Logo R7.com
RecordPlus
Notícias R7 – Brasil, mundo, saúde, política, empregos e mais

Álcool na gravidez programa o cérebro para beber no futuro; revela pesquisa

Estudo longitudinal revela como o álcool pré-natal altera o sistema de recompensa cerebral

Fala Ciência

Fala Ciência|Do R7

  • Google News
Efeitos do álcool na gestação podem durar décadas. (Foto: Fala Ciência via Gemini) Fala Ciência

A relação de uma pessoa com o álcool pode ser influenciada muito antes do primeiro contato com a bebida. Evidências científicas recentes indicam que a exposição pré-natal ao álcool pode remodelar circuitos cerebrais ligados à motivação e à recompensa, criando um terreno biológico propício a padrões mais acelerados de consumo na vida adulta. Esse efeito silencioso, porém duradouro, amplia a compreensão sobre como fatores precoces moldam comportamentos complexos ao longo da vida.

Um estudo publicado no The Journal of Neuroscience, intitulado “Estresse pré-natal e consumo de álcool pré-natal alteram o sistema dopaminérgico adulto e o consumo de álcool”, liderado por Alexander K. Converse, em fevereiro de 2026 (DOI: 10.1523/JNEUROSCI.0717-25.2026), investigou esse fenômeno por meio de um acompanhamento longitudinal de macacos rhesus ao longo de duas décadas.


O que acontece no cérebro antes do nascimento

Durante a gestação, o cérebro passa por fases críticas de desenvolvimento. Nesse período, estímulos ambientais podem alterar permanentemente a organização neural. No estudo, a exposição moderada ao álcool antes do nascimento foi suficiente para provocar mudanças mensuráveis no sistema dopaminérgico, responsável por regular prazer, motivação e tomada de decisão.


Além disso, essas alterações foram detectadas antes que os animais tivessem qualquer contato com álcool na vida adulta, o que reforça a ideia de que o cérebro já carregava uma assinatura biológica prévia associada ao comportamento futuro de beber.

Dopamina e consumo acelerado de álcool


Quando adultos, os macacos que haviam sido expostos ao álcool no período pré-natal passaram a consumir álcool de forma mais rápida em comparação aos demais. De forma relevante, as características do sistema de dopamina medidas previamente foram capazes de prever esse padrão de consumo, indicando uma relação direta entre a organização cerebral inicial e o comportamento posterior.

À medida que o consumo ocorria, novas adaptações dopaminérgicas surgiam, variando de indivíduo para indivíduo. Essas respostas diferenciadas ajudam a explicar por que algumas pessoas evoluem para padrões problemáticos de uso de álcool enquanto outras não.


Implicações para a saúde e a gestação

Os achados reforçam de forma contundente que não existe consumo seguro de álcool durante a gravidez. Mesmo níveis considerados moderados podem gerar efeitos neurobiológicos persistentes, com impacto comportamental anos ou décadas depois.

Embora o estresse pré-natal não tenha sido diretamente associado ao aumento do consumo de álcool neste estudo específico, ele permanece relevante para outros desfechos comportamentais e cognitivos, reforçando a complexidade das influências intrauterinas.

Importância do estudo

O grande diferencial dessa pesquisa está no seu desenho longitudinal prospectivo, que reproduz com fidelidade condições semelhantes às humanas. Isso fortalece a translação dos resultados para a saúde pública e amplia a compreensão sobre a origem neurobiológica do transtorno por uso de álcool.

Em síntese, o estudo sugere que a vulnerabilidade ao álcool pode ser parcialmente programada antes do nascimento, tornando a prevenção na gestação uma estratégia-chave para reduzir riscos futuros.

Últimas


Utilizamos cookies e tecnologia para aprimorar sua experiência de navegação de acordo com oAviso de Privacidade.