A natureza está perdendo sua capacidade de reagir às mudanças climáticas, revela estudo
Mesmo com o clima mudando rapidamente, os ecossistemas estão se transformando cada vez mais devagar
Fala Ciência|Do R7

A natureza funciona como um sistema dinâmico, no qual espécies entram e saem de ecossistemas continuamente, mantendo o equilíbrio e a diversidade. Esse processo, conhecido como renovação de espécies, é essencial para a resiliência dos ecossistemas frente a mudanças ambientais. No entanto, um novo estudo publicado na Nature Communications indica que esse mecanismo fundamental está perdendo velocidade justamente no momento em que o planeta enfrenta as maiores transformações climáticas da história moderna.
A expectativa científica era clara: com o avanço do aquecimento global, a reorganização das comunidades biológicas deveria se intensificar. Porém, ao analisar dados de biodiversidade de ecossistemas marinhos, terrestres e de água doce ao longo de mais de um século, os pesquisadores observaram exatamente o oposto: a rotatividade de espécies está diminuindo. Nos períodos iniciais da análise mais recente, o padrão começou a se destacar:
Esse padrão se repetiu em ambientes muito distintos, desde florestas e áreas urbanas até o fundo dos oceanos.
Quando a natureza muda por dentro, não por fora
Um dos achados mais relevantes do estudo é que os ecossistemas não respondem apenas às pressões externas, como temperatura ou poluição. Eles também operam segundo dinâmicas internas complexas, onde as espécies competem, cooperam e se substituem continuamente.
Esse funcionamento foi descrito como um sistema de “múltiplos atratores”, no qual a biodiversidade se reorganiza de forma espontânea, mesmo sem mudanças ambientais aparentes. Em condições saudáveis, isso garante movimento constante, adaptação e diversidade. O problema é que esse motor interno depende de um fator crítico: a riqueza regional de espécies.
Um sinal silencioso de colapso ecológico
À medida que as atividades humanas degradam habitats, fragmentam ecossistemas e eliminam populações inteiras, o “estoque” de espécies disponíveis tende a diminuir, reduzindo o número de organismos capazes de colonizar novos espaços e, consequentemente, desacelerando a renovação biológica. Em outras palavras, a natureza não está estável, mas sim empobrecida, o que pode desencadear efeitos em cascata, como a menor capacidade de adaptação às mudanças climáticas, a perda de serviços ecossistêmicos essenciais, o aumento da vulnerabilidade a pragas e doenças e até o risco de colapsos ecológicos irreversíveis.
Dessa forma, a ausência de mudanças visíveis na biodiversidade local não deve ser interpretada como sinal de equilíbrio, mas como um possível indicativo de que os mecanismos internos que sustentam a vida estão falhando. O estudo reforça uma mensagem central para a ciência e a saúde ambiental: proteger a biodiversidade não significa apenas conservar espécies isoladas, mas preservar o próprio funcionamento do planeta, já que, quando o motor da natureza começa a desacelerar, todo o sistema passa a operar em uma zona de risco.














