voltando para as periferias à noite. O sistema de congestionamento é terrível. Se você gera economia local, você decentraliza a cidade. Quero as empresas prestadoras de serviços de volta, que foram embora por causa dos impostos, como o IPTU. Vamos baixar o IPTU, como dos call center, que geram milhares de empregos. Vamos reduzir a carga de ISS e, se conseguirmos, até mesmo algum tipo de subsídio.
R7: Como você vê as ciclovias e ciclofaixas na cidade?
Russonanno: O trânsito piorou com as ciclovias. Na época do Kassab, os congestionamentos chegavam a 240 km, agora chegam a 500 km. E a situação se agravou quando o prefeito Fernando Haddad entendeu que deveria cortar a cidade de lado a lado com ciclovias. Não sou contra as ciclovias, até porque sou ciclista, mas precisava passar nas principais vias da cidade? Queremos continuar com as ciclovias, porque tem uma boa aceitação, é um bom modal, mas é um bom modal para quem se transporta de bicicleta pelo seu próprio bairro, por isso também a descentralização é importante.
R7: Você pretende reestudar os projetos das ciclovias e ciclofaixas?
Russonanno: Não vou reestudar os projetos das ciclovias, eu vou estudá-los, coisa que não foi feita. Vamos fazer estudos de impacto e ver se ela deve estar numa via principal ou lateral. Elas estão do lado direito, o que já não é correto, teria que ser nas faixas centrais. Assim, você destrói o comércio, destrói a economia da cidade. Muitos comerciantes não sobrevivem onde não pode parar carro. Você não pode parar nem para descer.
R7: Dá para tomar decisões populares pensando em uma cidade para daqui a 20 anos?
Russomanno: Dá. Quem mora em Itaquera e São Miguel pode morar lá, comprar lá, trabalhar lá. Isso não é uma medida impopular. É qualidade de vida. Ficar duas horas e meia em um coletivo de péssima qualidade não é saudável. A maioria dos ônibus ainda é montada em chassi de caminhão, feito para carregar carga e não pessoas. Pula que nem um cabrito. Acaba com o rim das pessoas e com a coluna, que ficam afastadas pelo INSS. Quem paga as contas somos nós. E esses ônibus estão concentrados na periferia.
