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Bactéria congelada há 5 mil anos desafia antibióticos modernos

Microrganismo ancestral preservado no gelo desafia conceitos modernos da medicina

Fala Ciência

Fala Ciência|Do R7

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Gelo milenar preservou bactéria altamente resistente. (Foto: True Creatives via Canva) Fala Ciência

A resistência a antibióticos costuma ser vista como um problema exclusivo da medicina contemporânea. No entanto, uma descoberta feita em uma caverna de gelo na Romênia mostra que esse fenômeno surgiu muito antes da criação dos medicamentos modernos. Uma bactéria preservada por cerca de 5 mil anos apresentou resistência a fármacos amplamente utilizados hoje no tratamento de infecções humanas.

A pesquisa foi conduzida por uma equipe liderada pela microbiologista Victoria Ioana Paun, que analisou microrganismos isolados de camadas profundas de gelo formadas milhares de anos antes da era industrial. Os achados reforçam que a resistência antimicrobiana pode ser um mecanismo natural de adaptação ambiental, e não apenas consequência do uso excessivo de antibióticos.


Um microrganismo moldado por ambientes extremos

A bactéria identificada pertence ao gênero Psychrobacter e foi denominada Psychrobacter SC65A.3. Ela foi extraída de um núcleo de gelo com aproximadamente 25 metros de profundidade, mantido em condições de congelamento contínuo desde a Pré-História.


O sequenciamento genômico completo permitiu compreender como esse microrganismo sobreviveu ao frio extremo e desenvolveu mecanismos sofisticados de defesa. Esses dados fazem parte do estudo First genome sequence and functional profiling of Psychrobacter SC65A.3 preserved in 5,000-year-old cave ice: insights into ancient resistome, antimicrobial potential, and enzymatic activities (10.3389/fmicb.2025.1713017), considerado um marco na microbiologia de ambientes extremos.

Resistência a medicamentos modernos surpreende cientistas


Testes laboratoriais demonstraram que a Psychrobacter SC65A.3 é resistente a 10 antibióticos pertencentes a 10 classes distintas, incluindo fármacos usados no tratamento de infecções respiratórias, urinárias, intestinais e sistêmicas.

Entre os achados mais relevantes está a resistência inédita a antibióticos como trimetoprima, clindamicina e metronidazol, o que indica que os genes responsáveis por neutralizar esses medicamentos já existiam muito antes de sua criação. Isso sugere que ambientes extremos favorecem o surgimento de reservatórios naturais de resistência, conhecidos como resistomas ancestrais.


Mudanças climáticas e um risco invisível

Um ponto crítico levantado pela equipe de pesquisa está relacionado ao degelo acelerado provocado pelas mudanças climáticas. A liberação desses microrganismos antigos pode permitir que genes de resistência sejam transferidos para bactérias modernas, intensificando um dos maiores desafios da saúde pública global.

Essa preocupação é especialmente relevante porque a bactéria estudada tem potencial de infectar humanos e animais, o que amplia o risco de disseminação genética em ambientes naturais e urbanos.

O potencial escondido em bactérias ancestrais

Apesar dos riscos, a descoberta também revela oportunidades promissoras. O genoma da Psychrobacter SC65A.3 contém mais de 600 genes ainda não caracterizados, além de 11 genes com atividade antimicrobiana direta, capazes de inibir o crescimento de bactérias, fungos e vírus.

Esses compostos podem servir de base para o desenvolvimento de novos antibióticos e aplicações biotecnológicas inovadoras, justamente em um momento em que a resistência antimicrobiana ameaça a eficácia dos tratamentos atuais.Os resultados da pesquisa foram publicados em 16 de fevereiro de 2026, na revista Frontiers in Microbiology, na seção Extreme Microbiology e reforça a importância do manuseio rigoroso e seguro de microrganismos ancestrais para evitar riscos ambientais e sanitários.

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