Pacto pode se tornar declaratório sem metas claras, diz advogada sobre plano contra o feminicídio
Especialista diz que estratégia lançada pelo governo federal precisa transformar compromisso institucional em ações concretas
Entrevista|Mariana Saraiva, do R7, em Brasília
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Produzido pela Ri7a - a Inteligência Artificial do R7

O Brasil registrou, no ano passado, 1.568 feminicídios, o maior número desde que o crime foi tipificado em lei, em 2015. O dado, divulgado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, expõe a persistência da violência de gênero no país e coloca em evidência os desafios para a efetividade das políticas públicas voltadas à proteção das mulheres.
Os números ganham ainda mais relevância em um momento em que o governo federal e representantes dos três Poderes apostam em uma nova estratégia institucional para enfrentar o problema. Em fevereiro deste ano, foi assinado o Pacto Nacional para Enfrentar a Violência contra as Mulheres, iniciativa que busca ampliar ações de prevenção, fortalecer a rede de proteção e integrar diferentes órgãos do Estado na resposta aos casos de violência.
No primeiro mês após a assinatura do pacto, uma força-tarefa liderada pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública prendeu 5.238 pessoas e cumpriu 302 mandados relacionados a crimes de violência contra a mulher, evidenciando a dimensão do desafio enfrentado pelas autoridades.
Para a advogada Tatiana Naumann, especialista em casos de violência doméstica e familiar contra a mulher, os números revelam que a violência de gênero não pode ser tratada apenas como um problema criminal, mas como um fenômeno estrutural da sociedade. Em entrevista ao R7, ela afirma que a redução dos índices depende de uma rede de proteção articulada e capaz de agir antes que a violência atinja níveis extremos.
“É preciso uma rede articulada de proteção. A integração entre delegacias especializadas, Ministério Público, Judiciário, assistência social e saúde pública permite identificar ciclos de violência antes que evoluam para o feminicídio. Muitas vítimas que chegam ao desfecho fatal já haviam buscado ajuda anteriormente. A falha, muitas vezes, está na fragmentação institucional”, frisa.
A especialista alerta que, “sem indicadores claros e divulgação transparente dos resultados, o pacto corre o risco de se tornar apenas declaratório”.
“Com metas objetivas, avaliação contínua e responsabilização institucional, há maior chance de que produza efeitos concretos na redução da violência.”, destaca.
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Leia a íntegra da entrevista a seguir:
R7 — O que diferencia o novo Pacto Nacional para Enfrentar a Violência contra as Mulheres de iniciativas anteriores que já existiam no país?
Tatiana Naumann — O que diferencia o novo pacto de iniciativas anteriores é, principalmente, o grau de articulação institucional e o compromisso formal entre os Três Poderes. Historicamente, o Brasil já contou com leis avançadas e com planos e programas de enfrentamento à violência de gênero. No entanto, muitas dessas iniciativas ficaram concentradas no Executivo ou sofreram descontinuidade por falta de integração, orçamento estável e monitoramento sistemático.
O novo pacto se destaca por três aspectos centrais. Primeiro: integração entre os Três Poderes. Ao envolver Executivo, Legislativo e Judiciário de forma coordenada, o pacto busca superar a fragmentação institucional. Isso amplia a responsabilidade compartilhada e fortalece a execução das políticas já previstas em lei.
Segundo: foco em metas e monitoramento. A proposta não é apenas reafirmar compromissos, mas estabelecer diretrizes com acompanhamento, o que aumenta a possibilidade de cobrança e avaliação de resultados.
Terceiro: ênfase na prevenção e na atuação sistêmica. Diferentemente de iniciativas que priorizavam a resposta penal, o pacto reforça a necessidade de políticas estruturais, integrando prevenção, proteção, responsabilização e promoção de autonomia.
Em síntese, o diferencial está menos na criação de novas normas e mais na tentativa de garantir implementação efetiva e coordenada das que já existem, transformando políticas dispersas em uma estratégia nacional articulada.
R7 — Até que ponto políticas integradas de prevenção e educação podem reduzir efetivamente esses índices?
Tatiana Naumann — As políticas integradas de prevenção e educação são fundamentais para reduzir o feminicídio, especialmente a médio e longo prazo. Os dados de 2025 mostram que apenas punir não tem sido suficiente — é preciso agir antes que a violência chegue ao extremo.
Quando falamos em políticas integradas, estamos nos referindo a ações coordenadas entre diferentes áreas do poder público, que não atuam de forma isolada. Envolvem educação, segurança pública, saúde, assistência social e o sistema de Justiça trabalhando de maneira articulada, com metas comuns e troca de informações.
A proposta é prevenir a violência antes que ela se agrave. Quando falamos em políticas integradas, estamos falando de três frentes que precisam dialogar: educação para igualdade de gênero nas escolas, campanhas permanentes de conscientização e formação de profissionais, com o objetivo de enfrentar padrões culturais que naturalizam a violência.
A violência de gênero é, antes de tudo, um fenômeno estrutural. Sem enfrentar a raiz cultural, os números tendem a se manter. Rede articulada de proteção e integração entre delegacias especializadas, Ministério Público, Judiciário, assistência social e saúde pública permite identificar ciclos de violência antes que evoluam para o feminicídio. Muitas vítimas que chegam ao desfecho fatal já haviam buscado ajuda anteriormente.
R7 — Como esse pacto se conecta com as leis atuais de proteção à mulher e o que pode significar em termos de autonomia e segurança para as vítimas?
Tatiana Naumann — O pacto nacional se conecta diretamente com o arcabouço jurídico já existente de proteção às mulheres, especialmente com a Lei Maria da Penha e com a Lei do Feminicídio. Essas leis já estabelecem mecanismos importantes: medidas protetivas de urgência, afastamento do agressor, atendimento especializado, entre outros instrumentos.
O problema, muitas vezes, não está na falta de norma, mas na aplicação efetiva e articulada dessas ferramentas. É justamente aí que o pacto atua. Ele não substitui as leis existentes, mas busca fortalecer sua implementação por meio da integração entre Executivo, Legislativo e Judiciário.
Na prática, isso pode significar:
- Maior agilidade na concessão e fiscalização de medidas protetivas;
- Ampliação e fortalecimento da rede de atendimento especializado;
- Investimento em prevenção e políticas públicas complementares;
- Monitoramento mais rigoroso dos casos de risco.
R7 — Qual o papel do sistema de Justiça e das redes de proteção social na efetivação de suas metas?
Tatiana Naumann — O sistema de Justiça — que envolve Judiciário, Ministério Público, Defensoria Pública e polícia — e as redes de proteção social são peças centrais para que as metas do pacto saiam do papel e se tornem proteção real. O sistema de Justiça tem o papel de garantir resposta rápida e eficaz. Isso significa conceder medidas protetivas com agilidade, fiscalizar seu cumprimento, responsabilizar o agressor e evitar a revitimização da mulher durante o processo.
A aplicação efetiva da Lei Maria da Penha depende diretamente dessa atuação técnica, sensível e coordenada. Já as redes de proteção social — assistência social, saúde, centros de referência, casas-abrigo e serviços psicológicos — atuam no acolhimento e no suporte contínuo.
São elas que oferecem atendimento humanizado, orientação jurídica, apoio emocional e, muitas vezes, suporte para que a vítima reconstrua sua autonomia financeira e social.
Se o sistema de Justiça garante a proteção formal e a responsabilização, a rede de proteção garante sustentação prática para que a mulher consiga romper o ciclo de violência.
Sem essa atuação conjunta, as metas do pacto ficam fragilizadas. Com integração, troca de informações e protocolos claros, aumenta-se a chance de prevenir a escalada da violência e de oferecer segurança real às vítimas.
R7 — Quais são os desafios de implementação em diferentes estados e como superar as barreiras culturais e institucionais que ainda permeiam esse cenário?
Tatiana Naumann — Os desafios de implementação variam bastante entre os estados, principalmente por causa das desigualdades regionais, da falta de estrutura e das diferenças culturais. Um dos principais obstáculos é a desigualdade na rede de atendimento. Enquanto alguns estados contam com delegacias especializadas, casas-abrigo e juizados específicos, outros ainda têm cobertura limitada, especialmente em municípios do interior. Isso cria um cenário em que a proteção depende muito da localização da vítima
Outro desafio é orçamentário. Políticas públicas exigem investimento contínuo, capacitação de profissionais e monitoramento. Sem recursos suficientes, o pacto corre o risco de se tornar mais simbólico do que efetivo.
Há também barreiras institucionais, como a falta de integração entre os órgãos. Muitas vezes, polícia, Judiciário, assistência social e saúde não compartilham informações de forma eficiente, o que enfraquece a prevenção e a resposta rápida.
No campo cultural, o machismo estrutural ainda é um fator decisivo. Naturalização da violência, culpabilização da vítima e resistência à educação de gênero dificultam a transformação necessária para reduzir os índices de forma consistente. Para superar esses obstáculos, alguns caminhos são essenciais:
- Garantir orçamento vinculado e metas claras de execução;
- Investir na interiorização da rede de atendimento;
- Capacitar continuamente os profissionais que lidam com esses casos;
- Criar protocolos integrados de atuação entre as instituições;
- Fortalecer campanhas educativas permanentes, voltadas à mudança cultural.
O enfrentamento da violência de gênero exige constância e compromisso político. Superar as barreiras culturais e institucionais não é um processo imediato, mas com coordenação, investimento e monitoramento, é possível transformar diretrizes em resultados concretos.
R7 — Como será feito o monitoramento das metas e a cobrança de resultados do novo pacto?
Tatiana Naumann — O monitoramento das metas deverá depender da definição de indicadores objetivos e de mecanismos formais de acompanhamento pelos órgãos envolvidos. Na prática, isso envolve:
- Fixação de metas mensuráveis, como redução dos índices de feminicídio, ampliação da rede de atendimento, tempo médio para concessão de medidas protetivas e cumprimento dessas decisões;
- Integração de bancos de dados entre segurança pública, Judiciário e órgãos de assistência;
- Publicação de relatórios periódicos para avaliar resultados e identificar falhas;
- Criação de comissões ou grupos interinstitucionais responsáveis por acompanhar a execução das ações. A cobrança de resultados tende a ocorrer em diferentes níveis, especialmente se houver transparência na divulgação de dados e relatórios periódicos.
Institucionalmente, por meio do controle interno e externo (Tribunais de Contas, Ministério Público e controle legislativo).
Politicamente, por meio da transparência dos dados e da pressão da sociedade civil e da imprensa.
E juridicamente, quando houver omissão grave que comprometa direitos fundamentais.
O ponto central é que, sem indicadores claros e divulgação transparente dos resultados, o pacto corre o risco de se tornar apenas declaratório. Com metas objetivas, avaliação contínua e responsabilização institucional, há maior chance de que produza efeitos concretos na redução da violência.
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