Polarização provoca mais violência contra candidatos, diz especialista

Para cientista político Roberto Gondo, rixas, disputas pelo poder, envolvimento com facções e ranços familiares também motivam crimes

Peritos examinam carro em que morreram Marielle Franco e Anderson Gomes, no Rio

Peritos examinam carro em que morreram Marielle Franco e Anderson Gomes, no Rio

Reprodução Record TV

A polarização da política, somada à disputa pelo poder no parlamento ou no Executivo de determinada cidade, pode provocar o crescimento dos crimes contra candidatos nas eleições em todo o país, avalia o cientista político Roberto Gondo, professor da Universidade Mackenzie de São Paulo.

Como exemplo mais icônico, Roberto Gondo cita o assassinato da vereadora carioca Marielle Franco, ocorrido em março de 2018, no Rio de Janeiro, quando também morreu o motorista de aplicativo Anderson Gomes. Para o sociólogo, ficou evidente que a parlamentar foi retaliada porque estava investigando casos suspeitos e "colocando o dedo na ferida" de pessoas que não queriam a exposição de suas atividades.

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"Obviamente que a polarização faz com que as pessoas fiquem com os nervos mais aflorados. E a briga pelo poder também é um ponto importante, tanto na Cãmara de Vereadores como no Executivo de uma cidade, porque faz realmente aflorar os sentimentos mais malucos e agressivos. Isso pode ocasionar a incidência de aumento de crimes", explicou o cientista político.

De acordo com pesquisa do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania, 85 políticos que registraram candidaturas nas eleições deste ano para disputar cargos de vereador, vice-prefeito e prefeito foram assasinados em todo o território nacional. A soma diz respeito aos atentados praticados até o dia 20 de novembro.

Brigas políticas e crime organizado

Roberto Gondo avalia que o período de eleições municipais expõe ainda mais os candidatos à violência, porque mobilizam um número maior de pessoas na disputa, normalmente concorrentes à vereança e principalmente em cidades muito pequenas.

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"Temos essa realidade em cidades pequenas e cidades cosmopolitas, onde há desigualdade social muito grande. Vamos pensar no Rio de Janeiro e na Baixada Fluminense, onde aconteceram mortes de candidatos a vereador. Você tem o papel das milícias no Rio, o papel do crime organizado."

O professor universitário Roberto Gondo ressaltou que não é possível afirmar ser os atentados são motivados por um suposto envolvimento desses políticos com organizações criminosas, mas é fato que alguns candidatos possuem uma rede de contatos desconhecida e talvez escusa. "Sabemos que o crime organizado tem envolvimento de pessoas na política que o representam e têm interesses".

Causas da violência

Por outro lado, o professor explicou que algumas rixas locais e ranços familiares podem funcionar como estopins de ações criminosas contra candidatos. "Dou um exemplo do prefeito assassinado a mando do irmão. Prenderam essa pessoa. São estatísticas que não dá pra colocar que foi por causa de um problema político 'x' ou 'y'", completou.

Segundo Roberto Gondo, outros componentes diferenciam os casos de assassinatos ou agressões de políticos em época de eleições, como aspectos culturais, os costumes da população de determinada região e até o tamanho da cidade — se capitais, grandes municípios ou situados em regiões metropolitanas.

"Há pesquisas que apontam que, em cidades menores, o consumo do álcool é muito maior e as pessoas vão para a violência pelo sentido de honra ou não de não deixar desaforos de lado. Você tem um pouco do machismo mais interiorano. Mas os centros urbanos detêm o maior número de quadrilhas, gangues, que podem ocasionar esses crimes. Existe uma série de fatores e obviamente a brutalidade, principalmente em áreas periféricas", finalizou Roberto Gondo.