Aspirina diária realmente previne câncer de intestino? Nova análise traz alerta importante
Nova revisão científica avalia benefícios e riscos da aspirina na prevenção do câncer colorretal
Fala Ciência|Do R7

Durante anos, muitas pessoas passaram a acreditar que tomar aspirina diariamente poderia ajudar a prevenir o câncer de intestino. A ideia ganhou força a partir de estudos observacionais que sugeriam um possível efeito protetor desse medicamento comum. No entanto, pesquisas mais recentes indicam que essa relação pode ser mais complexa do que se imaginava.
Uma ampla revisão científica publicada na Cochrane Database of Systematic Reviews analisou cuidadosamente os dados disponíveis sobre o tema. O estudo intitulado Aspirin and other non-steroidal anti-inflammatory drugs (NSAIDs) for the prevention of colorectal cancer and colorectal adenoma in the general population, liderado por Zhaolun Cai em 2026, revisou ensaios clínicos envolvendo milhares de participantes (DOI: 10.1002/14651858.CD015266.pub2).
Os resultados destacam que o uso rotineiro de aspirina não deve ser considerado uma estratégia garantida de prevenção do câncer colorretal na população em geral.
O que os estudos clínicos revelam
Para entender melhor os efeitos da aspirina, os pesquisadores avaliaram 10 ensaios clínicos randomizados, somando 124.837 participantes. Todos os estudos investigaram se o medicamento poderia reduzir o risco de desenvolver câncer colorretal ou lesões pré-cancerosas chamadas adenomas.
A análise mostrou que, no período de 5 a 15 anos de uso, a aspirina provavelmente não reduz o risco de câncer de intestino. Em outras palavras, o benefício preventivo esperado não apareceu nesse intervalo.
Alguns dados sugerem um possível efeito protetor após períodos mais longos, superiores a 10 ou 15 anos. Entretanto, os próprios pesquisadores destacam que a confiança nessas evidências é considerada baixa, porque os resultados vêm de análises observacionais realizadas após o término dos ensaios clínicos.
Durante esses longos períodos de acompanhamento, fatores como mudança de tratamento ou interrupção do medicamento podem interferir nos resultados.
O risco imediato que muitas pessoas ignoram
Enquanto o benefício potencial da aspirina permanece incerto, os efeitos adversos já são bem conhecidos. O mesmo estudo identificou evidências consistentes de que o uso regular do medicamento aumenta o risco de sangramento grave.
Entre os principais riscos observados estão:
• hemorragia extracraniana grave
• probabilidade maior de ocorrência de AVC hemorrágico
• maior risco de complicações em pessoas com histórico de úlceras ou distúrbios de coagulação
Outro ponto importante é que mesmo doses baixas, frequentemente chamadas de aspirina infantil, podem elevar o risco de sangramento.
Além disso, idosos apresentam vulnerabilidade maior, o que torna essencial avaliar cuidadosamente os benefícios e riscos antes de iniciar o uso contínuo.
A resposta ao medicamento pode variar entre diferentes grupos
Apesar dos resultados gerais, a ciência reconhece que alguns grupos específicos podem se beneficiar da aspirina. Pessoas com condições hereditárias que aumentam o risco de câncer colorretal, como a síndrome de Lynch, já demonstraram possível resposta positiva ao medicamento em estudos anteriores.
No entanto, a revisão publicada na Cochrane Database of Systematic Reviews concentrou-se em indivíduos com risco médio para câncer de intestino, e para essa população os dados ainda são considerados inconclusivos.
Por isso, especialistas defendem cada vez mais uma abordagem baseada em prevenção personalizada, na qual fatores genéticos, histórico médico e perfil de risco individual são analisados antes de qualquer recomendação.
O caminho mais seguro para prevenir câncer de intestino
Diante das evidências atuais, a prevenção do câncer colorretal continua baseada principalmente em medidas já consolidadas pela medicina.
Entre as estratégias mais eficazes estão:
• manter em dia exames de rastreamento, como a colonoscopia
• priorizar uma alimentação rica em fibras, com frutas e vegetais
• prática de atividade física regular
• controle do peso corporal
• reduzir a ingestão de bebidas alcoólicas e produtos cárneos processados
Assim, embora a aspirina continue sendo um medicamento importante em várias condições médicas, seu uso exclusivo para prevenir câncer de intestino não é recomendado para a população geral sem avaliação médica individualizada.
Aviso: Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui avaliação por profissional de saúde. Por: Rafaela Lucena, Farmacêutica (CRF-RJ:13912).














