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‘Não dá para patologizar tudo’: especialista analisa violência de adolescentes contra animais

Ao R7 Entrevista, Marisol Sendim afirma que atribuir transtornos psiquiátricos a agressores pode ser uma explicação “simplista demais”

Entrevista|Do R7

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A agressão sofrida pelo cão comunitário Orelha, no início de janeiro, provocou revolta e comoção em todo o Brasil — e colocou dois debates urgentes no centro das atenções: as falhas na proteção dos direitos dos animais e o que leva adolescentes a cometerem atos de tamanha crueldade.

Foto do cachorro Orelha, de médio porte, com pelagem marrom e preta curta
Espancamento do cão orelha revoltou brasileiros em todo o país Reprodução/RECORD - arquivo

A repercussão foi tão grande que o caso motivou a apresentação de 25 novos projetos de lei na Câmara dos Deputados. Nas redes sociais, multiplicaram-se pedidos de punição aos envolvidos, enquanto especialistas alertam que, por trás da violência, existe uma discussão mais complexa do que parece.


Há quem defenda penas mais duras ou a responsabilização de adolescentes como adultos. Outros reforçam a necessidade de internação e medidas socioeducativas, como prevê a legislação, com foco em reabilitação e ressocialização. Mas, em meio ao clamor por justiça, uma pergunta permanece: a crueldade contra animais indica transtorno mental — ou reflete um cenário social cada vez mais tolerante à violência?

Para Marisol Sendim, psicanalista, pediatra, hebiatra e coordenadora da Brinquedoteca Terapêutica do IPq (Instituto de Psiquiatria da USP), é arriscado partir imediatamente para a patologização de todo e qualquer comportamento violento.


“Se fosse só assim, talvez as coisas fossem um pouco menos difíceis de lidar”, reflete. “Só que é mais complexo. Nós, seres humanos, temos camadas e camadas de história pessoal, influências, genética e traumas.”

A capacidade de agredir um ser indefeso, como um cachorro, indica necessariamente a existência de um transtorno mental? Ou nós, enquanto sociedade, caminhamos para a normalização de comportamentos violentos?


Três familiares de jovens suspeitos pela morte do cachorro, Orelha, foram indiciados por coação Reprodução/RECORD

De acordo com um índice da ACLED (Armed Conflict Location & Event Data Project), organização não governamental que monitora conflitos pelo mundo, o Brasil figura na 7ª posição entre os países mais violentos do mundo. Basta ligar o noticiário para perceber o quanto se tornaram rotineiros os casos de violência armada, letalidade policial, feminicídio, abuso infantil e agressões contra animais.


E a maioria desses crimes não é cometida por pessoas com doenças mentais — apesar do estigma. Estudos e especialistas apontam que, pelo contrário, pacientes psiquiátricos são mais propensos a sofrer violência do que a praticá-la.

Mas o que leva alguém em plenitude de suas faculdades mentais a se tornar agressivo?

“Eu acho que é muito complicado aceitar que nós, como natureza humana, em algum momento, por algum conjunto de ações, por uma situação pessoal, social e ampla, possamos tolerar, cometer ou visualizar atos atrozes sem a possibilidade de fazer uma crítica. Eu acho que isso é muito assustador. Eu acho que isso me assusta mais do que imaginar que ‘o fulano cometeu esse ato porque ele tem um problema’”, diz a médica.

Em meio aos debates, uma noção ganhou força no senso comum — especialmente com a popularização de conteúdos sobre crimes reais (true crime, em inglês) — e é considerada até por agentes de segurança no perfilamento de criminosos: a ideia de que agressores de animais seriam mais propensos a cometer crimes violentos contra pessoas.

Mais do que isso, há a crença de que atos de crueldade animal na infância seriam indícios de transtornos de personalidade, como a psicopatia ou a sociopatia.

Para a médica, banalização da violência 'assusta mais' que transtornos psiquiátricos. Arquivo Pessoal

Ao R7, Sendim analisa a tendência a comportamentos agressivos em adolescentes e discute possíveis causas para abusos contra animais. Confira a entrevista completa:

R7 – Do ponto de vista clínico, da psicologia e da psiquiatria, o que leva um adolescente a cometer um ato de agressão contra animais?

Marisol Sendim – Essa pergunta é bastante complexa. Quando a gente se confronta com um ato de violência contra um ser dependente e frágil, como um cão, perpetrado por adolescentes que teoricamente tiveram oportunidades de educação e saúde, a primeira ideia é: eles são doentes, eles têm um transtorno psiquiátrico.

Feliz ou infelizmente, essa explicação é simplista demais e, na maior parte das vezes, não é verdadeira. As ações comportamentais de crianças e adolescentes que a gente muitas vezes imagina que sejam fruto de algum transtorno psiquiátrico são muito mais complexas.

Já tem muito tempo que a ciência discute se o resultado final comportamental é fruto da genética ou do ambiente, e hoje se sabe que existe uma complexidade de manifestações. Mesmo pessoas que têm uma carga hereditária para transtornos psiquiátricos não necessariamente vão apresentar quadros psiquiátricos. Existe a epigenética.

Epigenética é a área da biologia que estuda o papel dos fatores ambientais na maneira como os genes se expressam. Na saúde mental, isso implica que determinados comportamentos podem ser influenciados por componentes genéticos, mas também moldados conforme os estímulos do ambiente, como diferentes vivências.

Onde, como, em que circunstâncias essas pessoas foram criadas? Obviamente, a gente não pode pensar só no ambiente econômico, porque seria muito simplista também. É um ambiente afetivo, familiar, que implica uma série de cuidados com aquele sujeito em formação.

Então nós temos a genética e vamos evoluindo para um ambiente maior, que a criança e o adolescente vão frequentando cada vez mais, principalmente na adolescência. A grande separação, a grande independização do sujeito do seu núcleo familiar para entrar no grupo dos pares, que vai ser modelo, reforçar a identidade e permitir que ele se expresse.

Esse grupo social dos pares está inserido numa sociedade mais ampla. Então a gente começa a ter camadas de influências complexas.

O outro aspecto é que, nessa fase desenvolvimental específica da adolescência, nós temos uma reedição de um grande desenvolvimento neurológico que acontece nos primeiros anos de vida. Ele vai acontecendo ao longo de toda a nossa vida, mas tem pontos de intensificação — e, na adolescência, existem áreas do cérebro que vão ser intensamente estimuladas.

Essas áreas do sistema nervoso que estão sendo muito estimuladas vão definir um rearranjo tanto da impulsividade, da capacidade de ação, quanto da modulação e estabilidade dos afetos. Não é à toa que a gente chama de “crise da adolescência”.

Muitas vezes os afetos ficam completamente conturbados porque estão sendo muito movimentados por ação hormonal, desenvolvimento, crescimento e estímulo social.

Tem a grande mudança física, somática, corporal, estimulada pelo crescimento, que vem se fundar nos hormônios, e a grande estimulação social: agora tenho os meus amigos, tenho os pares, tenho os ídolos, tenho modelos, a grande demanda social ampla.

Ao mesmo tempo, começa a surgir um pensamento mais abstrato, mais elaborado, que também faz parte do desenvolvimento de áreas específicas do sistema nervoso. Esperamos que isso evolua para o indivíduo poder estar mais ciente dos seus atos, fazer melhores escolhas, resolver problemas, controlar melhor a impulsividade e lidar melhor com os afetos.

E, nesse mundo de estímulos variados, nós estamos no meio de um tumulto. E aí nós temos vários estímulos que podem acontecer — muitos vinculados pela internet, pelas redes sociais.

Esses estímulos trazem, por um lado, a sensação de pertencimento, mas, ao mesmo tempo, eu também tenho uma necessidade de reafirmar esse pertencimento, manter a minha identidade.

E não foi à toa que todo esse ato de violência foi colocado na internet. Então eu fiquei me perguntando que motivações aconteceram para ocorrer a violência e, além de tudo, para essa violência ser exposta dessa forma.

Não seria a primeira vez, por exemplo, que na internet aconteceram desafios do tipo: “quero ver você jogar um balde de gelo na sua cabeça em um dia super frio”, até um de “quero ver você fazer autoasfixia e ficar um tempão se autoasfixiando”.

E muitas vezes você pensa: como é que alguém entra numa coisa dessas?

Um sujeito que ainda está estabelecendo a sua impulsividade, a sua resposta de valores, a sua identidade frente aos outros, frente a si mesmo... Se, de repente, isso pode ser um reconhecimento de que eu sou uma pessoa capaz de fazer isso, eu pego e faço uma escolha.

R7 – Mas existem pessoas que têm contato com esse tipo de estímulo na internet e não desenvolvem traços violentos. O que as diferencia das mais suscetíveis a essas sugestões?

Marisol Sendim – É uma resposta muito difícil. Eu vou me auxiliar de uma teórica política. A Hannah Arendt levantou um tema muito discutido até hoje: a banalidade do mal.

O conceito de banalidade do mal — desenvolvido no contexto dos julgamentos dos criminosos de guerra nazista — discorre sobre como indivíduos presumidamente normais conseguem cometer atrocidades, como as ocorridas nos campos de extermínio durante a Segunda Guerra Mundial.

Arendt argumenta que a falta de reflexão crítica é a raiz de uma obediência cega que, por sua vez, transforma pessoas comuns em algozes de ideologias violentas.

A origem do “mal banal” seria a ausência de pensamento próprio, que desumaniza e reduz a violência a algo rotineiro.

No contexto em que o indivíduo está, pode ter acontecido uma objetificação completa do que são seres vivos, sejam eles animais humanos ou animais não humanos.

Se houve uma desvalorização global do que é a vida e uma certa hierarquização de quais vidas valem e quais vidas não valem, o sujeito que está presenciando pode, por incapacidade de fazer um pensamento crítico sobre aquele ato e por uma necessidade talvez de ir na conformidade de uma determinada linha de ação, se desumanizar e cometer atos cruéis.

R7 – No sentido de que um trauma pode aflorar esse tipo de comportamento, ou não?

Marisol Sendim – Tem uma ideia de que, por exemplo, pedófilos, pessoas que abusam de crianças, têm um histórico anterior traumático de abuso sexual. Isso é encontrado em alguns casos, mas também não é encontrado em outros.

É por isso que patologizar um comportamento é muito arriscado. Se fosse só assim, talvez as coisas fossem um pouco menos difíceis de lidar, só que é mais complexo.

Nós, seres humanos, temos camadas e camadas de história pessoal, influências, genética e traumas. Cada um de nós tem múltiplos microtraumas durante a formação, porque é impossível ser educado e não ter nenhum. Alguma coisa acontece.

Por que alguns de nós rompem essa barreira e cometem atos que são inaceitáveis, chocantes? Por que para outros é algo completamente assustador e traumatizante?

Eu acho que é muito complicado aceitar que nós, como natureza humana, em algum momento, por algum conjunto de ações, por uma situação pessoal, social e ampla, possamos tolerar, cometer ou visualizar atos atrozes sem a possibilidade de fazer uma crítica.

Eu acho que isso é muito assustador. Eu acho que isso me assusta mais do que imaginar que “o fulano cometeu esse ato porque ele tem um problema”.

A maior parte das pessoas que têm transtornos psiquiátricos, mesmo graves, como psicose e esquizofrenia, ou pessoas que têm transtorno de estresse pós-traumático — muitas vezes ativados por estresses e gatilhos — cometem atos contra si mesmas.

A gente fica com uma pequenininha faixa: os chamados transtornos de personalidade antissocial, que ainda merecem muito estudo.

Que sujeito é esse que tem essa tendência desumanizada, desafetada, e enfrenta o mundo de uma forma desumana, no sentido profundo da palavra?

Eu acho que o mais preocupante é a gente imaginar que, eventualmente, a gente pode banalizar o mal.

R7 – Diante de uma manifestação de violência nesse sentido, como nós, enquanto sociedade, pais, responsáveis, devemos agir? Há o que fazer?

Marisol Sendim – Eu acho que sempre há. A gente não pode desistir de um ser humano, de um ser vivo. Mas o que fazer?

A gente vai precisar realmente monitorar, já que ainda são pessoas em desenvolvimento do ponto de vista do sistema nervoso central. Portanto, diagnósticos sobre aspectos de personalidade só podem ser efetivados após um desenvolvimento mais completo, após a vida adulta.

Que impacto isso causou no próprio sujeito?

Se isso foi traumático, nós estamos numa linha de pessoa que talvez, envolvida por uma série de situações, não foi capaz de conter uma impulsividade. Mas se depois ela puder fazer uma reavaliação, isso pode ser uma situação extremamente traumática, que merece um tratamento.

Por outro lado, se essa pessoa não conseguir desenvolver nenhum tipo de crítica, de pensamento, de reavaliação, essa é uma pessoa que também vai precisar de outro tipo de monitoramento e de tratamento.

Eles são diferentes, mas, de qualquer maneira, se a gente é pai ou responsável, médico ou jurista — enfim, alguém que vai estar envolvido com essas pessoas — é preciso saber que elas precisam passar por uma reabilitação, porque vão ter uma dificuldade de viver em sociedade.

R7 – Existem sinais específicos que precedem comportamentos desse tipo, aos quais os responsáveis podem ficar atentos?

Marisol Sendim – Se você for pensar no comportamento antissocial, ele se manifesta bastante cedo, na infância, com pequenos atos em que existe justamente essa desumanização, esse desafeto, a objetificação dos seres vivos.

Por exemplo: muitas crianças matam insetos. Às vezes porque têm medo, porque têm ansiedade de ver aquele inseto, porque acham que o inseto vai machucar, vai picar. Algumas crianças matam insetos com prazer.

Muitas crianças, principalmente pequenas, puxam a orelha e o rabo do cachorro. Muitas vezes é dificuldade de coordenação motora, muitas vezes é porque estão acostumadas com um bicho de pelúcia que não tem reação e, de repente, estão com um ser vivo que pode reagir.

Quando a gente vira e fala “olha, não puxa a orelha do cachorro, dói, ele é um ser vivo”, a maioria das crianças vai parar e vai tentar até fazer uma reparação, um agrado, porque não queria ferir o animal.

Algumas poucas crianças não vão considerar isso e vão continuar fazendo.

Esses pequenos atos cruéis — que não são por incapacidade, nem por incompreensão, mas que se tornam um padrão de comportamento — são o maior índice de crianças que mais tarde podem cometer atos de crueldade com animais e, eventualmente, contra pessoas.

R7 – Você acredita que a cobertura midiática que o caso teve pode influenciar outros adolescentes a cometerem atos similares?

Marisol Sendim – As pessoas que têm realmente um transtorno psicopático, um transtorno antissocial de personalidade, são pessoas que muitas vezes cometem atos porque surge uma oportunidade.

Eu não consegui ver na divulgação da mídia nenhum aspecto que incitasse a cometer atos dessa magnitude.

Eu acho que houve uma comoção, uma tristeza muito grande. Teve um movimento voltado muito para acolher as emoções das pessoas que tiveram que se confrontar com todo esse sofrimento, com toda essa dor.

É óbvio que teve o lado de olhar e ver a família e o comportamento desses adolescentes. E isso também é complicado, porque é difícil você ir para uma coisa acusatória sem conhecer em profundidade o que está acontecendo, para a gente não entrar na horda e linchar o primeiro que aparecer.

Mas é complicado.

É a mesma coisa quando, por exemplo, na internet, começaram a vetar a palavra “suicídio”, porque se fala em suicídio e acham que isso está induzindo pessoas que têm pensamentos suicidas a cometerem suicídio.

Na verdade, se as pessoas não puderem falar sobre a sua dor, essa dor pode transbordar.

Lógico: se ficar focando demais num tema sem permitir que haja uma elaboração das emoções envolvidas, a gente vai causar situações desconfortáveis e muitas pessoas podem reagir agressivamente.

É uma área delicada. Mas nós, humanos, temos essa coisa: nós somos muito complicados e, às vezes, a gente tenta simplificar para entender a nossa complicação — e nem sempre dá certo.

O inquérito da Polícia Civil de Santa Catarina, concluído na última semana, indiciou apenas um adolescente pela agressão ao cão Orelha, pedindo sua internação. Junto a ele, três adultos foram apontados como suspeitos de coação.

Na última sexta-feira (6), o Ministério Público de Santa Catarina pediu novas medidas e reconstruções mais precisas diante de supostas inconsistências na investigação. Entre as solicitações está a exumação do corpo do cachorro.

De acordo com dados do CNJ (Conselho Nacional de Justiça), uma média de 13 denúncias de violência contra animais foi feita por dia em 2025. Nos últimos quatro anos, os registros aumentaram 1.400%.

A denúncia é o primeiro passo no combate aos maus-tratos. Se você presenciou algum ato de agressão contra animais, é possível reportar de forma anônima ao Disque 181. Em caso de flagrante, acione o 190, da Polícia Militar.

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