Maestro João Carlos Martins fala sobre carreira e legado: ‘O único segredo na vida é jamais desistir’
Aos 85 anos, músico revisita trajetória, celebra prêmio internacional e explica como a educação musical se tornou seu novo propósito
Entrevista|Maria Cunha

O maestro João Carlos Martins acaba de se tornar o primeiro brasileiro a receber o Prêmio por Toda uma Vida Profissional José Manuel Martínez, concedido pela Fundación MAPFRE. Aos 85 anos, ele recebeu a honraria das mãos da Rainha Sofia, em uma cerimônia na Espanha.
A premiação consolida mais um capítulo de uma trajetória marcada por reinvenções, após múltiplas cirurgias, uma rara doença neurológica, um assalto e a emocionante volta ao piano com o uso de luvas biônicas, que comoveu o mundo. “O único segredo na vida é jamais desistir”, diz o músico.
Foi cerca de dois meses após essa conquista que João Carlos Martins me recebeu em sua casa para o R7 Entrevista. A conversa estava marcada para às 11h30. Ao chegar, descobri que ele estava terminando o almoço e aguardei na sala, cercada por recortes de jornais internacionais, prêmios e o piano de cauda que acompanha sua história.
Quando finalmente nos sentamos — depois de eu, sem querer, ocupar a poltrona dele e trocarmos de lugar com bom humor — o maestro abriu a entrevista como quem abre uma partitura: com disciplina, memória e paixão.

Ele revisitou sua trajetória desde os 8 anos de idade, quando iniciou a carreira de pianista, até a transição forçada para a regência, aos 63, após 31 cirurgias. E celebrou a nova fase como educador musical, um projeto que desenvolve há mais de uma década.
Meu pai foi até os 102 anos. Eu tenho 85. A primeira fase como pianista foi maravilhosa, como maestro também. E agora começa a tentativa de deixar um legado
Hoje, o maestro se dedica a um método de iniciação musical voltado para crianças de 5 e 6 anos, que já apresenta resultados surpreendentes: 80% dos alunos pediram música como matéria opcional para 2026, e 40% ensinaram aos pais o que aprenderam. Para ele, esse avanço revela mais do que números: mostra propósito.
Resolvemos, através da música, tratar do aspecto cognitivo, cuidando da ansiedade e da depressão de uma criança. Em vez de enfiar música goela abaixo para uma criança, por meio de uma brincadeira, a criança procura a música
Ao falar sobre o significado dessa missão, recorreu à própria história da música brasileira: “A única forma que eu tenho de retribuir [tudo o que vivi] é realmente realizar o sonho do Villa-Lobos. Em 1934, ele queria ‘fechar o Brasil em forma de coração’.”
A declaração remete à visão de Heitor Villa-Lobos, que sonhava em unir todo o território brasileiro por meio da música e da educação musical.
Ele também comentou o impacto das luvas biônicas, que permitiram que voltasse a encostar todos os dedos no piano depois de mais de duas décadas.
“Eu tenho 5% da velocidade que tinha, mas o fato de poder encostar os dez dedos no teclado me emocionou profundamente”, contou. O vídeo desse retorno percorreu o mundo: “Viola Davis, Michelle Pfeiffer e Charlize Theron compartilharam. Foram 33 milhões de visualizações.”
Martins também refletiu sobre seu trabalho como maestro e sobre o que significa comandar uma orquestra.
Eu fiz de cada músico da minha orquestra como se fosse uma tecla do meu piano, e o som de uma orquestra é o som do maestro
Quando perguntei o que diria ao João Carlos de 8 anos, que começava sua vida na música, ele não precisou pensar muito: “Que a única forma de você alcançar os seus objetivos e cumprir a sua missão e o seu ofício é com a disciplina de um atleta e a alma de um poeta”, afirmou.
No fim da entrevista, em vez de uma pergunta, fiz um pedido. Contei que minha irmã havia recebido, anos atrás, um vídeo do maestro tocando Luiza em homenagem a ela e, nas entrelinhas, deixei escapar o desejo de ouvir algo com o meu nome.
O maestro pensou, escolheu uma melodia e tocou. Parou ao errar uma nota, pediu para recomeçar e, quando terminou, aproximou-se para ouvir o resultado no meu celular. “Não deixo sair nada se não estiver bom”, justificou.
Em poucos minutos, transformou a sala da própria casa em palco — e uma entrevista em memória.
Veja a entrevista na íntegra:
R7: Sua carreira é marcada por grandes capítulos. Como você gosta de apresentar a sua própria história?
João Carlos Martins: Em primeiro lugar, eu posso dizer que a minha carreira como pianista começou quando eu tinha quase 8 anos de idade — ou seja, há 77 anos. Comecei a minha carreira como maestro quando os médicos falaram que eu nunca mais poderia tocar profissionalmente, depois de 31 cirurgias, aos 63 anos.
E agora, aos 85, início a minha carreira como educador musical. É um trabalho que eu e a minha equipe temos realizado há mais de 10 anos. Como eu nunca desisto, houve um momento em que pensei: não vai dar certo. Mas, nos últimos cinco anos, comecei a notar uma evolução.
Nós temos vários grupos musicais de jovens espalhados pelo Estado de São Paulo e contato com 750 orquestras no Brasil inteiro. Mas o ponto principal era: como iniciar a conexão de uma criança com a música aos 5 anos de idade? Essa era a meta que eu perseguia — e eu não conseguia obter sucesso.
Finalmente, fomos vendo que estávamos no caminho certo. O resultado foi o seguinte: aquelas crianças de 5 e 6 anos, do primeiro ano do ensino fundamental, 80% pediram para, no ano seguinte — em 2026 — terem música como matéria opcional no curso integral. E 40% dessas crianças ensinaram aos pais o que aprenderam. É um resultado muito acima de qualquer expectativa.
Eu, pessoalmente, acho que nenhum lugar do mundo tem uma forma de iniciação musical como a que nós criamos. O que nós fizemos? No século XVIII, a concentração de uma criança para estudar música podia chegar a horas. Em 1934, quando o Villa-Lobos iniciou o canto orfeônico, essa concentração talvez chegasse a 50 minutos. Hoje, não passa de 15 minutos — por causa do smartphone, dos videogames e de tudo mais.
Então, no primeiro ano, não existe nenhum instrumento. Só folha de papel sulfite, copinhos plásticos e varetas — sempre com fundo musical. E resolvemos, através da música, tratar também do aspecto cognitivo, cuidando da ansiedade e da depressão das crianças. Moral da história: invertemos o papel. Em vez de enfiar música goela abaixo, é por meio da brincadeira que a criança procura a música.
Hoje, eu não tenho dúvida: devemos lançar o mesmo projeto em Bilbao, na Espanha. A secretária de Educação da Prefeitura de Nova York já estava estudando o nosso modelo.
Meu pai viveu até os 102 anos; eu tenho 85. A primeira fase da minha vida, como pianista, foi maravilhosa; como maestro também. E agora começa a tentativa de deixar um legado.
R7: Qual você acha que é a importância do contato com a música desde a infância?
João Carlos Martins: Logo no primeiro ano, a gente já consegue detectar: crianças que poderão fazer parte de um público; crianças que terão a música como hobby; aquelas que vão se dedicar e, no futuro, poderão sustentar a família participando de orquestras ou grupos musicais — populares ou clássicos; e, finalmente, as que são verdadeiros diamantes a serem lapidados. Então, dividimos as crianças em quatro grupos.
E qual é a nossa intenção com isso? Que daqui a alguns anos o Brasil tenha milhares de orquestras jovens dentro das escolas. Eu viajei o mundo inteiro, já toquei em 60 países. Conheço muito de educação musical. E posso dizer: o nosso primeiro ano é o melhor que existe hoje. O segundo ano está bom, mas não está ótimo. O terceiro, o quarto e o quinto ainda estão em construção.
A partir de 1º de janeiro, passo a dedicar três ou quatro horas da minha vida, todos os dias, exclusivamente à educação musical.
R7: Você recentemente ganhou um prêmio na Espanha direto das mãos da Rainha Sofia. Com mais de 60 anos de carreira, milhares de concertos e agora um novo projeto de musicalização, de onde vem a sua motivação?
João Carlos Martins: O grande segredo na vida é, em qualquer fase, ter objetivos. E o que é um objetivo? Quando uma pessoa nasce, é como uma flecha que precisa alcançar um destino. Essa flecha pode desviar para cá ou para lá, mas você tem que corrigir a rota para que ela chegue ao seu destino.
Eu, na minha vida, tive altos e baixos, erros e acertos, mas a minha meta sempre foi alcançar um objetivo final. E Nietzsche dizia que a vida não vale a pena sem música.
No nosso projeto em Suzano, por exemplo, temos uma orquestra de crianças — e essa escola fica perto daquela onde um menino assassinou outras crianças. Então você percebe que, através da música, é possível direcionar um jovem para o bem. A música, no fundo, traz solidariedade, paz e amor; não traz disputa.
Hoje eu estou convencido de que estou lançando um projeto que, no futuro, vai dar orgulho para o Brasil.
R7: Após tantas reinvenções ao longo da vida, qual a importância de “recomeçar” para você hoje?
João Carlos Martins: Tem que ser como aqueles malabaristas que começam jogando uma bola para cima, depois duas, três, quatro, cinco — e vão conseguindo manter todas no ar. Eu sigo assim: como um malabarista, acrescentando sempre uma bola a mais, tentando mantê-las ali, sem deixar cair no chão.
Como pianista, eu nunca deixei — e jamais vou abandonar — o meu velho companheiro. Mesmo com todas as limitações que tenho, por causa de uma doença rara, a distonia focal do músico. Como maestro, vou continuar regendo concertos aqui e ali e, de vez em quando, ainda viajarei para o exterior. Talvez faça algo em Genebra ou Londres.
Em 2027, haverá uma homenagem do MoMA para mim, mas não será um concerto, porque a despedida internacional aconteceu no dia 9 de maio deste ano, no Carnegie Hall. Foi a minha trigésima apresentação em Nova York, e foi uma coisa tão forte… O raio não cai duas vezes no mesmo lugar, então eu não arrisco mais.
R7: Como a experiência de pianista influencia sua abordagem como maestro e a maneira como você conduz uma orquestra?
João Carlos Martins: Eu, com 63 anos [quando comecei como maestro], não poderia aprender só os 10 mandamentos da profissão de um maestro. Mas quem faz música desde os 7 anos, imediatamente, consegue se impor. Eu fiz de cada músico da minha orquestra como se fosse uma tecla do meu piano, e o som de uma orquestra é o som do maestro.
Eu sempre digo que, para reger uma orquestra ou para tocar, você tem que misturar a individualidade do intérprete com a personalidade do compositor. A minha orquestra toca com uma garra incrível. Hoje, a Bachiana Filarmônica ACES-SP é a principal orquestra da iniciativa privada na América Latina.
R7: As luvas biônicas marcaram um dos capítulos mais emocionantes da sua história. Você se lembra do primeiro pensamento quando entendeu que poderia tocar novamente?
João Carlos Martins: Eu tenho 5% da velocidade que eu tinha, mas o fato de poder encostar os 10 dedos no teclado realmente me emocionou profundamente.
Não só a mim, mas a Viola Davis, a Michelle Pfeiffer, Charlize Theron. Eu não as conheço pessoalmente. Na primeira vez que toquei com a luva, elas e muitos artistas de Hollywood compartilharam e deu 33 milhões de visualizações no mundo inteiro.
Então, eu percebi que o único segredo na vida é jamais desistir.
R7: Se pudesse conversar com o João Carlos Martins de 8 anos, o que diria a ele hoje?
João Carlos Martins: Eu contaria uma historinha para ele, que eu ouvi uma vez, não me lembro em que país. Uma jovem de 15 ou 16 anos foi estudar em Nova York. Ela deixou as malas, desceu e perguntou para uma velhinha: “Como é que eu faço para chegar até o Carnegie Hall?” Era a primeira coisa que ela queria conhecer, porque é o templo da música. A velhinha respondeu: “Estudando, estudando e estudando.”
Então, o que eu digo para o João Carlos Martins de 8 anos? Que a única forma de você alcançar os seus objetivos e cumprir a sua missão e o seu ofício é com a disciplina de um atleta e a alma de um poeta. Graças a Deus, eu tenho essa disciplina, e a inspiração é o público que julga.














